Arquivo do mês: março 2013

Felicidade

 

Dizem que teve uma vida infeliz com o príncipe de Monaco. Ela, entretanto, viveu o sonho feminino mais ancestral, desde o advento do patriarcado: ser uma princesa de verdade. Viveu a fantasia mais antiga das meninas: um mundo rodeado de encanto em um castelo, ao lado de um príncipe. Mas eu pergunto: será que a vida na realeza lhe garantiu a felicidade? Teria sido ela mais feliz se não tivesse recebido graciosamente da natureza tamanho dote de beleza e talento? Se fosse tão somente uma mortal, como qualquer dessas pessoas que vemos todos os dias atravessando rapidamente a rua, teria a mesma chance de ser “feliz e realizada”? O que, afinal, pode nos garantir uma vida plena, repleta de alegria e contentamento? Serão o dinheiro, a fama, o prestígio, a beleza, a inteligência ou o poder capazes de nos garantir uma boa noite de sono, a sensação de plenitude, a brisa fresca da paz de espírito a nos enlevar e refrescar a alma? Ou será mesmo verdade que tudo o que nos propicia momentos de felicidade, mesmo os mais frugais e passageiros, é algo incomensurável e impossível de contabilizar?

Talvez o que nos falta é a capacidade de entender que, se a tal sentimento existe e pode ser alcançado, ele certamente não se conecta com as construções elaboradas da vida cotidiana; nem sequer com o dinheiro, o poder, o reconhecimento e a fama. É provável que tal sensação se liga às questões mais profundas e primitivas da nossa existência: o carinho, o suporte, o afeto e a segurança de ser amado.

E quanto a isso, não há dinheiro suficiente que possa comprar.

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Ana Maria Braga e a Humanização

Estamos num momento MUITO CRIATIVO do movimento de humanização. Pela primeira vez, graças ao ativismo (de qualquer tipo, o de gabinete e o de paralelepípedo) estamos tendo uma visibilidade nunca antes alcançada. Portanto, agora é a hora de planejar os próximos anos de luta por um nascimento mais digno e uma maternidade livre de coerções. Minha tese é de que precisamos MUDAR o paradigma de lutas, da mesma maneira que mudamos a nossa atitude ao sairmos da adolescência. Nossa mudança será de uma AGENDA NEGATIVA, que se baseia na exposição das práticas inadequadas, taxas abusivas, violência institucional, níveis de intervenção inadequados, ausência de alternativas e cerceamento de informações sobre riscos relativos, para uma AGENDA POSITIVA, que obrigatoriamente precisa mudar o discurso e mostrar o que pode ser feito de BOM e de correto para o nascimento e a amamentação. Menos acusação e mais proposta; menos acusações a cesaristas e mais exaltação de profissionais humanistas. Deixar de focar em pessoas e mostrar a importância de projetos. Mostrar mais o sucesso das casas de parto, modelos de parteria e dos hospitais públicos humanizados e acusar menos as maternidades tecnocráticas e afastadas das evidências.
Além disso, precisamos de uma atitude PRÓ-ATIVA, que faça propostas de ponta, ofereça alternativas viáveis (e não fantasias irrealizáveis), que negocie com as outras partes (médicos, hospitais, prefeituras, etc.) e que tenha a compreensão e a bondade de aceitar o contraditório. Quando a Ana Maria Braga fala positivamente de partos domiciliares isso deve ser EXALTADO como um progresso na mídia e na própria consciência dela sobre o nascimento. Se isso não é tudo, pelo menos é um gigantesco passo para a visão mais respeitosa e compreensiva de uma grande formadora de opinião como ela.

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Women caring for women

To all women who care for birth…

The hands, not hers, clasped in the lap, while teardrops roll down the pale face. The pain she feels in a body not her own, the words she speaks that shine in the darkness of doubts, opening a glimmer of hope in this night of the flesh. The fatigue that feels like hers, the same questions she once made for herself. The need to scream—an imperative in her own opened mouth, and the lament that groans in the looks she gets. Time that passes slowly, like a little ship on the horizon approaching the harbor with the slowness of centuries. The sneaky time hiding behind the clock, sly and pretending to be paralyzed. And the sound of herself, that silences in her throat yet is audible in every pain, every wave and every move.

She looks, watches, weeps, nurtures, and enjoys a joy that is not hers, a pain that she builds for herself, draining it from the sister by her side, who moves, transmutes, leaves the cocoon and emerges.

Yes, she thinks. If anything I can give, may it be my silence. May my presence be diaphanous for you. If I have something to offer, may it be with my hope and my love. If I can ask for something, may I ask for the privilege of remaining with you now while, through your pains, you build the miracle of everyday life being made.

 

________

That’s a humble tribute from me to women who dedicate their lives to exalting feminine power, who care for their sisters in the magical and dazzling moments of birth.
Women caring for women.

Ric Herbert Jones, MD (revised by

Robbie Davis-Floyd)

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“À bença, João de Deus”

Quando da visita do papa em 1980 ao Rio Grande do Sul, mais exatamente na minha cidade – Porto Alegre – foi realizada uma grande festa de recepção a ele. Nessa oportunidade houve uma gigantesca mobilização da população da província para a chegada do sumo pontífice em terras gaúchas. Entre as manifestações mais curiosas todos se lembram daquela, na frente da Praça da Matriz, quando o público em uníssono bradou com fé e paixão: “Ucho, ucho, ucho, o Papa é gaúcho!” Quando buscaram encontrar a origem de tamanha explosão de criatividade e poesia ufanista, encontraram um menino mirrado, cabelos escorridos, carinha de anjo rebelde, com as mãos carregadas de panfletos mostrando o rosto sisudo e sereno do “Papa do Povo”. Ao pé do palanque armado com canos e madeirame, com os olhos brilhando e o coração disparado de pura alegria infantil, o menino que havia criado o refrão não contava mais do que 14 anos e repetia a frase, mesmo quando ela já se havia extinguido na boca única da multidão que se aglomerava na frente da Catedral Metropolitana.

Esse menino sorridente era o Roger, meu irmão.

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Mulheres que Cuidam


As mãos, que não as suas, no colo entrelaçadas, enquanto a lágrima bruta rola da face lívida. A dor que sente num corpo que não é seu; a palavra que brilha no breu das dúvidas, abrindo um clarão de esperança na noite do corpo. A fadiga sentida como sua, as mesmas interrogações que outrora se fizera. A necessidade de gritar, que sente imperiosa na boca que se entreabre, e o lamento que escorre do olhar que recebe. O tempo que passa, como um navio que, pequenino no horizonte, se aproxima do porto com o vagar dos séculos. A hora sorrateira que se esconde por trás do relógio que, dissimulado, se finge paralítico. E o som de si mesma que silencia na garganta, mas que se escuta a cada dor, a cada onda e a cada movimento.
Ela olha, observa, chora, lamenta e goza um gozo que não é seu, uma dor que fez para si, para retirar da irmã que, ao se lado, se contorce, transmuta, descasula e emerge.
 
“Sim, pensa ela. Se algo posso dar, que seja meu silêncio e minha diáfana presença. Se algo tenho a oferecer, que seja com minha esperança e meu amor. Se algo posso pedir, que me ofereças o privilégio de estar contigo enquanto, através de tuas dores, constróis o milagre cotidiano da vida se fazendo”
No dia Internacional da Mulher, minha homenagem às mulheres que dedicam suas vidas a exaltar o feminino no nascimento humano, e cuidam de suas irmãs nos momentos mágicos e deslumbrantes do parto.
Mulheres que cuidam de Mulheres…

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