Arquivo da categoria: Violência

Séries Gringas

As séries americanas dos anos 60 e 70 que eu assisti na infância sempre passaram pano para o genocídio americano das população nativas, que veio associado à “Corrida do Ouro”, fluxo de deslocamento em direção ao pacífico anterior à guerra de secessão na segunda metade do século XIX. Entre os programas que eu assistia estavam Daniel Boone, Rin Tin Tin, Os Pioneiros, O Último dos Moicanos e muitos mais, sem mencionar os inúmeros filmes com John Wayne, Audie Murphy, Clint Eastwood, Randolph Scott, Glenn Ford, Lee Van Cleef e outros tantos artistas famosos de “bang-bang”, ou “western”. Todos eles poderiam ser caracterizados como filmes criados para a “exaltação da cultura branca europeia”.

Estas criações de Hollywood tinham como objetivo principal descrever os invasores brancos como “bravos e heroicos”, mas também para estereotipar os índios como violentos e traiçoeiros, ignorantes e bárbaros, ou para apresentar sua versão “civilizada”: o “bom índio”, que se tornou pacífico, subserviente, obediente e servil. Mingo (Ed Ames), o companheiro índio de Daniel Boone (Fess Parker) é o melhor exemplo de “índio bonzinho”.

Estas produções de Hollywood formaram toda uma legião de espectadores – toda a minha geração, que brincou de “Forte Apache” – manipulados pela visão colonialista americana, que escondeu durante mais de um século a barbárie e as matanças da “conquista do Oeste”.

Hoje, o que me resta é sentir vergonha de não ter percebido na época a maquiagem vergonhosa que impuseram à realidade…

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The Root of all Evil

I am sorry to say that right after another mass shooting in USA, but it’s obvious that this country is doomed, and the cause is capitalism and the focus on absolute autonomy of the self. How many more shootings are necessary for americans to understand that this is a systemic disease of american culture, and not a bunch of crazy individuals holding guns?

There’s no penal system big enough to jail all potential shooters in a country that creates a few billionaires while produces a growing population of poor and desperate people. Capitalism is the root of all evil. Without challenging the core of your inhumane system all you can do is weep and count the corpses.

Sorry, again, for your loss….

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A Maçã e o Toca-fitas

Uma menina viciada em drogas foi morta em 1995 ao tentar furtar um toca-fitas de um carro, provavelmente para dar sustento à sua dependência. O matador desferiu 10 tiros de uma sacada no 12o andar de um prédio em frente ao testemunhar a tentativa de furto. Um dos tiros a atingiu nas costas, matando-se na hora. Essa fatalidade voltou a ser debatida nos jornais e uma matéria surgiu no UOL.

A estupidez maniqueísta que atinge boa parte da classe média – e de boa parte do judiciário – não leva em conta algo que seria até simples de entender, não fosse o emburrecimento determinado pelo punitivismo tacanho da mentes mais atrasadas: um sujeito pode ser vítima e algoz ao mesmo tempo, na mesma ação, no mesmo momento.

Cristiane Gaidies, Maçãzinha – a menina que foi morta – era vítima de sua doença (a drogadição) e de uma condição social brutalizante e desumana (pessoa em situação rua). Não há dúvida sobre essas condições, onde ambos os condicionantes surgem de uma situação econômica e social perversa, que produz “sujeitos-lixo”, descartáveis e inúteis. Maçãzinha era uma das milhões de vítimas do capitalismo que, para gerar opulência, luxo e conforto para uma parcela diminuta do mundo precisa manter uma gigantesca massa de deserdados date que a sustenta. Por outro lado, Maçãzinha estava realmente cometendo um crime de furto, provavelmente para sustentar seu vício. Não é difícil entender que ela era vítima e ladra, ao MESMO tempo.

Por seu turno, o sujeito que desferiu os tiros também foi vítima e carrasco na mesma ação. No caso, foi vítima de roubo, mas foi um carrasco brutal em sua ação de retaliação e/ou proteção da propriedade, agindo de forma absolutamente desproporcional e desumana. Da mesma maneira os policiais que mataram Genivaldo – por estar sem capacete, uma contravenção de trânsito – também usaram de força desmedida combinada com uma crueldade acima de qualquer dúvida. Genivaldo foi sacrificado pelo delito banal de não usar capacete.

O assassino de Maçãzinha hoje é advogado em SP

Existe um preceito claro nos sistemas jurídicos de todo o mundo que nos diz que “a pena não pode suplantar o delito”. Uma vida não pode ser perdida ou descartada por um toca-fitas, um prato de comida, um saco de batatas ou um automóvel. Coisas são passíveis de reposição, vidas jamais. Aceitar que uma jovem seja morta porque “afinal, estava furtando”, é deixar-se submeter a uma lógica da vingança, do vale-tudo, do “olho-por-olho” e uma regressão medieval, que só pode surgir em sociedades doentes.

Sem que possamos entender este dilema não haverá possibilidade de evoluir enquanto sociedade. Ela nos divide entre os que não têm e os que têm, e estes últimos teriam o direito até de matar para garantir suas “coisas”, suas propriedades, até porque nessa lógica desumana as coisas se sobrepõem às vidas, e sobre elas tem precedência. Um sistema assim construído leva ao desastre. Com o tempo, despojados do valor intrínseco de sermos humanos, o ódio nos fará reagir, bastando para isso uma faísca que detone a pólvora da indignação e das humilhações silenciosas.

Indignar-se com crimes absurdos como esses – de Maçãzinha e Genivaldo – não é suficiente, mas banalizá-lo é o roteiro para uma convulsão social.

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O Império apodrecido

Uma coisa que me chama a atenção nas guerras em que os Estados Unidos estão envolvidos é a ação da imprensa corporativa americana – controlada pelo próprio governo – de disseminar a ideia na população de que os inimigos da América são bárbaros, animais e, acima de tudo, pervertidos, que atacam a luz da civilização que os Estados Unidos representam.

Por certo que não é nenhuma novidade que os Impérios produzam uma visão diminutiva de seus inimigos através do recurso do etnocentrismo. Há muitos anos que a política e o cinema americanos produzem em suas manifestações e filmes a ideia de que os países que cercam Israel são bárbaros, com costumes inaceitáveis, retrógrados e medievais. Descrevem a colônia europeia invasora da Palestina como uma “cidade no meio da selva”. A ideia, como sempre, é justificar a barbárie do apartheid, da limpeza étnica, dos massacres, das torturas e das prisões arbitrárias como uma “luta civilizatória”, em que de um lado estão as luzes da razão e do outro a selvageria de povos incultos e violentos. Nada de novo desde as Cruzadas…

Na guerra contra a Ucrânia a narrativa volta como um script que se repete de forma enfadonha, onde os russos que invadiram o país vizinhos são descritos como estupradores e assassinos de crianças, fazendo com que essa perspectiva seja repetida em múltiplos portais de notícia obedecendo a lógica de Goebbels, de que “uma mentira repetida centenas de vezes torna-se verdade”. Assim vemos por toda parte notícias de estupros cometidos por soldados russos, como na BBC e no Washington Post, tendo como característica as denúncias sem comprovações, os relatos unilaterais e as descrições vagas. O próprio governo da Rússia denunciou que estas acusações, como sempre acontece nos teatros de guerra, são criações, mentiras grosseiras criadas para desumanizar o inimigo e permitir que atrocidades sejam cometidas contra eles.

A verdade, entretanto, é bem diferente desta peça publicitária apresentada pelo governo americano através das mídias corporativas que controla. Em outubro de 2021 o New York Times publicou uma reportagem com o chamativo nome “A Poison in the System: The Epidemic of Military Sexual Assault”, ou “Um veneno no sistema: a epidemia de abusos sexuais nas Forças Armadas”. Nesta matéria fica claro que existe uma epidemia que ocorre por dentro das Forças Armadas Americanas no que diz respeito aos abusos sexuais cometidos por soldados americanos contra seus próprios parceiros de armas. Por certo que, apesar de as mulheres serem apenas 16.5% do contingente, elas são as grandes prejudicadas, mas também homens são vítimas deste tipo de violência. Uma de cada quatro mulheres nas forças armadas sofreu algum tipo de abuso, enquanto mais da metade sofreu assédio, de acordo com uma metanálise de 69 estudos publicadas no jornal “Trauma, Violence and Abuse” em 2018. (Para uma análise interessante sobre o tema indico o documentário “Invisible War” de Kirby Dick, que pode ser visto no YouTube).

Como sabemos, as acusações de abuso sexual são de difícil comprovação e no ambiente militar não poderia ser diferente. Mais do que isso, os números oficiais são grandemente subestimados, pois existe nas Forças Armadas a ideia de que ser vítima de um abuso significa submissão e fragilidade. O maior obstáculo é o medo das repercussões pessoais, o que certamente prejudicará a própria carreira militar, principalmente se quem fez a acusação tem dificuldades para comprová-la. Num ambiente altamente competitivo como o exército poucos aceitam este rótulo e as violências são muitas vezes mantidas em segredo. No ano de 2020 houve 6.200 relatórios de abuso sexual nas forças armadas americanas, mas apenas 50 casos (0.8%) levaram a algum tipo de condenação. Após as acusações de torturas e assassinatos na prisão iraquiana de Abu Ghraib, outras graves acusações de crimes contra os direitos humanos emergiram para a imprensa e para o judiciário americano, envolvendo o estupro de 100 militares americanas no Afeganistão recentemente, o que nos deve fazer pensar em qual número de violações poderíamos pensar para a população subjugada pelo exército americano.

Diante dessa realidade é lícito perguntar: se os soldados americanos violam e abusam de suas(seus) próprias(os) parceiras(os) imaginem o que estes soldados fazem nos territórios invadidos e arrasados pelo Império. É lícito imaginar o que esses psicopatas fizeram com mulheres e crianças quando invadiram o Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Vietnã, Coreia e muitos outros. Se estes sujeitos atacam suas colegas correndo o risco de uma corte marcial e até a prisão, imaginem o que fizeram na perspectiva agir em uma terra sem lei, onde a simples vontade de um combatente, combinada com a negligência dos comandantes, pode significar os mais terríveis abusos.

Nos últimos anos, e principalmente após a saída das tropas do Afeganistão, várias reportagens foram feitas sobre os abusos das tropas americanas ocorridas neste país montanhoso. Muita ainda há que se descobrir pois, por certo, existem crimes hediondos que estarão encobertos do público em geral. Se é possível inventar crimes para desumanizar os oponentes e inimigos, por que não seria igualmente possível encobrir tudo de hediondo que existe nestas invasões? A verdade é que as Forças Armadas americanas ignoraram as acusações de abusos sexuais contra crianças afegãs por anos, colocando um manto de invisibilidade sobre os relatos, em especial os estupros seguidos de morte cometidos contra meninas.

Pelo histórico de abuso das forças armadas do Império fica fácil diagnosticar as recentes acusações contra as tropas russas como uma projeção das sombras mais escuras e tenebrosas da dominação americana pelo mundo. A ideia de acusar os inimigos de atrocidades e violações graves dos direitos humanos mais parece um movimento exonerativo, a tentativa de colocar a pior parte das próprias perversidades, aquelas mais moralmente condenáveis, naqueles a quem se combate.

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Mendigos

No Brasil do BBB o caso do morador de rua que foi espancado por ter sido flagrado mantendo relações sexuais com a esposa de um personal trainer virou assunto nacional. Inúmeros memes e piadas pipocaram nas redes sociais. Muitas pessoas encontram no inusitado da situação uma forma de entretenimento sarcástico, não se importando com o sofrimento das pessoas envolvidas. Eu acabei assistindo alguns poucos minutos da entrevista que o morador de rua deu para um podcast na internet, e em função do que vi gostaria de fazer algumas considerações.

É consenso entre os profissionais da área que a maioria dos pessoas em situação de rua (este é o termo mais correto) no Brasil não estão nessa condição pela pobreza, pela falta de moradia ou pela escassez absoluta de recursos, mas por um conjunto de fatores (que podem incluir estes determinantes sociais) onde a doença mental desempenha um fator preponderante.

“(…) para Botti et al (2009) o maior problema da área da saúde, que atinge os moradores de rua, refere-se ao sofrimento mental, como: dependência de álcool e drogas em geral e ainda neuroses e psicoses. No que concerne as pesquisas divulgadas, Montiel et al (2015) destaca-se os padrões de personalidade com maiores alterações em moradores de rua, são eles Paranoide, Antissocial, Histriônico e Esquizotípico, bem como, a prevalência de transtorno antissocial.  Pesquisas americanas, ressaltadas por Montiel et al (2015) indicam que cerca de 90% dos moradores de rua receberam um diagnóstico psiquiátrico, onde predominaram transtornos clínicos e da personalidade em padrões Esquizoides, Borderline e Dependente, Psicose e uso de álcool, assim como, esquizofrenia, no Reino Unido (TIMMS E FRY, 1989; FAZEL et al., 2008; BASSUK, RUBIN E LAURIAT, 1984; apud BOTTI et al, 2009, MONTIEL et al., 2015). Já as pesquisas brasileiras realizadas no Rio de Janeiro e Niterói, citadas por Botti et al. (2010) mostra a presença de distúrbios mentais maiores (22,6%), esquizofrenia (10,7%), depressão maior (12,9%), déficit cognitivo grave (15%) e abuso/dependência de álcool (44,2%). Botti et al (2010) salienta que os distúrbios mentais maiores aparecem com maior prevalência em homens solteiros em situação de rua.” (veja o estudo completo aqui)

Não sou psiquiatra, nem da área da saúde mental, mas ao escutar por um período curto o discurso do morador de rua ficou claro para mim que ele parece sofrer de algum desequilíbrio psiquiátrico. Sua descrição pormenorizada e detalhada da relação sexual mantida – verdadeira ou fantasiosa – lembra muito os relatos de psicose onde ocorre uma deserotização do corpo, que aparece na narrativa como “corpo real”. A forma como descreve o encontro parece de alguém que conta uma história de ficção, como um delírio, mas reconheço que não tenho como avaliar o quanto de realidade existe em sua narrativa.

Diante da suspeita de que esse morador de rua possa estar delirando eu creio que dar voz a um sujeito possivelmente doente, para descrever uma cena que constrange esta mulher e a sua família, me parece eticamente inaceitável. Eu diria o mesmo se não houvesse a suspeita de que ele é psicótico, mas minha rejeição se reforça diante de tantas sugestões para a existência desse distúrbio.

Sobre a moça existem duas possibilidades básicas, já que uma terceira – que ela tenha agido sob coação – foi rapidamente descartada, e por ela mesma. A primeira é que se tratava de uma fantasia sexual, o interesse pelo sujeito da rua, que teria lhe dito ou feito algo que despertou seu desejo. Diante da descoberta do seu ato, ela teria usado a desculpa de um surto para tentar justificar o ocorrido. Essa é uma explicação possível, e sua internação na ala psiquiátrica do hospital teria ocorrido para reforçar a tese da perda abrupta de contato com a realidade.

A outra possibilidade é que tenha realmente ocorrido um surto, e que suas atitudes tenham sido guiadas por uma determinação do inconsciente, pelo descontrole do seu aparelho psíquico em controlar tais impulsos. Tudo que ocorreu entre ela e o morador de rua esteve sob o domínio dessa condição psíquica alterada. Ela estaria, portanto, incapaz momentaneamente de tomar decisões sobre si mesma e seu corpo. Esta segunda hipótese também é possível, e nesse caso teríamos uma ou as duas pessoas envolvidas no caso relacionadas com a doença mental. É possível que o morador de rua tenha condições crônicas – a esquizofrenia e o alcoolismo – e a moça um quadro subjacente agudizado – o surto – que fez com que se encontrassem naquela fatídica noite.

De qualquer maneira não acredito que esse caso deva ser usado da forma sensacionalista como estão fazendo alguns programas na Internet. Expor as vítimas dessa maneira cruel me parece inaceitável. Eviscerar a ambos em praça pública e, pior ainda, tratar esse rapaz como “herói”, ou “mendigo galanteador” é injusto e ofensivo com a moça, que pode estar padecendo também de uma doença psíquica grave. Espero que ela possa se recuperar do trauma e, caso seja mesmo diagnosticada com a doença psíquica que aparenta ter, que tenha o direito à privacidade e ao tratamento adequados. Acredito que o verdadeiro “mendigo” dessa história é esse jornalismo miserável, que explora da maneira mais sensacionalista os fatos, expondo de maneira abusiva a intimidade de pessoas, solapando a privacidade de pessoas que podem ter agido condicionadas pela doença mental.

Quanto ao morador de rua, que ele possa se cuidar e que seja tratado pelo que é: alguém doente que precisa de ajuda e não como exemplo, e que se afaste de qualquer exposição ou exploração de seu nome para a política, como tem sido aventado nos últimos dias.

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