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Tagarela

Bla, bla, bla, bla…

Uma psicóloga me ligou hoje para conversar sobre um projeto interdisciplinar de levar suporte a meninas gestantes que vivem em condições precárias em um bairro muito pobre de Porto Alegre. Depois de escutá-la sobre esse projeto – pelo qual sou apaixonado há anos – comecei a explicar a ela minha perspectiva e as dificuldades que percebo para sua execução. Emendei a conversa falando sobre “centering pregnancy”, atuação profissional horizontal, grupos circulares, parto e sexualidade, doulas, tecnocracia, cesarianas, a necessidade da dor para par(t)ir, etc…

Subitamente eu me dei conta de algo gravíssimo. Na minha frente vi meu pai explicando sua dificuldade de conter ideias e pensamentos. Dizia ele: “Sou reservado e tenho problemas para conversar com desconhecidos, mas quando começo a falar tenho muita dificuldade de parar e me conter. Amarro um tema no outro, faço análises profundas, me empolgo, costuro os assuntos. Fico prisioneiro da empolgação”.

Percebi que ali estava mais uma maldição que herdei do meu pai. Não consigo parar, “engato uma quarta” e fico sem freios. As pessoas se assustam, ficam desconfiadas e temerosas. Não as culpo; eu faria o mesmo.

Sei que ponho muita coisa a perder pelo meu jeito. Fico envergonhado de ser assim. Como todo viciado, prometo que não vou fazer mais isso, que vou permanecer em silêncio e não vou atropelar as etapas naturais dos encontros para não gerar desconforto. Mas…. passa um tempo e lá estou eu de novo avançando o sinal e falando em demasia.

A gente tenta por muito tempo se afastar dos determinismos familiares, mas conforme o tempo passa percebe que percorre a trilha dos seus significantes, mesmo que de forma inconsciente. As vezes me dou conta que minha fobia social fica cada vez mais semelhante à dele, minha tristeza debochada também, assim como a matraca imparável.

Para todos que já foram vítimas das minhas conversas peço perdão. A pandemia e o isolamento pioraram essa angústia de falar, mas sei o quanto isso irrita quem se aproxima. Eu prometo com o tempo melhorar.

Juro, foi a última vez…

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Onde você está?

O isolamento me impede de visitar o meu pai. Com 90 anos, lúcido, sobrevivente de um AVC (que não deixou sequelas físicas) e confinado em casa, recebe apenas a visita da minha irmã. Desde que enviuvou há algumas semanas não saiu mais de casa. Nossas conversas são agora por telefone e, quase sempre, acabam na política. Eu “comuna”, ele um “coxinha”. Por vezes a conversa fica áspera, mas eu entendo o porquê. Ele deve pensar: “Daqui a pouco vou morrer e vou deixar esse comunista desamparado”.

Ontem foi a mesma coisa. Risadas, histórias, críticas e a espiral concêntricas sobre crise-capitalismo-Lula-comunismo. Ele se irrita com o meu idealismo, que lhe parece estéril. Eu me incomodo com sua cabeça dura para aceitar as mudanças necessárias – e inevitáveis. Por outro lado, esse confronto de ideias sempre foi uma marca da família; somos uma família de conversadores e debatedores. Ninguém fica bravo com os exageros retóricos alheios. Como ele sempre diz, “os debates se concentram apenas no terreno das ideias”.

Ontem, depois de quase duas horas de conversa animada a ligação caiu…

– Alô? Pai, está aí?
Silêncio…

Resolvo ligar de novo. Ele atende.

– Puxa, tua irmã ligou e caiu nossa ligação. Ela está chegando aqui com as compras.
– Não tem problema pai, eu tenho mesmo que almoçar, disse. Até outra hora. Assim que passar tudo eu e o Lucas vamos te visitar.

Ele ficou uns segundos em silêncio e perguntou:
– Onde tu estás?
– Ora, na Comuna. Não saio daqui há quase um mês. Estamos completamente confinados.
– Na comuna? Não pode…
– Por quê?
– Tu foi no banheiro? Está ligando daí? Há 5 minutos atrás estavas aqui comigo, conversando na sala!!

Não consegui conter a risada…
– Pai, a gente estava conversando o tempo todo pelo telefone!!
– Sério? (escuto ele levantar para ver se tem alguém no banheiro). Bahhh, a conversa estava tão animada que achei que estavas aqui comigo. Diz isso e cai na gargalhada. Eu também…

Acho que envelhecer bem é conseguir rir até das suas próprias limitações….

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