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Sedução

Creio mesmo ser verdade que a regra número um para atrair uma mulher desconhecida em um evento público é NÃO lhe dar muita atenção e tratá-la até com certo “desdém”. O mesmo vale para atrair um homem.

Mas veja, esse tipo de atitude tem como função despertar o interesse e a curiosidade no outro, pois coloca o objeto da conquista em uma posição pouco acessível, portanto passível de ser conquistada.

Isso explica o choro e ranger de dentes quando a(o) parceira(o) que tanto desprezamos vai embora. Subitamente o que era “garantido” torna-se novamente conquistável e o interesse retorna. Basta tornar o que era firme em algo “solto”.

O problema todo é o uso do termo “tratar mal”, ao estilo “mulher gosta de homem que a trata mal“. Esta é outra coisa. Ser estúpido(a) ou violento(a) nunca é uma boa estratégia, mesmo sendo capaz de atrair masoquistas e mendigos(as) de afeto. Mas quando “tratar mal” significa apenas desviar e não oferecer o foco da atenção à pessoa (que em verdade desejamos), aí pode ser uma fantástica estratégia. Está no livro “O Jogo” para quem quiser aprender.

Homem gosta de mulher que o trata mal“, pode ser lido como “homem gosta de mulher que não oferece a si mesma como terra conquistada“. Pode parecer um “mal trato”, mas não é; é uma estratégia inteligente para manter o desejo e a conquista como metas a serem alcançadas.

Isso me lembra de uma outra frase manjada, muito usada na minha época, que era: “Eu gosto mesmo é de mulher difícil“, que pode resumir tudo o que escrevi acima. O sujeito sequer gosta da mulher, curte apenas a conquista e a sensação que ela lhe traz.

Como eu sou um humanista não creio que exista diferença moral (ou intelectual) entre homens e mulheres. Não creio que os homens sejam mais grosseiros e estúpidos que as mulheres, e nem mais doces e cândidos que elas. Assim, a gentileza dos homens não deve ser vista como uma virtude suprema, tampouco a das mulheres.

Não esqueça que a “falsa” gentileza dele tem inúmeras contrapartidas do lado de lá….

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Se não houver amor

O sertanejo bonitinho que curte vodka acordou em uma bela manhã e comunicou sua esposa: “acabou, não quero mais”. Assim, na lata, sem rodeios. Direto. Arrumou as malas e se foi.

Na “comentosfera” o clima é esse: “maldito mau caráter, abandonou uma mulher linda dessas (se fosse feia podia?), destruiu sua família e blá, blá bla…”

Não, não vou defender sertanejos bolsonaristas, mas peço que tenham cuidado ao fazer julgamentos morais sobre o término de relacionamentos de personagens midiáticos.

Casamento nada tem a ver com caráter, mas com desejo. Muito pior seria continuar qualquer casamento sem essa matéria prima absolutamente essencial. E, por favor, não piorem o quadro exaltando as aspectos físicos da moça, repetindo a mesma tolice de comparar Camila Parker Bowles com Diana. Acreditem; o desejo tem suas artimanhas, e enxerga suas conexões de forma curiosa e pessoal.

Nesse tipo de caso apenas lamente que sua fantasia não tem mais como se alimentar da paixão alheia. Criar culpados – ou pior – o personagem bom e o mau, a vítima e o algoz, não faz nenhum sentido. Se ele não a deseja mais, o que se pode exigir?

Pensem bem; se ela acordasse e dissesse para ele “acabou, não quero mais você”, estaria errada? Seria ela uma megera egoísta? Seria justo criticar sua desistência em nome do amor que ela percebeu que se foi?Pois eu creio que não.

E lembrem…”Se não houver amor, não te demores”.

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Almas gêmeas

Li esta resposta a um questionamento sobre o sexo objetificado na cultura contemporânea:

“O sexo objetificado e coisificado pela padronização do erotismo, tratado como mercadoria, é vendido como estereótipo, camuflando qualquer *relação verdadeira de afeto*. Os encontros resumem-se ao desejo de adquirir um produto, algo distante do sentimento de pertencimento mútuo.”

Hoje em dia, com as relações mais livres e frouxas, derivadas – entre outras coisas – das conquistas do feminismo, achamos que as relações são “objetuais”, ‘interesseiras” e “superficiais”. Em verdade, a sexualidade sempre foi um acerto entre interesses, as vezes explícitos mas quase sempre inconscientes.

Por seu turno, “relações verdadeiras de afeto” são criações contemporâneas e nada tem a ver com sexo, que serve basicamente à reprodução e – exatamente por isso – é prazeroso. Unir afeto com sexo é um artificialismo criado pela cultura há pouco tempo, com o surgimento do amor romântico. Dizer que amor e afeto “deveriam estar unidos” é um ideia bonita, mas não tem nada a ver com a nossa programação.

Em verdade, “se amor existe, é o sentimento de uma mãe por seu filho, e todos os outros amores são dele derivados”, como diria Freud. O amor é, por certo, a fissura bizarra da estrutura cósmica, o inesperado e não programado sentimento que surge pela debilidade do feto humano ao ser expulso do ventre materno antes do devido tempo de maturação. Sua “altricialidade” – a dependência do cuidado alheio – produz reciprocamente os sentimentos maternos de afeto que constituem a base da nossa estrutura psíquica, e o que nos joga inexoravelmente no universo do desejo.

Imaginar que a novidade da estrutura de sexo conectado com amor seja o fim último de ambos sentimentos é uma crença arriscada. Determinar o fim do “projeto sexual da humanidade” – o pertencimento de um pelo outro – é tão apressado quanto decretar, na economia, o “fim da história”. Se deu errado com Fukuyama, porque daria certo com as uniões afetivas humanas?

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Flerte

Conheço mulheres simpáticas e extrovertidas que se deram muito mal nessas situações por causa de uma cultura patriarcal – mas também pela ignorância de alguns em reconhecer sinais.

Uma mulher que ri das suas piadas não está “dando mole”; ela apenas tem bom humor e está alegre. Não tome essas atitudes como “abertura”. Aprenda a ler sinais corporais e de linguagem antes de se arriscar.

Esse tópico é maravilhoso. Muitas vezes eu me coloquei nessa situação de pensar como uma mulher pode se postar diante destas situações. É realmente muito difícil diante dos códigos sociais que existem dentro do patriarcado, o modelo ainda vigente.

Pois vejam; dos homens se cobra iniciativa. Cabe a eles dizerem que desejam sair com a moça, namorar com ela, transar com ela. Claro, isso está mudando, mas muito lentamente e de forma insidiosa. O padrão ainda é esperar dos homens tais proposições.

Acontece que a iniciativa masculina é ilusória. Mesmo entre as fêmeas de antropoides existe a regra de “permitir” a iniciativa. É aqui que cabe o termo “deu mole”. “A mina deu mole e aí eu cheguei“. Portanto a iniciativa parte delas, mas a primeira palavra é deles.

Mas o que significa isso? Para muitos homens é atenção na sua fala, um sorriso, as risadas depois de uma piada, o olhar fixo, etc. Muitos homens interpretam isso como interesse e como uma abertura para proximidade, e muitas vezes é isso mesmo. O problema é que estas atitudes podem simplesmente resultar de genuína alegria, gentileza, simpatia e respeito à fala do interlocutor. Não abertura, apenas atenção.

Como diferenciar? Bem, não tenho nem experiência com isso, mas posso dizer que é saudável desconfiar. “Nahh, ela está só achando engraçado. Nada a ver. Ela é muita areia pra essa caminhonete velha“. É essencial ter calma, espera e cuidado. Observe outros sinais e não confie em apenas um único sinalizador.

Verdade, mas também é verdadeiro que não existe encontro amoroso sem risco. Desde que não haja grosseria ou violência, eu acho que arriscar é sempre válido.

Isso me faz lembrar do meu colega Rufus* (nome fictício) que apaixonou-se perdidamente por uma residente, sendo ele um mero doutorando. Escutou, sem querer, quando ela disse a uma colega que gostava de uma determinada cantora, durante uma conversa na cafeteria. Ao saber disso, ele saiu correndo do hospital, comprou o CD e lhe deu de presente. Ato contínuo, declarou-se. Recebeu imediatamente uma resposta rude e dura. Foi “colocado no seu lugar”, sem dó ou piedade.

Rufus me encontrou no almoço com o CD nas mãos (a cantora era Simone) e disse uma frase muito interessante:

– Acabou, Ric. Acabou tudo.

O curioso é que nada acaba sem ter começado. Nunca houve uma real relação, mas tão somente uma fantasia. O que havia terminado não era o romance, mas o sonho. Ou, no caso dele, o delírio.

Todavia, apesar da diferença entre os dois ser gigantesca (imagina algo como eu e a Carol Proner) ele teve a coragem que eu considero indispensável para qualquer relacionamento. Não há como abrir mão dessa iniciativa. Passei a admirar muito o Rufus após esse aparente fracasso.

O grande dilema se esconde nos limites tênues dessa postura. Simplesmente criminalizar a iniciativa masculina não faz sentido, mas talvez seja importante educar as pessoas para que possam ler adequadamente as sinalizações que as mulheres mandam – ou a ausência delas.

Mas não se iludam: declarar seus sentimentos é sempre um grande risco, o que torna a paixão algo tão desafiador.

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Rótulos

O mais provável é o erro estar nas próprias classificações artificiais que compulsivamente criamos, nos rótulos, no hétero, no bi, no gay, no trans. Ninguém cabe por completo em qualquer uma dessas definições, mas nossa sede de pertencimento nos faz procurar avidamente por algo que se assemelhe a nós.

Talvez, como diz o Zizek, a única coisa de valor nessa nomenclatura seja o “plus” aplicado ao final. No fundo, somos todos “plus”, inclassificáveis, pois nosso desejo é tão único que qualquer rotulação será absurdamente limitante.

Creio que no futuro haverá o tempo em que a frase do Ney Matogrosso fará sentido, e ninguém terá orgulho de ter uma determinada orientação sexual, subjetiva e pessoal, e seremos todos tão somente humanamente semelhantes e divinamente diferentes.

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