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Querer e deixar de querer

Não pode simplesmente uma vela apagar porque o pavio terminou, sem que alguém precise soprá-la?

Encontrei essa frase, dita por alguém muito jovem, e achei que merecia um comentário, exatamente porque acredito que muitas vezes os elogios que os homens fazem às mulheres são, em verdade, ofensas…

Essa concepção de relacionamento parte de uma visão ingênua, para dizer o mínimo: os relacionamentos acabam porque os homens não agradaram adequadamente as suas mulheres. Pois eu pergunto: por que não poderiam acabar porque uma mulher não tratou bem seu homem? Ou por que não poderia uma mulher tratada como uma princesa pelo seu parceiro simplesmente encher o saco do “grude” que está com ela? E, mais importante ainda, por que precisamos encontrar razões racionais para explicar algo profundamente inserido nos estratos inferiores da mente, e que não tem e nem precisa uma explicação racional – como o amor, a paixão e o desejo?

Um homem NUNCA perde uma mulher para outro?” Sério? E os dois milhões de casos que me vem à mente justo agora foram todos culpa dos homens? Nenhuma mulher falhou ou falha nesse terreno? Todas são perfeitas e o sucesso ou o fracasso depende exclusivamente do esforço masculino? Ou mais ainda…. precisa alguém “falhar” para que um relacionamento termine? Não pode simplesmente uma vela apagar porque o pavio terminou, sem que alguém precise soprá-la?

Come on…. a frase foi feita por um adolescente. É biscoiteira até a raiz. Parte da idealização das mulheres, como seres perfeitos, e que o fracasso das relações só pode ser debitado na conta do homem malvadão que “deixou a desejar”. Essa concepção, repito, é ofensiva com as mulheres, porque as coloca à reboque das ações masculinas. Elas não têm desejo, apenas respondem ao que recebem do seu parceiro. Assim, ela são seres reativos, passíveis e moldáveis, adaptando-se à boa ou má conduta que a elas é oferecida. Não sobra espaço para que elas simplesmente desejem ou deixem de desejar, pois que apenas respondem às ações masculinas, únicas condutoras do processo.

Se eu fosse mulher ficaria ofendida. E gritaria: “Os relacionamento podem acabar também porque, apesar do príncipe maravilhoso, lindo, gentil, atencioso e nobre que está comigo, eu simplesmente não quero mais, mesmo que nenhuma culpa possa ser atribuída a ele. Em verdade, deixei de querê-lo, e minha vontade e o meu desejo contam”.

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Observações a partir de um texto de Zizek

Observações pessoais, sujeitas à críticas:

Sim, a ideia (ou o clichê) de que “Freud está ultrapassado” é muito comum em alguns grupos. Algumas feministas ficam enfurecidas quando o mestre austríaco é citado em qualquer contexto. Muitas vezes li e ouvi de forma bem clara que a queixa contra Freud ultrapassava suas concepções sobre a mulher e o feminino, e invadia a própria essência da mensagem freudiana, ou seja, a existência de uma dimensão do inconsciente. Nestes momentos eu vejo claramente a imagem do discurso pré freudiano, onde a negação do inconsciente leva a uma arrogância racionalista.

Eu também acho pura arrogância a ideia de ser “fiel a si mesmo”, no sentido de obedecer as suas vontades e desejos. Via de regra ignoramos por completo o que verdadeiramente desejamos. Quando eu vejo relatos de pessoas sobre o que são, como pensam, seus valores, suas virtudes eu chamo de “síndrome de pocanálise”, pois os relatos nunca falam da verdade do sujeito, que lhe é interditada. Por isso precisamos de Freud mais do que nunca. O mundo não vai ultrapassar Freud até que surja algo tão revolucionário quanto sua obra para compreender a alma humana, o inconsciente e a sexualidade.

A ideia do jogo, da ficção, sempre foi uma estratégia que usei em consultas, baseada no fato de que pedir que alguém fale (a verdade) sobre si mesmo é ingênuo e inútil, e produz apenas alegorias, fantasias e auto enganos. Assim, eu pedia para que os pacientes descrevessem os outros, seus amores e seus desafetos, ou pedia que vestissem uma máscara qualquer, ao estilo “no lugar dele, o que você faria”, e escutava atentamente o paciente descrevendo seu personagem como em um jogo de RPG. Somente nesses momentos era possível que alguma verdade surgisse, desviando do retrato enganoso que sempre fazemos de nós mesmos.

Concordo que a repressão do desejo leva ao desejo da repressão. Essa característica fica muito fácil de ser percebida no proibicionismo. Pode ter certeza que aqueles que mais querem punir, castigar e proibir são os que mais sofrem pela repressão de seus desejos. Vemos isso com facilidade na legião de fascistas que querem a repressão a todo custo, que desejam prender o Lula, fechar o STF, diminuir a idade penal, a volta da ditadura, prisão, encarceramento, pena de morte ou que apoiam linchamentos de toda sorte. Estes, que tanto querem proibir e punir, são os que mais se martirizam como o bloqueio da expressão de seus desejos.

Por certo que todo o jogo da sexualidade está em jogar com os obstáculos. O segredo do desejo é a proibição, e por isso tanto desconforto ou desinteresse na sexualidade ocorre na medida em que os seus obstáculos desaparecem ou são suprimidos pela cultura. No filme “O Piano” de Jane Campion, aparece a bela metáfora do “furo na meia” que, ao meu ver, simboliza o gozo de brincar de driblar os obstáculos. Por isso eu gosto tanto do pudor: ele é exatamente essa proibição, esse bloqueio, o muro, que produz a vontade constante de brincar com os véus que se interpõem entre nós e o objeto de desejo.

Uma vez reclamei da facilitação que pais faziam para o exercício da atividade sexual de seus filhos adolescente. Fui atacado exatamente por entender que nenhuma sexualidade madura vai se estabelecer sem que ela esteja associada à suplantação de barreiras e muros – quanto mais alto mais será a significativa a conquista. Há ajudas que são profundamente destrutivas.

Por fim, concordo com Zizek que a sexualidade se baseia na possibilidade de manter um espaço de impossibilidade.

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Em Busca da LUZ

Meu amigo Túlio Ceci Vilaça escreveu sobre o poder e a sedução que existe em construções fantasmáticas de mentes criativas, algo mentiroso e falso mas que é apresentado como “A VERDADE que eles escondem de você”. Tipo, o bordão “Isso a globolixo não mostra!!!”

Sim, entendi e concordo. Tenho um conhecido muito querido meu que, quando adolescente, me falava de teorias conspiratórias sobre quase tudo: de ETs, de ninjas, da China, da “grande conspiração internacional” e do comunismo do dia-a-dia, mas quando você mostrava uma séria contradição a essa arquitetura de causas e efeitos (tipo, “se o STF é de esquerda, porque mantiveram o Lula preso e o impediram até de dar entrevistas?”) ele respondia com uma frase que ficou clássica entre os seus conhecidos: “Isso é exatamente o que eles querem que tu acredite”.

Essa pessoa é muito querida, e eu particularmente gosto muito dela, mas sei que estas crenças são adquiridas em estratos muito primitivos da mente, e não estão sujeitas a análises racionais. É inútil retirar o véu da falsidade para mostrar a verdade que se esconde por baixo, porque a realidade é menos importante do que o desejo. Ou, como diriam os filósofos “o intelecto do homem não é páreo para a sua vontade”.

Eu ainda entendo que a este tipo de vinculação com as teorias conspiratórias, ou a busca de um sentido recôndito, como uma maquinaria superior a coordenar as nossas vidas e através de uma ultra estrutura cósmica que coordena cada um de nossos passos apenas representa o desejo de encontrar sentido no caos, que nada mais é do que uma das mais nobres aspirações humanas.

A diferença é que alguns suportam – com maior ou menos grau de sofrimento – a angústia do desconhecido e das perguntas sem resposta, enquanto outros, por medos atávicos do desamparo, procuram estas respostas de forma compulsiva e irreflexiva, e acabam encontrando nos gurus, nas seitas, nas drogas, nos planos cósmicos mirabolantes e nas teorias conspiratórias mais elaboradas um alívio para este tipo especial de ansiedade.

Oferecer para eles (melhor dizendo, para nós) a saída dessa armadilha do desejo, não será através da ferramenta da razão. Apenas o afeto tem esse poder transformador.

PS: Ahhh, mas não esqueçam que o fato de um sujeito ser paranoico não impede que ele esteja MESMO sendo perseguido. Além disso, a pior de todas as teorias conspiratórias é acreditar que não há nenhuma conspiração.

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Porque sim…

Seja franco, mas não abra mão de ser objetivo e honesto. Não permita que sua franqueza se transforme em grosseria, e nem permita que aquela seja escudo desta. Responder a uma pergunta dizendo “porque eu quis” não ajuda em nada e desvela uma insegurança travestida de empáfia.

Essa réplica não explica suas razões de ter feito algo, mas apenas expressa seu direito de fazê-lo. Assim, “por que você saiu?” não cabe ser respondido com “porque eu quis“, mas deve incluir o motivo que o levou a tomar esta atitude. Poderá ser “porque resolvi dar uma volta”, “porque estava quente”, “porque precisava de ar”, etc. Dizer “porque eu quis” apenas afronta e irrita quem questiona, pois é uma resposta que não tem nada a ver com o que foi perguntado.

Já responder com um simples “não estou a fim” diante de um pedido pode ser dito assim mesmo – pois expressa sua falta de motivação – mas também pode ser explícito e incluir a verdadeira razão. “Não estou a fim porque o programa não parece bom”. “Não estou a fim porque não vale a pena o esforço” ou “Não estou a fim porque quero dormir agora”.


Ser objetivo e sincero é sempre mais difícil, mas ainda é o melhor caminho.

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Criatividade, filha do desejo

Se não há banqueta de parto, nem mesa adaptável para parto de cócoras, ainda há muitas posições diferentes que podem ser experimentadas. Marido segurando pelas axilas (posição de Odent), apoio na mesa, colo do marido, colo da doula, etc… Sempre tem como produzir soluções criativas

Se vocês me permitem uma comparação chula:

“Era uma vez uma dupla de jovens adolescentes, enamorados e cheios de hormônios que, durante um passeio por um local ermo, subitamente se viram a sós após entrarem em uma casa abandonada à beira da trilha. Depois de um silêncio, onde as respirações ofegantes de ambos ecoaram pela casa vazia, o jovem finalmente abre seu coração para a garota. “Nos últimos meses sonhei todos os dias com a possibilidade de fazermos amor, mas vejo com tristeza que o local onde pela primeira vez nos encontramos a sós não tem uma cama. É uma lástima, mas assim quis o destino. Vamos seguir viagem”

Se parto faz parte da vida sexual normal de uma mulher, as soluções criativas para os dilemas do parto devem se assemelhar àquelas que usamos para o sexo.

Ah, sim…. quando o rapaz estava saindo a moça jogou as mochilas de ambos no chão e usou como travesseiros. E o resto é história….

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