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Dinheiro e Felicidade

Dinheiro realmente não compra felicidade, mas via de regra precisa ter muito dinheiro para perceber isso. Que o digam os ricos que se suicidam e destroem a sua vida tão logo se enchem de dinheiro. Gosto da frase que diz “Ele era tão miserável que não possuía nada além de dinheiro”. Freud deixava claro que a felicidade é a realização de um desejo infantil e para as crianças o dinheiro não existe. Portanto, não há como ser feliz acumulando-o, pois que eles nada significam para elas. Todas as queixas se baseiam em uma série de frustrações que ocorrem pela falta de condições econômicas, sem reconhecer que, uma vez que estas sejam eliminadas, outras chegam para ocupar seu lugar.

As necessidades são limitadas, enquanto os desejos são infinitos. Por necessidades entendemos aquilo que nos mantém vivos e funcionais: comer, beber, dormir, ter abrigo, receber afeto. Comprar um carro, uma casa maior ou roupas melhores não são necessidades, mas desejos, e estes são como as múltiplas cabeças da Hidra de Lerna da mitologia grega; para cada cabeça destruída com o consumo, outras duas aparecem em seu lugar.

Por outro lado, afirmar que o dinheiro não traz a felicidade não significa uma elegia à pobreza. Pelo contrário, apenas deixa claro que todo aquele que procura dinheiro com o claro objetivo de se tornar feliz estará trilhando uma rota de inequívoca frustração.

Aliás, na percepção de Freud, o nome que damos a realização de uma fantasia é “pesadelo”. Todavia, a abundância e a satisfação dos desejos não deve ser considerado algo maligno ou perverso em si, e nem deve ser tratado como tal, porém é extremamente perigoso acreditar que o acesso aos bens de gozo material pode produzir em alguém a almejada felicidade.

Talvez o mais sábio seja mesmo ser feliz com tudo o que a vida oferece gratuitamente.

(Pervert’s Guide to Cinema, Slavoj Zizek fala sobre Vertigo – “Um Corpo que Cai”)

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Fantasia

No brilhante documentário “Pervert´s Guide to Cinema“, de Slavoj Zizec o excêntrico psicanalista e marxista esloveno pergunta: “por que afinal precisamos da ficção?“. Por qual razão nossa imaginação cria universos paralelos, conta histórias, relata fantasias e se refugia na literatura, no teatro e na última das artes, o cinema? Por que o desenvolvimento da nossa espécie não poderia se fixar na vida real, concreta, física, deixando de lado as complexas elaborações do simbólico?

A resposta talvez seja porque a ficção nos oferece um relaxamento para a crueza do real, assim como o sonho – a ficção subjetiva de cada noite – nos oferece uma forma de apaziguar as tensões da vida conflituosa que surge com o nascer de cada dia.

A fixação das crianças pelas histórias é algo impressionante. Mais do que apenas escutar as narrativas, elas as criam cotidianamente. No mundo em que vivem elas apenas esporadicamente visitam a realidade palpável, enquanto passam a maior parte do tempo imersas em suas fantasias. Para elas estas histórias são instrumentos que utilizam para dar conta da infinidade de decisões complexas que precisam tomar todos os dias. Mais do que o alívio para seus temores e medos, o mundo das fantasias é uma grande escola onde encontram as ferramentas para lidar com os monstros que enfrentam na dura tarefa de amadurecer.

– Mas, ela poderia se atirar do alto da torre, pois lá em baixo os ursos a segurariam. Como Sophia tem poderes, ela jogaria lá de baixo uma corda mágica e salvaria seus amigos. Pode ser vovô?

E por que não? Se assim o desejas, que assim se faça.

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Zizek e o “day after”…

Confesso que me emocionei ao ler o início desse texto do brilhante mestre Zizek – psicanalista e comunista esloveno – que escreveu sobre os “movimentos de ocupação” que ocorreram em várias partes do mundo, principalmente em Wall Street, Nova York. Se nós olharmos o texto acima e o adaptarmos à causa da humanização do nascimento veremos que o texto mantém sua coerência e sua lógica intactas. Nesse texto Zizek está concordando com a minha observação de que, após a “orgia” de indignações que caracterizam muitos movimentos reivindicatórios, faz-se necessário que se busque a maturidade, a serenidade e a criação de uma agenda positiva para a implantação de um projeto de humanização do nascimento que inclua, entre outras propostas, a presença das doulas. Vejam só:

“Não culpem os médicos ou os hospitais pelas suas ações, pois o problema não é a agressividade ou a violência institucional praticada por eles, mas um SISTEMA que nos leva às mazelas que eles reproduzem na cultura contemporânea.”   

Nós, do movimento de humanização, precisamos incansavelmente estimular um debate para além das evidências científicas, e que possa nos situar dialeticamente nas correntes de pensamento que questionam o próprio cientificismo aplicado à medicina e à obstetrícia. Debater a luta de poderes sobre o corpo da mulher, a dinâmica das corporações e as questões sobre o ‘que fazer’ diante da derrocada inevitável do modelo biomédico intervencionista atual é mais do que uma necessidade; é um dever de todo aquele que se situa politicamente na questão do feminino e da sexualidade.  

Se nós pudermos ultrapassar a adolescência dos movimentos de agenda negativa – acusações, ressentimentos e dedos apontados – poderemos assumir a maturidade das propostas conjuntas, onde o olhar e a necessidade do outro também assumem importância no debate, para que seja possível, por fim, avançar.

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