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Supremacismo como cola social

Um sujeito, que não sei de onde é mas escreveu em português, fez um post imenso no qual tentava defender o Estado de Israel chamando-o de uma democracia “inacabada”, mas afirmando que o governo de Netanyahu diminuía a “grandeza histórica” do sionismo. Depois de responder ao seu post, ele me bloqueou. Não vou dizer que fiquei surpreso com a atitude do sionista, mas achei que minhas palavras mereciam mais consideração. O teor do texto, enfadonho, redundante e cansativo ficava claro nas duas primeiras linhas: defendia Israel pela perspectiva do sionismo liberal que, na essência, concorda com a tese da “autodeterminação do povo judeu”, a tomada à força da Palestina, a inevitabilidade da expulsão e o mito do “ataque” dos árabes contra os poucos e desarmados judeus. Por outro lado, o texto discorda deste governo, que chama de “extrema direita israelense”. Tipo, Netanyahu “passou da conta”.

Respondi da forma como achei correto e, pelo conteúdo das minhas respostas, ele me impediu de continuar debatendo. Acredito, como Breno Altman, que “sionismo de esquerda” é um oximoro, pois não pode haver uma ideologia progressista e solidária, como o socialismo, que aceite o apartheid, o racismo e a exclusão como plataforma central de sua atuação.

Não existe grandeza histórica alguma no sionismo. Ele sempre foi uma ideologia de morte, supremacismo e exclusão. Quem admite a história exaustivamente repetida de “Pátria para os judeus” esta adotando o racismo como guia para seu entendimento da Palestina. Trocar (como ele propõe no texto) a forma como se identifica de sionista para “israelense” – sem abandonar o racismo abjeto e obsceno do sionismo – não vai produzir nenhuma mudança. O articulista, como sempre o fazem os sionistas, relativiza o massacre palestino, como se a questão palestina fosse uma “situação difícil”, mas todos sabemos onde quer nos levar.

Sim, quer chegar no sionismo de esquerda, ou sionismo liberal. Ou ainda mais profundamente cínico: o “sionismo humanista”, querendo dar a entender que os massacres, as torturas, as 30 mil crianças mortas, os 50 mil mutilados, os hospitais e mesquitas destruídos, os jornalistas, médicos e enfermeiras assassinados e todos os demais crimes de guerra fossem responsabilidade tão somente de uma fração doentia de extrema direita da sociedade israelense. Assim, a culpa da barbárie e da obscenidade assassina não recairia sobre a população de Israel, mas apenas m Netanyahu e seu grupo.

Essa estratégia morreu, e as evidências são mais do que claras. A sociedade israelense tornou-se doente, psicopática, perversa e assassina. Não sou eu quem afirma; está nas manifestações de rua, nas redes sociais, nas palavras dos políticos. São as pesquisas que confirmam. Não se refere a um grupo que tomou o poder: é a identidade apodrecida, desumana e supremacista do sionismo. É essa ideologia, semelhante à de Adolf Hitler, que destruiu a sociedade de Israel. Por isso eu afirmo que anos de doutrinação sionista produziram uma sociedade essencialmente supremacista, que desumaniza os palestinos a ponto de produzir genocídio. Netanyahu é o resultado dessa sociedade, não sua causa. Enquanto os sionistas se preocupam com insultos e com a inevitável queda na visão que as pessoas têm do Estado de Israel, nós estamos preocupados com as crianças e jovens que o seu sionismo mata e mutila. Vejam o que dizem as pesquisas com a população de Israel, pois elas espelham os valores que ela cultiva. Esta é a mesma sociedade que compra ingresso para sentar em uma poltrona no “Cinema Sderot“, na colina contígua a Gaza, para assistir as crianças e mulheres palestinas sendo bombardeadas.

Então eu pergunto: que argumento poderia ser suficiente para demonstrar que a sociedade israelense é deteriorada e monstruosa? Qual discurso poderia ser usado para quem relativiza genocídio? Que argumento você usaria diante de um “alemão de esquerda”, um social democrata em 1930, que dissesse que “matar judes tem que ser analisado no contexto. É uma situação difícil”?

Ou seja: como dialogar com um fascista?

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Arquivado em Palestina