Barricadas

 

Nada é certo, apenas desejo e esperança. Depois dos marcantes acontecimentos ocorridos no último domingo, quando mais de mil mulheres saíram às ruas para lutar pelo direito a ter uma doula no parto, minha preocupação continua intensa. A consolidação de uma agenda das doulas passa por um necessário amadurecimento. Esse processo pressupõe o reconhecimento do “outro”, quais sejam os médicos, os hospitais, as instituições e os demais atores do cenário do nascimento. Essa mobilização poderá produzir o fortalecimento das consumidoras, criando uma nova postura das USUÁRIAS (o único setor com potencial para produzir alguma mudança) e, a partir delas, a elaboração de um novo espaço de debate para a questão da assistência ao parto humanizado. A passeata das doulas, com sua exuberância, me encheu de felicidade, alegria, esperança e… dúvidas.

Eu continuo preocupado e angustiado com o que faremos após uma mobilização como essa. Por um acaso, eu havia acabado de assistir o filme “Os Miseráveis” (versão musical) no dia anterior à marcha, e as belas imagens e músicas continuavam em minha memória. Naturalmente tracei uma linha – com um pouco de criatividade e imaginação – que poderia unir as realidades aparentemente díspares de uma passeata contemporânea e de uma cena revolucionária do século XIX. Lembrei imediatamente da cena das “barricadas” que fecharam as ruas de Paris em 1830, no levante popular contra as Ordenações de Julho (Ordenanças de Julho), que suprimiram a liberdade de imprensa, dissolveram a câmara, reduzindo assim o eleitorado, anulando as últimas eleições e permitindo-se governar através de decretos. Algo muito parecido com a “proibição das doulas” em hospitais privados de São Paulo.

Pois o levante dos “citoyens parisien” foi determinado pelos acontecimentos violentos e descabidos produzidos por um governo alheio aos desejos de um povo faminto e necessitado. Entretanto, apesar do afã, do brio, da coragem e da força dos maltrapilhos combatentes, a luta contra as tropas leais ao Rei terminou como vimos no filme: todos morreram, dizimados por uma fraqueza que não imaginavam possuir. Sim, não havia estrutura, nem armas, nem pessoas, nem ativistas e nem um conjunto de ideologias sólidas e estruturadas para enfrentar – com propostas seguras e firmes – a reação dos conservadores. E a batalha das barricadas passou à história como um banho de sangue sem resultado positivo, a não ser a criação de maravilhosas canções, musicais da Broadway e candidatos ao Oscar.

É disso que tenho medo agora. Alguns hospitais – na melhor das hipóteses – poderão reverter suas posições e dizer: “Muito bem, mandem suas doulas.” E diante dessa oportunidade, que doulas mandaremos? Ativistas? Mulheres portando baionetas, cheias de ideias, conceitos tênues e enfrentamentos? Quanto tempo resistiremos a uma situação de constante embate, pela ameaça implícita que uma conduta belicosa pode gerar em hospitais acostumados ao poder magnânimo e inquestionável de uma corporação? Quanto tempo resistirão as doulas a uma perseguição sem trégua, de profissionais que se sentem constantemente ameaçados?

Não acredito na possibilidade de que as doulas entrem no caminho do nascimento para transformá-lo se não for com as ferramentas da doçura, da resiliência, da calma, da compaixão e da paciência. Sei da importância do ativismo, e faço coro às palavras de Sheila Kitzinger que dizia “Não é com tapinhas nas costas que faremos uma revolução social”. Entretanto, há o espaço do ativismo e o espaço da atenção, e esse campos distintos não podem se misturar na assistência, sob pena de produzirmos muito choro e ranger de dentes. Bradar por justiça, por mais correto que possa ser, não poderá servir de estopim para mais injustiça. Atirar para todos os lados, com o rubro a cobrir a esclerótica, pode sepultar por muitos anos os esforços de adicionar afeto e carinho no parto, através do trabalho das doulas.

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