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Tagarela

Bla, bla, bla, bla…

Uma psicóloga me ligou hoje para conversar sobre um projeto interdisciplinar de levar suporte a meninas gestantes que vivem em condições precárias em um bairro muito pobre de Porto Alegre. Depois de escutá-la sobre esse projeto – pelo qual sou apaixonado há anos – comecei a explicar a ela minha perspectiva e as dificuldades que percebo para sua execução. Emendei a conversa falando sobre “centering pregnancy”, atuação profissional horizontal, grupos circulares, parto e sexualidade, doulas, tecnocracia, cesarianas, a necessidade da dor para par(t)ir, etc…

Subitamente eu me dei conta de algo gravíssimo. Na minha frente vi meu pai explicando sua dificuldade de conter ideias e pensamentos. Dizia ele: “Sou reservado e tenho problemas para conversar com desconhecidos, mas quando começo a falar tenho muita dificuldade de parar e me conter. Amarro um tema no outro, faço análises profundas, me empolgo, costuro os assuntos. Fico prisioneiro da empolgação”.

Percebi que ali estava mais uma maldição que herdei do meu pai. Não consigo parar, “engato uma quarta” e fico sem freios. As pessoas se assustam, ficam desconfiadas e temerosas. Não as culpo; eu faria o mesmo.

Sei que ponho muita coisa a perder pelo meu jeito. Fico envergonhado de ser assim. Como todo viciado, prometo que não vou fazer mais isso, que vou permanecer em silêncio e não vou atropelar as etapas naturais dos encontros para não gerar desconforto. Mas…. passa um tempo e lá estou eu de novo avançando o sinal e falando em demasia.

A gente tenta por muito tempo se afastar dos determinismos familiares, mas conforme o tempo passa percebe que percorre a trilha dos seus significantes, mesmo que de forma inconsciente. As vezes me dou conta que minha fobia social fica cada vez mais semelhante à dele, minha tristeza debochada também, assim como a matraca imparável.

Para todos que já foram vítimas das minhas conversas peço perdão. A pandemia e o isolamento pioraram essa angústia de falar, mas sei o quanto isso irrita quem se aproxima. Eu prometo com o tempo melhorar.

Juro, foi a última vez…

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Arquivado em Histórias Pessoais