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Biografia

Quando eu lançar minhas memórias definitivas as publicarei com um pseudônimo charmoso (pensei algo como “Bertrand du Belmont”) e com o subtítulo “biografia não autorizada”. Mais ainda, vou inserir algumas passagens falsas (ou verdadeiras) para irritar, causar escândalo e posteriormente ser cancelado por grupos identitários. Espero que com essa estratégia será possível transformar um retumbante e espetacular fracasso em um sucesso editorial, alavancado pelos meus próprios inimigos, a quem ficarei eternamente agradecido.

Max, comunicação pessoal, ontem pela manhã, enquanto chovia

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Mãezinhas

Entre as expressões mais comumente utilizadas em centros obstétricos (e em lojas de roupas para bebês) está uma que ainda encerra certa divisão nas opiniões.  

Para alguns, trata-se de uma expressão carinhosa; para outros uma espécie de armadilha linguística, que cairia na categoria que Maximilian definiu como “verbose”. A expressão é “mãezinha”, tão utilizada pelas pessoas que atendem mulheres cujo volume abdominal denuncia um nascimento que se aproxima celeremente. Entretanto, sabendo que existe muito mais por trás das palavras do que a mera superficialidade de sua intenção, eu prefiro me filiar à tese das “intenções recônditas”, vendo nestas expressões jogos verbais que camuflam os verdadeiros propósitos a que servem. 

“Mãezinha” nos apresenta um duplo código:   O primeiro é a presença óbvia e ostensiva do diminutivo, que serve para infantilizar a gestante, tal qual o discurso feminino das “coisinhas, pequeninhas e bonitinhas“, que é utilizado para desmerecer as ações e o universo de significantes de meninas e mulheres.   Isso se produz desde a infância, onde a delicadeza e a fragilidade são expressões valorizadas no comportamento feminino, e onde a força e a imposição são por vezes intoleráveis. A “mãezinha”, assim tornada criança, é mais facilmente manipulável e condicionada a aceitar as ordem que lhe são dadas. Além disso, com menos culpa suprimimos as suas vontades e solicitamos que obedeça o sistema, com suas regras e protocolos. O segundo sentido oculto – e para muitos totalmente inconsciente – é a liquefação do sujeito, a amálgama deste no tecido social, como diria Max.

Tal situação se percebe em todas as circunstâncias em que a individualidade e a subjetividade precisam ser abolidas e amordaçadas. Um exemplo típico, em outra instituição de contenção social, é nas forças armadas.   Quando fui oficial médico na aeronáutica tal era a prática estimulada: jamais chamar pelo nome, e sempre pela inserção funcional do sujeito na instituição. Chamávamos pelo que determinado militar fazia, como se o sujeito fosse reduzido à sua função, sua utilidade. Assim eram os “soldados”, “sargentos”, “cabos” ou mesmo “capitães”.  

Não havia “sujeito”, apenas sua ação. Mãezinha serve a este fim: a supressão da individualidade e a infantilização de um sujeito tornado objeto.”

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