Racismos

Uma página do site do hospital que proíbe doulas mostrava uma criança negra, linda por sinal, e uma pergunta abaixo da imagem: “Minha filha tem os cabelos excessivamente crespos. Com que idade posso fazer alisamento”? Muitas pessoas se indignaram com a pergunta (fictícia ou não) dessa mãe, por entenderem que se tratava de racismo, além de estimular vaidade em crianças muito pequenas. Depois da chuva de protestos contra a proibição absurda e grosseira da presença de doulas, a página que continha essa pergunta sobre cabelos de bebês também saiu do ar.

Tenho uma história que pode lançar uma luz sobre isso. Claro, entendam como uma história que ocorreu há 30 anos, em um hospital da minha cidade, no sul do Brasil.

Estava na fila do hospital para o almoço. Era residente do primeiro ano do Hospital e meu irmão residente de segundo ano. Conversávamos sobre tratamentos clínicos, interações entre pediatras e obstetras (meu irmão estava terminando a residência em pediatria aquele ano) quando um casal com um bebê se aproximou. Era um casal de negros. O homem um sujeito de estatura média, cabelos raspados ao estilo “afro”. A mulher era uma negra, com o tom da pele bem mais “café com leite”, uma cor, aliás, bem brasileira, que dificilmente se vê nos Estados Unidos, pois que os puritanos americanos a achavam degradante. Nosso “cadinho de raças” tem, para muitos estudiosos, esta raiz cultural. Somos um país mulato, misturado e, como diria o nosso ex-presidente Fernando Henrique, “só é racista quem não conhece sua árvore genealógica”. Eu, por exemplo: nome inglês, cara de branquelo, pai pernambucano, avós ingleses, bisavós espanhóis e portugueses do Alentejo. Do Alentejo uma pele mais escura, da “mouraria”. Dos mouros para a África, e de lá venho eu. Mas, voltando à história, o pai do bebê chamou meu irmão, que estava na fila, e pediu para falar-lhe. Marcus afastou-se da fila e por alguns minutos falou com o casal, que mostrava para ele uma ficha verde, para onde apontavam com insistência. Alguns minutos depois meu irmão volta para a fila com um ar assustado.

– Que houve, perguntei.
– Não vais acreditar o que eles estavam solicitando. Eu fui o pediatra que atendeu o nascimento daquele bebê há dois dias. O papel que eles me mostravam era a ficha pediátrica. Nela estavam escritos os dados principais do nascimento do menino: peso, comprimento, apgar, e … cor. Evidentemente eu coloquei a cor como sendo “negra”. Pois o pai estava solicitando para que eu mudasse a cor do bebê na ficha. Sim, ele queria que seu filho fosse oficialmente… “branco”.
– Mas… como assim?, disse eu. Eu vi o casal, o pai era preto, a mãe mulata. E também vi a criança. Você por acaso não esqueceu de fazer o…
– Sim, ele disse… claro que eu fiz o “teste do saquinho”. É preto, cara, claro que é…
– Mas por quê? Qual a razão para isso? perguntei
– Só um mundo ainda racista pode explicar isso, disse meu irmão desanimado…

Uma sociedade que criminaliza a cor da pele, que desvaloriza o ser humano pela etnia e afasta seres humanos por graus variáveis de melanina acaba produzindo cenas como essa. O pai dessa criança estava apenas tentando tirar do seu filho a penalização social de ser negro em uma sociedade dominada e controlada pelos brancos. Eliminar a negritude de seu filho parecia o melhor a fazer, pois tal ação poderia livrá-lo de um fardo pesado que carregaria por toda a sua vida. Ser negro, nos anos 80, era muito pior do sê-lo hoje em dia. Agora temos o sistema de cotas, que de uma forma rápida tenta equalizar o fosso que que a cultura escravagista cavou nesse país, separando negros e brancos pelas diferenças de oportunidade. Somente agora estamos vivendo em uma sociedade mais respeitosa, e ainda assim alguns abusos são encontrados.

Entretanto, muito ainda há a fazer para se construir uma sociedade justa e digna para todos. Eliminar o racismo é uma dessas tarefas que precisamos tratar com urgência.

A mãe que quer livrar a filha dos cabelos crespos não está fazendo algo semelhante ao que este pai desejava para seu filho, há 30 anos?

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