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Homenagens a Marielle

 

“As homenagens a esta mulher foram exageradas”

Sério? Por que não homenagear Marielle??

Negra, moradora da favela da Maré, homossexual, mãe, socióloga e defensora dos direitos humanos cruelmente assassinada por defender a população vítima da brutalidade policial!!! Quem merece homenagens nessa sociedade? Jogadores de futebol? Políticos burgueses da Zona Sul? Cantores de axé? Sertanejo? Artistas da Globo?

Marielle era uma verdadeira heroína, uma batalhadora contra a injustiça social e a barbárie. Mereceu tudo que recebeu de homenagens, e espero que seu nome não seja jamais esquecido. Marielle sintetiza a bravura e a coragem de quem nunca se calará.

 

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Calaboca

 

Nao tenho nenhuma dúvida dos meus inúmeros privilégios, e mais alguns que a maioria nem percebe. Entretanto, nenhum deles me obriga a ficar quieto diante de uma discordância ou mitificar a fala alheia como se fosse dotada de valor inquestionável. Não; reconhecer seus privilégios e de onde provém sua fala NÃO é o mesmo que se calar culposamente e permitir que outra fala seja opressora. Oferecer o contraditório sem jamais atacar os sujeitos de quem discorda é um ato de civilidade.

Sei como começam as desqualificações e o “calaboca” sutil dos grupos que acreditam no monopólio das narrativas – que se expressa pelo desprezo à fala alheia – mas sei também onde terminam. Para mim o “lugar de fala” é um câncer que impede o debate, mesmo que eu CONCORDE PLENAMENTE com a ideia que o sustenta. Entretanto, esse recurso é usado de forma a criar exclusividade de discursos que, por serem incontestes e não sofrerem contraditório, viram dogmas pétreos que EMPERRAM qualquer movimento. E pode citar qualquer movimento libertário pois, mais cedo ou mais tarde, a sedução de ter a fala última (ou única) nos debates impregna os ativistas.

No movimento de humanização do nascimento esse problema ocorreu desde o seu surgimento e certamente 70% da minha reconhecida e inquestionável antipatia vem do fato de que eu NUNCA baixei a cabeça para as pessoas que me mandaram calar a boca, até porque acho que feminismo, parto, nascimento, racialismo, direitos LGBT ou Palestina Livre são assuntos HUMANOS que me atingem direta ou indiretamente, e por essa razão eu tenho o direito – e o DEVER – de me manifestar diante de erros ou condutas que considero equivocadas.

Sobre o fato recente, a morte violenta de um ser humano ME ATINGE DIRETAMENTE, mesmo que eu não seja mulher, negra ou lésbica, porque compartilho com Marielle algo MUITO MAIS IMPORTANTE do que estas diferenças: a minha condição humana. Se é impossível entender por completo a “dor de ser quem ela foi”, existem dentro de mim dores que só eu sei e apenas eu compreendo a dimensão, mas que podem produzir ressonância com as dores dela por similitude, assim como os sofrimentos de tantas outras pessoas. Para isso Terencio já dizia “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”, deixando claro que qualquer experiência do humano existe em todos nós e pode ser despertada pela empatia.

Se as pessoas não entenderem essa ideia simples também de nada adiantará fazerem campanhas por qualquer solidariedade, porque se NADA QUE NÃO SEJA MEU ME DIZ RESPEITO como posso mobilizar alguém na busca por ajuda?

Enclausurada as falas e as ideias e libera-las apenas sos escolhidos é dintimacde degenetacao e fragilidade. Escutar todas as vozes, em especial as discordantes, mesmo respeitando e hierarquizando os lugares de onde provém essas falas é um elemento de sucesso de um movimento.

Sou solidário ao movimento palestino e não passo de um branquelo de origem europeia, mas das vítimas da limpeza étnica só recebo abraços e sorrisos pela minha simpatia à sua luta de libertação. Talvez porque eles não precisem me odiar para forjar uma identidade.

Jamais aceitarei “calaboca” disfarçado de “lugar de fala”.

 

 

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V.O.

 

“A Violência Obstétrica, de acordo com a definição dada pela lei venezuelana, é caracterizada pela apropriação do corpo e processo reprodutivo das mulheres por profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na vida das mulheres”.

Nesta definição da lei venezuelana o foco é basicamente materno, talvez porque foram as feministas que estiveram sempre à frente desta luta e sua maior preocupação é com a mulher e sua proteção.

Feita essa ressalva, não sei se existe consenso a respeito desse tema, mas vou falar exclusivamente do meu ponto de vista. Ao meu juízo a violência obstétrica compreende a atenção danosa que ocorre no NASCIMENTO, tanto para a mãe quanto para o recém nascido. A justificativa para que esse termo seja usado de forma abrangente é que no nascimento não existe “mãe e bebê”, mas uma unidade a qual convencionais chamar de mãebebê (motherbaby unit) exatamente porque tudo que ocorre para um (mãe ou o bebê) terá imediatas repercussões para o outro – sejam elas boas ou ruins.

Logo após o nascimento – e por um tempo longo e variável – é importante considerar a ambos como sendo partes de uma unidade indissociável. Desta forma, qualquer ato agressivo realizado no bebê (intervenções, procedimentos, luz, corte prematuro do cordão, injeções, sondas, som em excesso ou o simples afastamento de sua mãe) terá repercussões negativas para a puérpera.

Se isso for considerado não há porque subdividir em “violência materna” e “violência neonatal” se ambas fazem parte de ações prejudiciais e/ou intempestivas contra uma UNIDADE que precisa ser mantida e analisada como se fosse um único corpo.

 

 

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Escravidão

 

Queria ver você ser assaltado, com uma arma na cabeça, no Complexo do Alemão. Mudaria de opinião sobre a intervenção“.

Se eu fosse assaltado no Alemão tudo que eu faria era me convencer ainda mais que matar assaltantes ou prendê-los em NADA soluciona o problema. Infelizmente foi nos governos do PT que aumentamos ainda mais o encarceramento da populacao pobre e isso não resultou em nenhum resultado positivo. O mesmo aconteceu com o encarceramento em massa no governo Clinton com os famosos “Three Strikes”. Um crime terrível contra a dignidade humana, que até Clinton reconheceu.

Mandar prender é muitas vezes necessario diante de atentados ou ameaças à vida, e nenhum sujeito de esquerda ignora isso ou defende o oposto. Entretanto, não passa de pura raiva de pobres e negros a ideia de curar a ferida social da criminalidade deixando se alastrar esta ideologia punitivista. É agir com sentimento de vingança, sem se dar conta das razões que levam milhares de jovens a se tornarem bandidos ou contraventores.

É curioso, porque todos que vociferam pelas armas e pelo extermínio um dia assistiram Robin Hood ou Cidade de Deus e perceberam a sedução que a criminalidade produz no jovem, humilhado crônico, envolto num mundo de consumo em que o valor máximo da vida social lhe é sonegado. Por que na ficção é mais fácil entender?

Precisa muito ódio e desumanização para não enxergar que exterminar jovens negros e pobres – que lutam com as únicas armas que possuem para vencer na vida – é um ato tão criminoso quanto o que eles praticam.

E, por favor, não me venham contar das exceções de jovens que venceram se comportando como os patrões brancos e ricos queriam. Essas histórias são usadas apenas para refrear o ímpeto de mudança. Não passam de um bilhete de loteria, uma esperança tola que guardamos de que a vida possa se transformar sem enfrentamentos. Não duvido que, durante a escravidão legal no Brasil, muitos senhores de escravos contavam histórias de negros que eram tão prestativos e leais que acabaram recebendo alforria como presente. E muitos negros acreditaram que calar sua indignação era a conduta mais justa e correta. Para estes eu digo que “A vida é luta renhida e viver é lutar. A vida é combate que aos fracos abate e os fortes e bravos só pode exaltar.”

A sociedade não muda como mágica. Ela se transforma e transmuta, com suor e luta.

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Corpos Expostos

 

Estava conversando com uma amiga ativista da atenção ao parto que está escrevendo sua tese sobre a perseguição aos humanistas quando ela me pediu umas fotos (que aparecem sempre em minhas aulas para os cursos de doula) e que são paradigmáticas para o entendimento da forma como as mulheres são atendidas pelo sistema obstétrico contemporâneo. Essas são fotos que falam muito da maneira específica como funciona a exposição das mulheres e seus corpos na atenção ao parto.

A primeira delas mostra uma mulher completamente coberta por campos estéreis, com exceção dos seus genitais. Esta imagem envia uma clara mensagem da “essencialização feminina”, ou seja, a perda de toda a sua subjetividade e individualidade, sendo reduzida a um contêiner fetal, cuja passagem – e apenas ela – observamos e permitimos que apareça. Faz parte da ideia de reduzir a mulher a um objeto, escondendo a sua totalidade e mostrando apenas uma parte, aquela que nos interessa. A publicidade sabe muito bem como isso se processa, ao mostrar as mulheres como mãos, coxas, lábios, nádegas ou seios; a mulher enquanto sujeito nunca aparece, apenas uma parte sua, onde se encontra o que desejamos vender. Por outro lado, esconder a mulher é uma das formas de PROTEGER os profissionais a partir de des-humanização da sua paciente, tornando-a mais facilmente percebida como um objeto sobre o qual aplicarão sua arte. Com isso a dor, a angústia, o sofrimento e a inevitável empatia que surgirá na interação com um paciente que possuiu alma se distanciam do profissional que, assim liberado, pode agir movido pela razão e sem a interferência das emoções identificatórias.

A segunda imagem é ainda mais interessante. Norbert Elias em “O Processo Civilizatório” descreve a curiosa imagem do banho das cortesãs europeias ladeadas por servos, tanto mulheres quanto homens escravos. É de se perguntar como seria possível que, diante do puritanismo da sociedade de alguns séculos em relação ao corpo, uma nobre mulher ficasse nua diante de seus servos homens. A resposta é dura e cruel: exatamente pela des-humanização desses personagens eles perdiam a condição de sujeitos em paridade com as pessoas a quem serviam. Tinham não mais do que o status de animais, como objetos sub-humanos, pelo quais não faria sentido sentir-se constrangida. Não eram mais do que parte da mobília presente na cena.

O mesmo ocorre com uma mulher que perde sua cidadania e suas características subjetivas, onde o pudor, a privacidade, e as vergonhas de sua nudez carecem de sentido. Os profissionais perdem a capacidade de vê-las como mulheres, inteiras, femininas e possuidoras de corpos animados, erotizados. Tornam-se objetos a quem não faz sentido garantir intimidade. Diante de qualquer reação da paciente, constrangida em sua nudez, a resposta é sempre a mesma: “Não se preocupe, estamos acostumados. Somos todos profissionais”, o que pode ser traduzido por: “Não enxergamos você como uma mulher; perdemos essa capacidade ao chegarmos aqui”

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