Paralaxe

 

Apesar dos avanços democráticos, e da disseminação exponencial de conceitos e visões de mundo, ainda não estamos plenamente preparados para escutar o que o outro tem a dizer. Liberdade de expressão e de pensamento é uma utopia. Acreditamos que temos a verdade e a liberdade como meta, mas basta que pisem nos nossos calos para que viremos feras. Algumas palavras dissonantes de nossas crenças profundas são suficientes para que, em poucos minutos, o mais aberto dos democratas esteja pegando em armas, ou impedindo seu oponente de falar. É duro escutar o que o outro tem a dizer, principalmente quando isso agride crenças arraigadas, que acalentamos de forma muito intensa.

Meu pai sempre me dizia para estar preparado para escutar as pessoas que tinham ideias bastante diferentes da minha. Fui além: construí uma vida inteira de marginalidade, exercitando-me a pensar de forma diversa dos outros. Pensar alternativamente é um exercício, como ir à academia; precisa persistência, e além de tudo força de vontade. E resiliência, sem a qual facilmente mergulhamos no oceano de ideias confortáveis e acalentadoras.

Outra coisa que meu pai dizia: “Pense em algo que acreditas com todo o fervor. Pode ser a visão humanista, a igualdade dos povos e gêneros, a ideia de fraternidade ou a importância das instâncias psíquicas na conformação do sujeito. Pensou? Então agora, relativize-as, critique-as, coloque-as como simples ideias dentro de uma panela gigantesca de pensamentos controversos, com visões ora próximas, ora distantes da sua. Olhe para seus conceitos como elementos relativos, passageiros, frágeis e diáfanos. Está realmente preparado para olhar para suas crenças como figuras tão frágeis? Ou ainda vai precisar tratá-las como dogmas por muito tempo?

Escutar a voz do outro, sua visão específica do mundo, suas posturas diversas é uma forma muito complexa de gerir a vida. É preciso uma vigilância constante, um exercício brutal de alteridade e um esforço hercúleo de paralaxe. Para olhar o mundo com uma visão abrangente faz-se necessário um cuidado constante com a segurança fugidia que encontramos na dogmatização. Se ela por um lado acalma nossas angústias, oferecendo um caminho unívoco, ao mesmo tempo paralisa nossa natural criatividade. Os pensamentos consensuais muitas vezes produzem o mesmo efeito; se por um lado produzem unidade, por outro refreiam nosso pendor transformador.

Construir um mundo mais digno e justo para todos que aqui vivem é tarefa de todos nós. Permitir que as vozes distantes da nossa sejam ouvidas é um ato de coragem. Somente se pudermos enfrentar a razão alheia poderemos ter certeza da correção de nossa rota. Caso contrário, teremos apenas uma visão parcial, pessoal e única, que não poderá ser oferecida aos outros que nos acompanham.

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