Mãezinhas

div>

Entre as expressões mais comumente utilizadas em centros obstétricos (e em lojas de roupas para bebês) está uma que ainda encerra certa divisão nas opiniões.
Para alguns, trata-se de uma expressão carinhosa; para outros uma espécie de armadilha linguística, que cairia na categoria que Maximilian definou como “verbose”. A expressão é “mãezinha”, tão utilizada pelas pessoas que atendem mulheres cujo volume abdominal denuncia um nascimento que se aproxima celeremente. Entretanto, sabendo que existe muito mais por trás das palavras do que a mera superficialidade de sua intenção, eu prefiro me filiar à tese das “intenções recônditas”, vendo nestas expressões jogos verbais que camuflam os verdadeiros propósitos a que servem.  “Mãezinha” nos apresenta um duplo código:
O primeiro é a presença óbvia e ostensiva do diminutivo, que serve para infantilizar a gestante, tal qual o discurso feminino das “coisinhas, pequeninhas e bonitinhas“, que é utilizado para desmerecer as ações e o universo de significantes de meninas e mulheres.
Isso se produz desde a infância, onde a delicadeza e a fragilidade são expressões valorizadas no comportamento feminino, e onde a força e a imposição são por vezes intoleráveis. A “mãezinha”, assim tornada criança, é mais facilmente manipulável e condicionada a aceitar as ordem que lhe são dadas. Além disso, com menos culpa suprimimos as suas vontades e solicitamos que obedeça o sistema, com suas regras e protocolos. O segundo sentido oculto – e para muitos totalmente inconsciente – é a liquefação do sujeito, a amálgama deste no tecido social, como diria Max. Tal situação se percebe em todas as circunstâncias em que a individualidade e a subjetividade precisam ser abolidas e amordaçadas. Um exemplo típico, em outra instituição de contenção social, é nas forças armadas.
Quando fui oficial médico na aeronáutica tal era a prática estimulada: jamais chamar pelo nome, e sempre pela inserção funcional do sujeito na instituição. Chamávamos pelo que determinado militar fazia, como se o sujeito fosse reduzido à sua função, sua utilidade. Assim eram os “soldados”, “sargentos”, “cabos” ou mesmo “capitães”.
Não havia “sujeito”, apenas sua ação (ou, como em Ghost Busters, Não existe Dana, apenas Zu…). Mãezinha serve a este fim: a supressão da individualidade e a infantilização de um sujeito tornado objeto.”
Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Parto

Os comentários estão desativados.