Portas Fechadas

Bisturi

Paciente adentra no meu consultório junto com a mãe. Antes de falar rompe em prantos. A mãe, amorosamente, lhe diz “Não precisa ficar nervosa, acalme-se“, ao que eu explico “Podes chorar. Não sei o que tens, mas deves ter tuas razões“. Ela me explica que eu sou o sétimo médico em que ela vai a procura de um parto normal. Sim, apenas um parto normal. Ela não queria um parto domiciliar, nem com luzes coloridas, velas perfumadas ou um tocador de cítara. Não, apenas que seu filho “saísse por onde entrou”, como ela mesma disse.

As outras médicas (sim, todas mulheres) simplesmente se negaram a atender um parto normal. Menos mal que ela tenha evitado os “falsos vaginalistas“, aqueles que dizem: “Olha, até faço parto normal, desde que Vênus esteja alinhada com Saturno num ângulo de 37 graus, num céu com boa visibilidade. Ah, para isso não pode estar chovendo, porque sair de casa com chuva ninguém merece, né?

Seis mulheres se negaram…

Fui obrigado a dizer: “Nenhuma delas foi macho suficiente para encarar atender o teu parto normal, né?”. Uma piada dura, mas que carrega um questionamento sério e importante. Por que logo as mulheres são as que mais disseminam a misoginia da obstetrícia contemporânea? Elas é que deveriam ser a mudança, mas parece que a força da corporação é mais forte do que a sua natural feminilidade. No embate entre o masculino e o feminino, aquele se sobrepõe a esta. Triste isso…

Seis mulheres que fecharam a porta…

E ninguém diz NADA sobre este tipo de violência. Ninguém, além de nós, se escandaliza. Eu pergunto: onde estão as FEMINISTAS, que lutam pela mulher e que as defendem contra as violências cotidianas? Acaso este tipo de agressão à autonomia não merece ser combatido por este movimento? Onde está o Ministério Público, que silencia diante do fechar de portas? E os conselhos profissionais, porque não se indignam diante de profissionais que expõe voluntariamente suas pacientes a um risco reconhecidamente aumentado?

Ah, eu já ia esquecendo. Esta pobre moça veio aqui porque viu o filme O Renascimento do Parto. Ela e o marido saíram do cinema determinados a receber seu filho nesse mundo como cidadão, e não como objeto. É isso. É assim que será a revolução silenciosa que faremos. Uma mulher de cada vez. Um nascimento digno e respeitoso espalhando uma onda de afeto e carinho para todos que puderem sentir, e se permitam modificar.

Essa moça estava totalmente desesperançada. O marido nem veio à consulta, mas as razões eram boas: “Porque vou me frustrar de novo? Pergunte a ele se ele aceita atender um parto em fevereiro. Se ele não te cortar as esperanças de imediato, eu vou na próxima consulta“. A mãe foi uma boa ajuda, pois respeitava e acolhia os desejos da filha. As desculpas para as negativas de parto seriam cômicas, não fossem trágicas e dramáticas. Você tem a “pelve infantil”, disse uma. Como assim?, pergunto. “Tem que levar o diploma da bacia para poder ter parto?” pensei. Outra pérola: ” Você quer mesmo passar por toda essa dor?“. A paciente ainda tentou “explicar” para a médica a respeito das dores de uma cesariana, mas percebeu que era inútil e sem sentido. Outra médica fez algo incrível. Quando ela entrou na sala, ANTES de se sentar, a médica disparou: “Olha, se você está procurando parto normal já vou avisando que só faço cesariana. Não tenho tempo a perder em trabalhos de parto. Só realizo cesarianas com hora marcada e, se quiser, tenho horário para o dia 20. Caso não queira, peço que procure outro médico“. Assim mesmo, na lata. A gente até fica feliz por não ter sido enrolado, mas é o mesmo tipo de felicidade que temos ao sermos assaltado sem levar uma coronhada. “Pelo menos não bateu“, ou a já famosa “estupra mas não mata“.

Eu não tenho muitas restrições à livre expressão das preferências dos profissionais. Prefiro até que os médicos sejam sinceros e não enrolem pacientes até 40 semanas, quando então se inicia a catilinária do pouco líquido, cordões enrolados, falta de encaixe, bacias “infantis”, pente fechado, colo grosso, etc. Por outro lado, o que percebo é o fechamento do cerco: a incompetência e o desinteresse pela fisiologia do nascimento assumem proporções inaceitáveis. Não há mais nenhum pudor, vergonha ou receio de expor de forma desabrida a rejeição ao parto normal. Os partos são repudiados como um modelo antiquado de telefone celular. “Para que vais usar um telefonezinho de parto normal mixuruca desses se eu te ofereço o Smartphone do nascimento?”

O problema é o MODELO, e isso não vou cansar de repetir. Estão errados os que pensam que eu considero essas médicas as “culpadas” do processo, as vilãs. Não!!!! Elas também são vítimas de uma sociedade que entrega a responsabilidade de atender partos para pessoas completamente desinteressadas e despreparadas para esta atividade sutil e delicada. Elas são formadas por 9 longos anos na escola médica para intervir no nascimento, e na hora do parto tudo o que se deseja é a não intervenção, a paciência , a delicadeza a doçura e o respeito à fisiologia. Médicas obstetras carregam o bisturi na mão quando deveriam ser ensinadas a levar uma flor. Não é culpa delas; é de um modelo que avilta a natureza em nome da idealização e exaltação da intervenção tecnológica, através do “Mito da transcendência Tecnológica” que Robbie Davis-Floyd tanto falava em seus livros.

O que eu desejo é que as mulheres que sonham com um parto sem intervenções possam tê-los sem esta romaria indecente, numa mendicância indigna por um nascimento de acordo com seus valores. Para isso, de nada adianta apontar dedos para os profissionais. Eles estão no lugar errado, fazendo o que melhor podem dentro do seu sistema de crenças. O parto deve voltar para as mãos das pessoas que acreditam nele, que se apaixonam por ele, e que desejam oferecer uma vivência livre e respeitosa para as mulheres e seus filhos. Essa é a nossa tarefa, nossa missão. Que nenhuma mulher mais tenha que sofrer desta maneira pelo simples desejo de parir em paz. E que assim seja…

Amém.

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1 comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Uma resposta para “Portas Fechadas

  1. Pingback: Portas fechadas (por Ricardo Jones) | Pense bem antes de fazer uma cesariana

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