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Animais

Eu acredito que os “defensores de animais” podem realmente ser boas pessoas, verdadeiramente preocupadas com o meio ambiente, a vida animal, a biodiversidade e a existência de todos os seres vivos. Talvez até a maioria seja composta por este tipo de caráter. Entretanto, é muito comum que sua aproximação com essas causas seja em razão de uma postura arrogante e supremacista. Defendem os animais porque detestam humanos, em especial aqueles que consideram inferiores. Não fosse por isso, por que tantos fascistas se envolvem com a causa animal?

Essa fala da Xuxa está longe de ser contra-hegemônica. Aposto como uma faixa enorme da população acha que a vida de cachorros e gatos (mas não lesmas, mosquitos e ratos; golfinhos e baleias, mas não atuns e tubarões) tenham mais valor do que a de seres humanos condenados por crimes. Por isso a naturalidade em dizer que prefere que, no lugar dos animais, sejam os prisioneiros a sofrer nas experiências médicas e/ou na busca por novas substâncias químicas aplicadas ao organismo. Essa ação seria para que façam algo de “útil” antes de morrer. Ou seja; sua existência na dependência de uma “utilidade”, e não pelo valor intrínseco da vida.

E vejam: eu e muita gente achamos que deveríamos abolir a tortura de animais com o objetivo de testar cosméticos para empresas sionistas(*), mas não é admissível que essa tortura seja aceitável se aplicada a prisioneiros – via de regra pretos, pobres e excluídos – que não tiveram a mesma oportunidade de se adaptar a esta sociedade. Tenho genuíno medo de qualquer pessoa que se diz “defensora dos animais”, porque o risco de ser um fascista travestido de “bondoso” é muito grande. Curiosamente, estas pessoas – assim como a Xuxa – têm uma autoimagem extremamente positiva, pois o fato de cuidar de bichinhos lhes oferece a ilusão de santidade.

Como diria Morpheus… “Far from it”.

(*) Clique aqui para uma lista de empresas israelenses que PRECISAMOS boicotar, por suas ações criminosas nos territórios ocupados da Palestina. Consulte esta lista do BDS para ver qual a empresa que não devemos consumir nada. Seu batom e seu “blush” podem estar contaminados com o sangue de crianças da faixa de Gaza. “Boycotting supporters of the Israeli occupation of Palestine is more important now than ever. But so many brands hide their support. Check this growing list of companies to know where you should not be spending your money or providing your service.

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Sentimentos feridos

Já pensaram em que etapa do desenvolvimento da humanidade, no que diz respeito ao progresso das ideias, estaríamos se, antes de dizer alguma coisa, levássemos em consideração se o objeto do nosso comentário poderia se ofender? Já imaginaram se isso fosse usado de verdade? Pense apenas: se antes de criticar Bolsonaro ou Trump (ou Lula, ou Mandela, ou Cristo) a gente fosse perguntar se eles se ofenderiam com a nossa observação? Por certo que eles poderiam dizer “Sim, sinto-me ofendido por ser chamado de incompetente e salafrário”, o que nos obrigaria a silenciar imediatamente. Eles, portanto, poderiam impedir qualquer crítica feita a eles apenas por afirmarem-se pessoalmente ofendidos.

Ou seja: teríamos uma sociedade controlada pelos sentimentos, pelas subjetividades, pelas suscetibilidades pessoais. Não esqueça que até chamar alguém de “careca” pode ferir seus sentimentos.

Já pensou que tudo o que dizemos precisasse ser “útil”? Quem decide o que tem utilidade na sociedade? Uma música é útil? Um filme? Uma crítica? Um comentário? Mais ainda: já imaginou se todos os “palpites” fossem considerados inadequados? Palpite vem do verbo “palpitar”, e tem a ver com as batidas do coração. Portanto, os palpites são emissões do “coração”, da intuição, das emoções, dos pressentimentos e das suposições. Oferecer nossas propostas mais emotivas é errado, inadequado ou indelicado? É justo considerar os palpites que damos diariamente sobre tudo e todos como erros, crimes ou ataques?

Duvido que uma sociedade assim organizada conseguisse se libertar do jugo da selva e pudesse alcançar uma organização social mais complexa do que um coletivo de silvícolas, um pequeno grupo de não mais do que meia centena de pessoas. Nenhuma sociedade minimamente organizada poderia sobreviver a este tipo de censura, abdicando de todo o progresso que emana do choque, do conflito e do atrito. A proteção dos sentimentos ocorreria às custas do progresso e da própria paz.

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