Arquivo da categoria: Violência

Causas

 

As causas são PROFUNDAMENTE masculinas. Elas são mudanças no rumo da história, do roteiro das ideias. São golpes de machado nas raízes da natureza. Os homens sempre estiveram por trás delas. As revoluções foram todas lideradas por homens, assim como ss lutas, as guerras, as conquistas. Todas estas são “causas”, mais ou menos nobres, que estimularam a inventividade, a coragem e a genialidade. Todas, sem exceção, determinaram vontade, desprendimento e sacrifícios.

A história está repleta de homens que sacrificaram tudo – em especial a própria vida – em nome de causas que ajudariam a todos. Pense em qualquer movimento paradigmático no mundo e houve ali um homem envolvido em uma grande luta que envia a todos de sua etnia, seu grupo, comunidade ou país.

Sim, homens não se preocupam tanto com câncer de pênis ou próstata o quanto deveriam. Entretanto se preocupam com o de mama e o de colo uterino, que sequer é no corpo deles. Todos os recursos, a energia, a vontade e a dedicação está focada para ajudar as mulheres, as matrizes, suas mães, filhas e esposas.

Mas… claro que isso é apenas mais uma faceta do machismo. Os homens cuidam das mulheres porque as odeiam e querem escravizá-las. Curam suas doenças, tratam suas feridas, deixam suas vidas mais dignas, mas o motor destas ações é o ódio. Este mesmo ódio que todo homem carrega por uma mulher é fruto da…. da… raiva que sentem da primeira mulher que os abandonou. Por isso tanta mágoa e desprezo. Por isso as poucas causas em que os homens se engajam dizem respeito apenas ao seu gênero, sua infinita vaidade e seu infindável egoísmo.

 

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Barbarismos

 

Defensores da barbárie dentro dos mais humanos e gentis projetos. Muito amor e muita sombra.

A ideia de justificar atitudes bárbaras e violentas como “reação do oprimido”, fazendo um mau uso da frase de Malcolm X, é uma proposta de acabar com qualquer projeto civilizatório em nome da institucionalização da vingança. Assim, uma camponesa aterrorizar uma mãe inglesa e seu filho e ameaçá-los de morte por um motivo fútil (não aceitar pagar o preço abusivo de um chá) passa a ser uma “bela atitude” que deveria ser seguida por todos os “povos colonizados”.

Esse tipo de lógica, que coloca o oprimido como juiz de seus sofrimentos e executor de sua sentença reparadora, misturando as dívidas sociais históricas com os embates pessoais, é carregado do mais puro oportunismo. Um elogio aos linchamentos e justiciamentos.

As pessoas que aplaudem a barbárie de ameaçar de morte uma mulher acompanhada do filho menor de idade num país inóspito são as mesmas que reclamam e vociferam quando os negros, pobres e oprimidos, a assaltam tentando por conta própria fazer uma reparação de suas dificuldades históricas e conjunturais.

 

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Homenagens a Marielle

 

“As homenagens a esta mulher foram exageradas”

Sério? Por que não homenagear Marielle??

Negra, moradora da favela da Maré, homossexual, mãe, socióloga e defensora dos direitos humanos cruelmente assassinada por defender a população vítima da brutalidade policial!!! Quem merece homenagens nessa sociedade? Jogadores de futebol? Políticos burgueses da Zona Sul? Cantores de axé? Sertanejo? Artistas da Globo?

Marielle era uma verdadeira heroína, uma batalhadora contra a injustiça social e a barbárie. Mereceu tudo que recebeu de homenagens, e espero que seu nome não seja jamais esquecido. Marielle sintetiza a bravura e a coragem de quem nunca se calará.

 

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Arquivado em Política, Violência

Calaboca

 

Nao tenho nenhuma dúvida dos meus inúmeros privilégios, e mais alguns que a maioria nem percebe. Entretanto, nenhum deles me obriga a ficar quieto diante de uma discordância ou mitificar a fala alheia como se fosse dotada de valor inquestionável. Não; reconhecer seus privilégios e de onde provém sua fala NÃO é o mesmo que se calar culposamente e permitir que outra fala seja opressora. Oferecer o contraditório sem jamais atacar os sujeitos de quem discorda é um ato de civilidade.

Sei como começam as desqualificações e o “calaboca” sutil dos grupos que acreditam no monopólio das narrativas – que se expressa pelo desprezo à fala alheia – mas sei também onde terminam. Para mim o “lugar de fala” é um câncer que impede o debate, mesmo que eu CONCORDE PLENAMENTE com a ideia que o sustenta. Entretanto, esse recurso é usado de forma a criar exclusividade de discursos que, por serem incontestes e não sofrerem contraditório, viram dogmas pétreos que EMPERRAM qualquer movimento. E pode citar qualquer movimento libertário pois, mais cedo ou mais tarde, a sedução de ter a fala última (ou única) nos debates impregna os ativistas.

No movimento de humanização do nascimento esse problema ocorreu desde o seu surgimento e certamente 70% da minha reconhecida e inquestionável antipatia vem do fato de que eu NUNCA baixei a cabeça para as pessoas que me mandaram calar a boca, até porque acho que feminismo, parto, nascimento, racialismo, direitos LGBT ou Palestina Livre são assuntos HUMANOS que me atingem direta ou indiretamente, e por essa razão eu tenho o direito – e o DEVER – de me manifestar diante de erros ou condutas que considero equivocadas.

Sobre o fato recente, a morte violenta de um ser humano ME ATINGE DIRETAMENTE, mesmo que eu não seja mulher, negra ou lésbica, porque compartilho com Marielle algo MUITO MAIS IMPORTANTE do que estas diferenças: a minha condição humana. Se é impossível entender por completo a “dor de ser quem ela foi”, existem dentro de mim dores que só eu sei e apenas eu compreendo a dimensão, mas que podem produzir ressonância com as dores dela por similitude, assim como os sofrimentos de tantas outras pessoas. Para isso Terencio já dizia “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”, deixando claro que qualquer experiência do humano existe em todos nós e pode ser despertada pela empatia.

Se as pessoas não entenderem essa ideia simples também de nada adiantará fazerem campanhas por qualquer solidariedade, porque se NADA QUE NÃO SEJA MEU ME DIZ RESPEITO como posso mobilizar alguém na busca por ajuda?

Enclausurada as falas e as ideias e libera-las apenas sos escolhidos é dintimacde degenetacao e fragilidade. Escutar todas as vozes, em especial as discordantes, mesmo respeitando e hierarquizando os lugares de onde provém essas falas é um elemento de sucesso de um movimento.

Sou solidário ao movimento palestino e não passo de um branquelo de origem europeia, mas das vítimas da limpeza étnica só recebo abraços e sorrisos pela minha simpatia à sua luta de libertação. Talvez porque eles não precisem me odiar para forjar uma identidade.

Jamais aceitarei “calaboca” disfarçado de “lugar de fala”.

 

 

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V.O.

 

“A Violência Obstétrica, de acordo com a definição dada pela lei venezuelana, é caracterizada pela apropriação do corpo e processo reprodutivo das mulheres por profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na vida das mulheres”.

Nesta definição da lei venezuelana o foco é basicamente materno, talvez porque foram as feministas que estiveram sempre à frente desta luta e sua maior preocupação é com a mulher e sua proteção.

Feita essa ressalva, não sei se existe consenso a respeito desse tema, mas vou falar exclusivamente do meu ponto de vista. Ao meu juízo a violência obstétrica compreende a atenção danosa que ocorre no NASCIMENTO, tanto para a mãe quanto para o recém nascido. A justificativa para que esse termo seja usado de forma abrangente é que no nascimento não existe “mãe e bebê”, mas uma unidade a qual convencionais chamar de mãebebê (motherbaby unit) exatamente porque tudo que ocorre para um (mãe ou o bebê) terá imediatas repercussões para o outro – sejam elas boas ou ruins.

Logo após o nascimento – e por um tempo longo e variável – é importante considerar a ambos como sendo partes de uma unidade indissociável. Desta forma, qualquer ato agressivo realizado no bebê (intervenções, procedimentos, luz, corte prematuro do cordão, injeções, sondas, som em excesso ou o simples afastamento de sua mãe) terá repercussões negativas para a puérpera.

Se isso for considerado não há porque subdividir em “violência materna” e “violência neonatal” se ambas fazem parte de ações prejudiciais e/ou intempestivas contra uma UNIDADE que precisa ser mantida e analisada como se fosse um único corpo.

 

 

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Arquivado em Ativismo, Violência