Arquivo da categoria: Violência

Greta

As atitudes de Greta incomodam o “establishment” por servirem de contraponto às posições hegemônicas. Greta ataca o cerne do capitalismo destruidor e autocida. Esta é a origem do “backlash” às suas palavras e atos. O que incomoda em seu discurso não é o fato de ser mulher, autista ou jovem, mas por representar uma vertente política que se contrapõe ao modelo de desmonte da natureza que agora está em curso. As ações de Greta são muito mais importantes do que seu gênero, idade ou condição. Ela é atacada por trazer evidências incontestes da nossa estupidez e egoísmo e jogá-las na cara dos poderosos. Seu rosto infantil e sua figura miúda funcionam como um potente veículo para transmitir a ideia de que, como ela, o meio ambiente é frágil e delicado e, por isso mesmo, precisa ser protegido.

Não é difícil entender a revolta de setores conservadores, nem sua natural virulência.

Por muitos anos testemunhei o peso que representa pensar fora das caixas estreitas da corporação. Atender em hospitais com 90% de cesarianas e ainda assim lutar pela autonomia das mulheres e seu direito de escolha pelo parto normal sempre foi visto como uma grave ofensa. As atitudes dos “diferentes” os “do contra” são tomadas como agressões a um modo de pensar que é assumido pela maioria, mesmo quando ilegal ou agressivo.

O parto humanizado no ambiente da cesariana oportunista, o respeito aos direitos humanos no universo policial, a lisura na política e a postura ecológica e sustentável no trato do meio ambiente ofendem aqueles que lucram com as posturas violentas, agressivas e desrespeitosas, em especial para os que estão em posição de poder.

Como o debate racional se torna perigoso – pois os argumentos e as evidências sustentam as posturas em oposição aos modelos atuais – a forma mais eficaz de combater as ideias incômodas – verdades inconvenientes – é atacar os mensageiros e destruir sua reputação. Com Greta não seria diferente.

Entretanto, seria ingenuidade imaginar que alguém tocasse na ferida exposta do capitalismo predatório e suicida sem receber os ataques inevitáveis do paradigma moribundo. Greta terá o mesmo tratamento cruel que muitos recebem quando decidem expor suas paixões e suas propostas.

Sua resiliência será posta à prova.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Violência

Habilidades precoces

Há alguns dias me envolvi em um debate (nome culto para “treta”) por causa da imagem de uma criança de menos de 3 anos que foi treinada para dar saltos mortais para trás (back flips). Nas imagens estava acompanhada por um treinador, que poderia ser seu pai. (vide acima)

Eu sempre me incomodo quando aparecem “crianças prodígio” no Facebook ou no Youtube. Fico pensando o quanto essa criança não foi forçada a apresentar uma performance que não faz parte do repertório normal da infância. Já pararam para pensar como essa criança foi treinada para fazer essa “micagem”?

Penso que esse tipo de treinamento é o mesmo usado para treinar um cachorro para fazer essas coisas no circo. Pode ser até uma atividade lúdica, mas qual o sentido de uma criança dessa idade fazer saltos mortais? Para quem? Apenas para o nosso aplauso? Será que essa escolha é consciente? Será que ela não se submete a treinamentos não compatíveis com sua idade – a exemplo de muitos virtuosos da música – apenas para ser explorada como um “mico amestrado”? Eu nunca vejo habilidades especiais em crianças com bons olhos; sempre penso que muitas vezes existe abuso para fazer a criança se tornar um performático por obra de adultos.

Eu pergunto: dá para afirmar que estas crianças escolheram livremente um regime alimentar e de exercícios para se tornarem acróbatas ou fisiculturistas? Para quem? Certamente que eu não posso afirmar isso (que teria sido forçada), mas eu prefiro ver criança se comportando como criança e me choca ver agindo como adultos em miniatura.

Para aqueles que argumentam que a criança “escolheu livremente uma atividade penosa e difícil”, eu pergunto como é possível diferenciar isso de estimulação precoce para se adaptar a um desejo – em verdade uma pressão velada – por parte dos pais? Como saber se a criança realmente deseja uma tarefa – via de regra árdua e penosa – ou apenas tenta se adaptar a uma expectativa dos adultos que a cercam?

Nenhuma criança de menos de três anos de idade se interessa por saltos mortais para trás sem que haja por trás dessa escolha um exemplo que ela adquiriu em casa e um estímulo para além do que seria lúdico. Tais manobras não fazem parte do nosso desenvolvimento normal. Crianças dessa idade nadam por diversão, correm muito, fazem exercícios, dão saltos, contam histórias, cantam… mas não fazem acrobacias como saltos mortais. Esses saltos acrobáticos são originados de um treinamento específico que, que quando impostos nessa idade, não são naturais. Foram incentivados pelos pais ou por quem cuida delas. Exercícios e brincadeiras ocorrem desde que o mundo é mundo, mas acrobacias precoces ocorrem a despeito do real desejo ou da necessidade de crianças pequenas.

A diferença entre praticar natação e dar saltos mortais é que somos “homo sapiens aquaticus” e nos desenvolvemos como espécie perto de mananciais e rios por causa do nosso sistema de resfriamento cerebral à base de água. Somos atavicamente ligados à água, mas criança tem que ser criança. Aqueles que são muito jovens e não passaram pela fase – por volta dos anos 80 – de ensinar crianças a escrever e ler com 3 ou 4 anos não participaram do debate decorrente dessa corrida desenfreada pela precocidade. Hoje em dia muitas publicações relacionam a precocidade do letramento com graves problemas de dislexia e outras questões psicológicas. É a mesma lógica.


Um argumento recorrente é quando dizem que este tipo de estímulo seria fundamental em um mundo competitivo em que, para se alcançar o sucesso, as crianças precisam adquirir habilidades especiais e serem os melhores em seu campo de ação. Diante desse tipo de argumento eu digo que eu jamais desejei que meus filhos tivessem “sucesso”. Eu apenas me esforcei para que meus filhos fossem felizes. “Sucesso” é um conceito capitalista que tentei afastar dos meus filhos e não quero que influencie meus netos.

Estimulação precoce infantil é um erro que por muito tempo foi disseminado por behavioristas e comportamentalistas e causou grandes estragos. Não é à toa que as escolas mais modernas não se ocupam mais em ensinar escrita ou habilidades especiais – como cambalhotas sofisticadas – e insistem que crianças sejam apenas crianças e desenvolvam suas potencialidades junto com outros iguais a si. Não só escolas adotam essa postura, mas SISTEMAS DE EDUCAÇÃO de vanguarda (vide o norte europeu) apregoam isso ao abolir até as provas para crianças pequenas.

Crianças tem o direito de serem tratadas como são: crianças, sujeitos em formação, criativas, curiosas e que devem ser estimuladas a construir seu mundo de acordo com seu desejo, sem imposições externas e sem serem obrigadas a performances que apenas servem para a admiração (muitas vezes exploração) de adultos.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Redes sociais

Creio mesmo que as redes sociais ocupam uma importante função deixada em aberto pela igreja: o controle MORAL da sociedade. Hoje em dia as manifestações no Facebook, Twitter e Instagram são vigiadas por uma legião imensa de críticos ferozes e impiedosos da fala alheia. Basta uma vírgula mal colocada ou uma expressão politicamente incorreta para que estas torres de vigia soem o alerta. “Racista maldito”, “misógino”, “fascista” ou “homofóbico” ocupam o lugar de “pecador(a)”, “lasciva(a)”, “infiel” ou qualquer outra danação que frequentava os confessionários.

A patrulha da Internet é cruel. Existem sujeitos e grupos especializados em destruir reputações. A checagem dos fatos ou a interpretação por vezes são inexistentes ou viciosas, mas isso pouco importa; o que vale mesmo é a iconoclastia. Neste terreno as minorias são as mais ávidas em rotular seus inimigos e destruí-los.

Minha única dúvida é se esta vigilância surte algum efeito. Com o controle da sexualidade promovido pela igreja só criamos culpa e farsa. Pasolini mostrou isso muito bem. Não acredito que as patrulhas comportamentais da Internet serão mais eficazes. Nenhum comportamento egoístico ou preconceituoso muda por decreto, intimidação ou ameaça. Tudo o que conseguimos é uma hipocrisia institucionalizada.

PS: Enquanto escrevia isso uma amiga americana escreveu uma frase que me chamou a atenção. Disse que era grande o número de mulheres que estavam “completamente desinteressadas pela companhia masculina“. Arrematou dizendo que isso era “culpa dos homens”.

Bem…. eu respondi dizendo que eu via um fenômeno parecido entre os homens, mas que a culpa não me parecia ser das mulheres e sim da relação que hoje se estabelece entre os gêneros. Sou velho o suficiente para ter visto o assunto “virgindade” frequentar as páginas de revistas semanais, e contemporâneo o suficiente para me atrapalhar na confusão de gêneros e sexualidades. Por isso mesmo tive a possibilidade de ver a grande distensão da sexualidade feminina como uma marca bem importante da virada do século.

Há poucas décadas uma mulher que tivesse múltiplos parceiros era considerada “fácil” e até p*ta. Hoje as mulheres podem exercer sua sexualidade sem culpas sociais ou morais, e o sexo se tornou muito mais acessível do que era no fim do século XIX – quando Freud escreveu sobre a histeria tendo a construção sexual feminina como seu grande campo de pesquisa.

Bastou falar isso (??) para ser rotulado de misógino. Nem me perguntem porque…

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Vingança

Não é muito difícil aceitarmos que a moral individual não pode pautar a moral social. O fato de – em hipótese – eu não suportar que um assassino como Nardoni saia da prisão por um dispositivo legal não pode ser a regra a determinar uma proibição. Não se deve aceitar a “justiça das vítimas”, sempre carregada de emocionalismos. Aliás, a civilização e o próprio direito surgiram ha milhares de anos para ocupar o lugar da selvageria de um “direito pessoal”, a cobrança de dívidas sem intermediário.

A “Lei de Talião” e o código de Hamurabi devem ficar apenas nos livros de história. A civilização impõe condições para a sua existência e o Estado Democrático de Direito é uma delas. Não se pode mais admitir um estado vingativo e punitivo e existem várias razões para isso.

A primeira é a função educativa do estado, que deve compreender que a imensa maioria dos delitos cometidos na sociedade tem origem na própria iniquidade fomentada pelo Estado, cujas castas por ele produzidas e a desigualdade de oportunidades entre elas estimulam a criminalidade. Os estudos de variadas fontes demonstram que são as condições sociais (e não as questões morais do criminoso) a fonte principal de estímulo ao crime.

Em segundo lugar, pela evidente inefetividade de tais medidas punitivas. Se as penas duras e violentas fossem solução os Estados Unidos não teriam 20 mil assassinatos neste ano (até agora). Se a pena capital fosse efetiva ela diminuiria a criminalidade nos locais onde foi implantada no Brasil. Sim, aqui mesmo. A pena de morte é exercida nos presídios e entre facções do narcotráfico e do crime organizado. Alguma dessas organizações deixaram de delinquir sabendo que a pena é a morte se o seu agente for pego pelo inimigo? Evidentemente que a resposta é não….

A propósito… ABOLICIONISMO PENAL JÁ!!!!

Sobre o Nardoni eu pergunto: que tipo de risco corre a sociedade se esse sujeito, depois de passar 12 anos preso, tiver o direito de visitar seu pai em casa? O que isso pode ofender o direito? O que isso ofende a família da vítima? Desde quando o Estado deve defender a vingança e o sofrimento inútil como pena?

Ora… por mais difícil que seja, cultivar o perdão é um ato superior. Tratar criminosos com humanidade é medida civilizatória. Respeitar os direitos humanos é uma conquista dos LIBERAIS e não dos comunas!!!! Aceitar as regras do jogo do Estado Democrático é uma obrigação de todos que desejam que os governos respeitem seus direitos fundamentais.

Sim, eu insisto que a infelicidade deste criminoso não me traz felicidade alguma. Eu acredito no perdão e na superação, mas admito que esta é uma questão pessoal. Do ponto de vista legal se um sujeito paga sua pena deve ter direito a ser solto. Se alguém tem direito a sair da prisão por uma concessão humanitária, que saia. A sociedade não pode responder com vingança e inexorabilidade.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Sustentação

O que me entristece e preocupa não é o fato de que Bolsonaro seja racista, machista, homofóbicos e um completo incompetente, mas o fato de que tantas pessoas parecem não se importar com isso, sequer com o flagrante nepotismo da indicação de seu filho para a embaixada nos Estados Unidos. Para além disso, o que me espanta é o número de cidadãos que reconhecem a corrupção de Moro, Dalanhol, Gebran, Dodge, Fux, Barroso e até Toffoli, mas parecem não dar a menor importância para o fim da democracia. Pelo contrário, até celebram sua morte insidiosa.

Bolsonaro um dia deixará de ser presidente, assim como essas figuras do judiciário que dão suporte legal ao arbítrio; todavia, as pessoas comuns que apoiam o desmonte civilizatório no Brasil continuarão por aqui. Assim, fica claro que todos os gritos e marchas contra a corrupção que marcaram o país desde 2013 eram tão somente uma gigantesca cortina de fumaça a esconder nossas verdadeiras motivações inconfessas.

O que motivou essa população branca e de classe média contra os governos anteriores e seu desejo de “renovação” na política foi a ideia compartilhada com os votantes de Trump: “queremos nosso país de volta”. Um país onde todos saibam seu lugar, como sempre foi. Empregados e patrões. Ricos e pobres. Um país onde negro é negro, branco é branco, família é pai e mãe, meninos vestem azul e meninas rosa. Essas ilusórias certezas diante de um mundo de fronteiras incertas são as verdadeiras motivações que nos jogam nos cultos à personalidade e nas seitas, que são a melhor definição para o trumpismo e o bolsonarismo.

Assim como nos Estados Unidos somos herdeiros de uma nação cuja fratura formativa é a escravidão. Ela se manifesta de forma dissimulada na interação social, mas continua sendo a base de onde tiramos os nossos conceitos. Não é à toa que a “direita chucra” (para usar a expressão de Reinaldo Azevedo) costuma chamar os petistas e membros do MST de “vagabundos” , com o mesmo tipo de desprezo que tinham pelos negros escravos. Sem a cura dessa ferida seremos eternamente condenados a um destino violento, dividido e injusto.

Deixe um comentário

Arquivado em Política, Violência