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Patético

Encontrei uma antiga namorada, com quem me tratei num passado não muito distante, desfalecida sobre uma rodela de vômito ao lado de uma bagana de maconha em um boteco do Bom Fim. Seu cabelo desgrenhado parecia a erupção de um pequeno gêiser capilar e fedia a azedo. A roupa estava amassada como um pacote de supermercado, e seu corpo debruçado sobre a mesa quase não se movia, a não ser por espasmódicos soluços, o único movimento que lhe denunciava a vida.

Seus olhos (só os vi ao fazer a volta na mesa para confirmar que era ela mesma) estavam semicerrados, como que a tentar segurar nas retinas uma imagem do passado. O esforço só conseguia manter uma lágrima estática, vitrificada, como que congelada na comissura do olho. Sua boca rígida pronunciava rancor e tristeza entre os dentes, cobertos com o fel de um desamor. Sim, sua dor era silente, assim como mudo era seu pranto. Que imagens estariam passando por detrás daquelas pálpebras? Que lembranças dolorosas estariam prisioneiras em suas memórias?  

Olhei-a mais uma vez com pena e compaixão. Tive ímpetos de abraçá-la, consolá-la, afagá-la com um abraço, mas me contive. Não seria bom para ela estar na situação na qual o afogado fosse, naquele momento especial, sua tábua de salvação. Como explicar que seu ex, aquele sujeito em frangalhos, à beira do suicídio, neurastênico e infantil pudesse estar a lhe ajudar?  

Voltei-me para a porta e dei dois passos, sem deixar de olhar mais uma vez para trás e testemunhar um derradeiro soluço a me garantir que a vida ainda habitava aquele frágil corpo. “Hic”, disse ela, e ultrapassei o batente da porta, para rua e para a noite.  

Caminhei uma quadra e percebi meu rosto corar. Ensaiei um sorriso triste enquanto chutava uma lata que teimava em ficar de pé na calçada úmida. Uma ideia estranha me visitou, enquanto dobrava a rua e procurava nos bolsos a chave do carro. “O quanto de mim havia naquele pranto? E o pensamento mais cruel era não saber se eu preferia ser o culpado daquela dor ou se era melhor sequer ser lembrado.

Patético, pensei eu.

Gustaf Schroedinger, “Whisky, Kekse und Nudeln” (Whisky, bolacha e macarrão), Ed. Kaiser, pág 135.

Gustaf Schroedinger é um escritor alemão nascido em Colônia em 1935. Durante a guerra perdeu o pai na frente russa e mudou-se com a mãe e os seus 4 irmãos para Königsberg, ode se refugiaram na casa de parentes quando as forças aliadas tomaram a Alemanha. Estudou literatura na Universidade de Konigsberg e passou a ministrar aulas nas escolas secundárias. Escreveu seu primeiro livro sobre sua infância de refugiado na dualidade entre as cidadanias russa e alemã. Depois disso publicou dois livros de contos e ensaios. O primeiro lhe valeu um prêmio nacional de contos e se chamava “Exilgeschichten” (Contos do Desterro) e o segundo foi “Whisky, bolacha e macarrão”, onde o fio condutor é a depressão e a miséria do pós guerra. É casado com Nora Krushinsky e não tem filhos.

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