Arquivo da tag: prisioneiros

Justiça veloz

O universo prisional oferece oportunidades para muitas reflexões, em especial para aqueles que pretendem fazer uso das experiências cotidianas para encontrar nelas sentido e propósito. O tempo ocioso entre os períodos de trabalho e a falta de contato com o mundo externo por meio das redes sociais oportunizam olhar para cada fato com mais cuidado e atenção.

Num determinado dia fui chamado pelo supervisor para avaliar um preso que estava machucado. Essa era a informação: sucinta, resumida e breve; nenhum outro detalhe me foi passado. Peguei meu aparelho de pressão e meu oxímetro e segui para o jumbo logo em frente à sala da supervisão, e quase ao lado do nosso ambulatório. Um “jumbo” é uma pequena cela gradeada que serve de entreposto entre as celas das galerias e algum outro lugar, que pode ser a sala da defensoria, a sala dos exames médicos, a ida até a UBS e até para aguardar a burocracia do Infopen (sistema de registro dos presos) para receber a tão aguardada liberdade.

No jumbo havia um corpo caído no chão. A imagem seria muito assustadora não tivesse eu trabalhado por alguns anos no Pronto Socorro. O preso estava sem camisa, descalço e vestia apenas a bermuda laranja do uniforme. Tinha não mais de 40 anos e um corpo forte. Mantinha-se gemente, com os olhos fechados e parecia não querer se mexer, com medo de sentir mais dor. Não havia nenhuma parte visível do seu corpo que não estivesse coberta sangue ou de machucados, arranhões e ferimentos de um vermelho muito vivo, como se houvesse caído numa trituradora industrial.

–  Os canalhas me pegaram na trairagem – disse, antes que eu lhe fizesse alguma pergunta.

–  Como eles te bateram?

–   Facões, pedaços de pau, chinelos, o acrílico quebrado das janelas. E com a mão mesmo. Não consegui me defender direito, fui pego de surpresa.

Percebi que os antebraços eram a parte mais sensível. Estavam em carne viva, pois foram os únicos escudos que ele teve para se defender.

– Ainda assim consegui deixar dois com nariz sangrando.

Artemus era seu nome. Segundo o que os guardas depois me contaram, ele era irmão do líder de uma das facções e teria se envolvido com a mulher dele enquanto estava na rua. Sim, a cunhada. Depois de ser preso, o líder traído deu a ordem para que recebesse uma “lição”. Envolver-se com a mulher de um apenado é algo muito grave para a ética prisional: mulheres são elementos críticos na relação entre os presos. Mexer com a namorada ou companheira de alguém – ou mesmo simplesmente olhar durante a visita – pode causar morte. A isso chama-se “chocar visita”, que é considerado delito grave. Por isso os presos trabalhadores – como eu – viram o rosto para a parede quando as visitas transitam pela galeria, num ritual patriarcal chocante.

Aquele corpo jogado ao chão do jumbo era o resultado de um processo jurídico informal: queixa, denúncia, inquérito, processo, sentença e na minha frente, deitado em posição fetal e gemendo, estava o cumprimento da pena. Para quem admira linchamentos e uma justiça “sem demora” esta era a cena perfeita.

Examinei o rapaz com o máximo de cuidado, pois não havia como saber se havia fraturas. Depois de uma breve avaliação não me pareceu ter qualquer osso comprometido, e nem um corte profundo e extenso que necessitasse uma sutura. A impressão que eu tinha é que haviam passado uma lixa de areia pelo corpo todo do rapaz, para não deixar nenhuma parte com pele íntegra. Pedi que se levantasse e o levei ao nosso ambulatorio para lavar os ferimentos com água e sabão.

Avaliei sinais vitais e avisei à supervisão que nenhuma outra medida seria necessária, a não ser a troca de galeria. Apesar do aspecto muito feio, com os lábios inchados, o maxilar edemaciado e inúmeros pequenos cortes pelo corpo não haveria necessidade de chamar uma emergência.

O guarda me disse que não era a primeira vez que esse líder fazia isso. Ele era a lei suprema na galeria, e oprimia todo aquele que se negasse a colaborar ou tivesse um comportamento por ele considerado inadequado. A lei na prisão é dura, violenta e monocrática.

No dia seguinte comentei a cena com meus colegas trabalhadores da galeria, explicando o espancamento encomendado sobre o Artemus. Todos me contaram episódios parecidos com esse de que foram testemunhas, e falavam da brutalidade que os caracteriza. Alguns, como Artemus, ainda conseguem se defender, e mesmo acertar alguns socos. Outros apanham em silêncio pois não tem condição alguma de oferecer reação. E os opressores são quase sempre impunes; o que fazer com alguém que já tem toda a vida pela frente trancado numa prisão?

–  A vitima desse espancamento era um homem forte, no auge do seu vigor físico. Agora imaginem o que ocorreria se o linchamento fosse com um garoto de 16 anos, caso eles fossem jogados dentro das galerias. Não sobraria nada. Garotos nesse ambiente seriam tratados como escravos, sem direitos, sem paz e sendo oprimidos constantemente. Na lei da selva eles seriam as presas – disse eu, tentando afastar da mente esta cena absurdo.

Meus colegas apenas suspiraram. José ainda me disse:

–  Qualquer um que diga que uma criança de 16 anos deveria pagar seus crimes numa prisão comum, junto com adultos, não faz a menor ideia do que seja a vida num presídio, ou não se importa com a sobrevivência desses garotos. Ou então sabe o que significa essa barbárie, e por isso mesmo quer fazer da presença desses meninos na prisão a antessala do inferno, com a ilusão de que esse tipo de vingança possa trazer algum benefício social.

Concordei com a fala do José, e percebi que apenas aqueles que mergulham nesse oceano de dor, sofrimento, culpa, remorso e rancor tem condições de entender plenanente o que acontece entre esses muros.

Deixe um comentário

Arquivado em prisão, Violência

Clubismo insano

A página de um influencer gremista fez uma postagem com essa foto conclamando torcedores a se unir a Israel e condenar os grupos de resistência Palestina que sequestraram estes soldados. Apela para o amor clubista para que nos associemos no clamor pela soltura dos soldados presos pelo Hamas.

É inacreditável essa postagem pró sionista. Parece que Israel não matou mais de 50 mil pessoas, 70% delas crianças e mulheres, além de destruir todas as casas e impor fome para uma população inteira, submetida a crimes de guerra continuados. É uma vergonha ver o nome do Grêmio envolvido com a exaltação de canalhas racistas que estão cometendo os crimes mais atrozes do século XXI.

Pois eu respondo que os sionistas devem parar de matar crianças palestinas antes de pedir pela libertação de seus soldados. A vida desses dois não é mais valiosa do que as 20 mil crianças mortas pelos terroristas de Israel. Nossas preces pela paz e pela liberdade devem ser para todos, e não somente para dois sionistas que estavam fazendo uma festa ao lado de um campo de concentração ao ar livre, não se importando com a vida miserável imposta aos prisioneiros de Gaza. Sim, espero que eles sejam libertos, mesmo que representem o sionismo, a ideologia mais racista e supremacista já criada pela humanidade, mas só depois de Israel cumprir os acordos de libertação dos prisioneiros palestinos, torturados cotidianamente nas masmorras de Israel.

O fato de usar a camisa do Grêmio não transforma um soldado israelense – ensinado desde o berço a desumanizar e matar palestinos – em uma boa pessoa. Não esqueçam que muitos assassinos confessos são presos usando camisetas de clube, e nem por isso seus crimes se tornam aceitáveis. O Grêmio não apoia Israel, o Grêmio não é um clube racista e o tricolor não se associa ao terror de Estado imposto pelo sionismo racista de Israel.

Deixe um comentário

Arquivado em Palestina

Animais

Eu acredito que os “defensores de animais” podem realmente ser boas pessoas, verdadeiramente preocupadas com o meio ambiente, a vida animal, a biodiversidade e a existência de todos os seres vivos. Talvez até a maioria seja composta por este tipo de caráter. Entretanto, é muito comum que sua aproximação com essas causas seja em razão de uma postura arrogante e supremacista. Defendem os animais porque detestam humanos, em especial aqueles que consideram inferiores. Não fosse por isso, por que tantos fascistas se envolvem com a causa animal?

Essa fala da Xuxa está longe de ser contra-hegemônica. Aposto como uma faixa enorme da população acha que a vida de cachorros e gatos (mas não lesmas, mosquitos e ratos; golfinhos e baleias, mas não atuns e tubarões) tenham mais valor do que a de seres humanos condenados por crimes. Por isso a naturalidade em dizer que prefere que, no lugar dos animais, sejam os prisioneiros a sofrer nas experiências médicas e/ou na busca por novas substâncias químicas aplicadas ao organismo. Essa ação seria para que façam algo de “útil” antes de morrer. Ou seja; sua existência na dependência de uma “utilidade”, e não pelo valor intrínseco da vida.

E vejam: eu e muita gente achamos que deveríamos abolir a tortura de animais com o objetivo de testar cosméticos para empresas sionistas(*), mas não é admissível que essa tortura seja aceitável se aplicada a prisioneiros – via de regra pretos, pobres e excluídos – que não tiveram a mesma oportunidade de se adaptar a esta sociedade. Tenho genuíno medo de qualquer pessoa que se diz “defensora dos animais”, porque o risco de ser um fascista travestido de “bondoso” é muito grande. Curiosamente, estas pessoas – assim como a Xuxa – têm uma autoimagem extremamente positiva, pois o fato de cuidar de bichinhos lhes oferece a ilusão de santidade.

Como diria Morpheus… “Far from it”.

(*) Clique aqui para uma lista de empresas israelenses que PRECISAMOS boicotar, por suas ações criminosas nos territórios ocupados da Palestina. Consulte esta lista do BDS para ver qual a empresa que não devemos consumir nada. Seu batom e seu “blush” podem estar contaminados com o sangue de crianças da faixa de Gaza. “Boycotting supporters of the Israeli occupation of Palestine is more important now than ever. But so many brands hide their support. Check this growing list of companies to know where you should not be spending your money or providing your service.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Enfim , a barbárie

Em Israel os políticos de vários partidos e uma parte imensa da população debatem abertamente se a tortura e os abusos de prisioneiros políticos da Palestina devem ser legitimados e aceitos como práticas legítimas e até justas pelo sistema penitenciário. Os jornais e alguns ativistas tratam os torturadores como heróis, que não poderiam ser atingidos pela justiça. A desumanização dos palestinos chega a um nível em que suas vidas valem menos do que a dos bichos de estimação dos racistas e supremacistas do país. Se a simples existência desse debate já não é a demonstração cabal da total degenerescência de uma nação, então teremos que criar uma nova definição para a perversidade humana. Estamos à beira de um colapso ético no planeta, e se nada for feito pelas nações do mundo para barrar o terrorismo de Israel e os gravíssimos crimes contra a humanidade cometidos pelos israelenses, seremos todos cúmplices da barbárie lá instalada. Eu exijo do governo brasileiro a imediata ruptura de toda e qualquer conexão com Israel, tanto diplomática, comercial, acadêmica ou cultural. Se isso não for feito – em nome de uma fidelidade aos interesses americanos – então o governo brasileiro estará assinando um atestado de parceria com os crimes de lesa humanidade cometidos pelos fascistas sionistas.

Apenas imaginem se as torturas nas prisões de Ketziof, Nafha e Ramon estivessem ocorrendo na Coreia do Norte, em Cuba ou na Rússia de Putin. Como a mídia ocidental estaria descrevendo os horrores dos prisioneiros torturados? Ora, bem sabemos como seria. No Iraque, na prisão de Abu Ghraib, as torturas contra os prisioneiros capturados pelo exército eram sistemáticas e, pelas fotos vazadas à imprensa, pudemos ver que eram fonte de diversão para os soldados americanos. O mesmo aconteceu no Vietnã e antes na Coreia, mas por certo que foram frequentes em todos os lugares invadidos pelo imperialismo nos últimos 100 anos. Entretanto, a imprensa só se manifestou de forma tímida, e apenas depois do vazamentos de imagens das masmorras destes lugares; não fosse por isso e ainda não saberíamos o inferno que os soldados imperialistas produziram por lá. A brutalidade nas prisões israelenses apenas reflete o padrão de desumanização produzida pelo Império, da qual conhecemos apenas a ponta do Iceberg pois, como bem sabemos, a história sempre é contada pelos vitoriosos.

É preciso criar um muro de proteção da civilização contra a barbárie, e ele precisa usar as armas possíveis: Boicote a todos os bens e serviços que venham de países como Israel, onde a tortura é celebrada pela população nas ruas. Desinvestimento de qualquer negócio que inclua parceiros com Israel e, por último e talvez mais importante, aplicação de sanções comerciais para estrangular o nazisionismo de forma a impedir que a selvageria racista venha a se expandir, contaminando todas as nações do mundo com o discurso extremista e segregacionista. Não há espaço mais para negociações; com torturadores e fascistas a conversa é outra. É preciso ser firme no combate à obscenidade que se estabeleceu na Palestina pelos invasores, se é que ainda sonhamos com a paz.

Veja mais aqui.

Deixe um comentário

Arquivado em Palestina