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Vergonha

Sobre a foto de uma médica que publicou os “nascimentos de novembro”, em que todos eram cesarianas.

Na minha perspectiva, atacar o intervencionismo de cesaristas, mostrando o efeito deletério de alienar as mães do processo de nascimento, não causa o resultado que esperamos. Temos a ilusão de confrontar o sujeito com uma realidade que lhe cause vergonha, mas raramente se consegue produzir este sentimento.

(A vergonha só ocorre entre os obstetras chamados “liberais”, ou seja, os que reconhecem o abuso mas se julgam impotentes para contê-lo. Segundo Marsden Wagner, estes são os mais perigosos. Conheci vários…)

Essa ideia de afrontar os defensores da tecnocracia tem, via de regra, o mesmo efeito de dizer para um apoiador de Moro que o ex juiz subverteu a lei, corrompeu sua imparcialidade, agiu ilegalmente apenas para tirar Lula do páreo e com isso elegeu Bolsonaro. Ao contrário de ficar constrangido, esse sujeito vai olhar para você surpreso e dirá: “Claro, mas é por isso mesmo que o apoiamos!!!”

Para muitos cesaristas, a cesariana é o aprimoramento natural do mecanismo de parto, artifício criado pela tecnologia humana para tirar as mulheres da barbárie e colocá-las na civilização. Esta cirurgia é aclamada por eles como um avanço inquestionável da ciência, da mesma forma que um cavalo avança sobre o andar a pé, o automóvel sobre a tração animal, e os aviões rompem os limites do solo. A cesariana é o destino natural do parto e questioná-la significa virar as costas para o próprio progresso humano.

Essa visão teleológica da tecnologia como processo libertário é ensinado e estimulado na escola médica – em especial na obstetrícia – como um dos pontos centrais do rito de transformação que ocorre com todo estudante de medicina. Se entendemos que a medicina se estabeleceu e fortaleceu exatamente pelo uso dessas técnicas e equipamentos, que sentido haveria de abandoná-los – ou mesmo criticá-los – após tantos séculos investindo no estabelecimento desse paradigma?

O uso da tecnologia em obstetrícia é o ponto nevrálgico que sustenta sua prática. Qualquer crítica ao seu uso será rechaçada como anátema ou aberração. Se a crítica vier de dentro, será heresia e traição.

Acho que os cesaristas não se ofendem; apenas lamentam nossa falta de amor pelas mulheres cujas cesarianas as salvaram do sofrimento imposto por uma natureza madrasta

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Tchutchuca

Para mim, conforme já disse em outras oportunidades, o grande erro – que a própria imprensa ratifica de forma sistemática – é considerar o CFM como um órgão preocupado com a saúde da população ou com a cura de doenças. Isto é um equívoco. O CFM se preocupa com os médicos – seu valor social e sua importância – a Medicina e seu significado na cultura. NÃO É função do CFM proteger pacientes. Para isso outras instâncias precisam ser criadas. Sugiro a “Ordem dos Pacientes”.

É evidente a impropriedade de misturar saúde e lucros, e o absurdo de ainda termos sistemas de saúde e profissionais que lucram com a doença e/ou com a piora dos pacientes. Por outro lado, muitos ainda continuam acreditando que o CFM tem alguma responsabilidade com a saúde das pessoas ou mesmo com a boa prática médica. Não!!! Estes órgãos existem para proteger os médicos e a Medicina – os quais realmente precisam ser protegidos. Uma sociedade que não protege médicos e profissionais da saúde que atuam na fronteira entre morte e vida produz caos e ações defensivas. Todavia, cobrar dessa instituição que zele pela saúde dos pacientes é um erro que precisamos corrigir com a criação de uma CFP – Conselho Federal de Pacientes, órgão responsável para defender os pacientes contra práticas anacrônicas e prejudiciais, como o abuso de cesarianas, kristeller, episiotomias, circuncisão ritualística e outras práticas sem evidências em todas as áreas da medicina.

Limpar a barra da categoria vai levar muitos anos, porque o problema não é de agora. O que testemunhamos nesse momento é o problema escancarado; porém os médicos assumiram uma postura reacionária e contrária aos interesses nacionais desde a eleição do segundo mandato de Dilma. Foram os médicos que tomaram a frente dos ataques misóginos a ela. Estavam lá debochando do AVC de dona Marisa ou na morte do neto de Lula. Foram os médicos que se recusaram a atender crianças (!!!) filhos de pais de esquerda. Colaboraram com a desestabilização. Atuaram como frente de ataque ao PT assumindo como fala principal os discursos de extrema direita.

O CFM está lotado de bolsonaristas da pior espécie. O episódio da pandemia é apenas o coroamento de uma postura anti-SUS, antipovo, aristocrática, arrogante e perniciosa para a saúde da população. A solução para a Medicina só vai ocorrer quando houver uma transformação radical no sistema de ingresso, impedindo que ocorra o sequestro de uma profissão pelos filhos da classe abastada, que pouco entende e quase nada conhece da realidade da saúde brasileira. Infelizmente a Medicina brasileira é arrogante, alienada e autocentrada. Os professores são aristocratas sem vinculação com as populações marginalizadas.

Sei que é uma generalização e que existem exceções importantes e atuantes, mas são minoritárias. A face da medicina brasileira não é boa, e isso ficou muito claro com a deplorável atuação do CFM no desenrolar da crise sanitária.

Esse mesmo CFM que ataca médicos humanistas e promove perseguições covardes a eles e à enfermagem, é a instituição que jamais mexeu um dedo para questionar os médicos que promovem abusos de cesarianas. Já parou para pensar a razão dessa dupla moral? Ora… o CFM só ataca quem ameaça a supremacia médica ao questionar suas ferramentas de intervenção. Jamais quem as usa de forma abusiva e perigosa, colocando em risco a integridade de pacientes.

Ou, como se diz no popular…“Feroz com humanistas, tchutchuca com cesaristas”.

Veja mais aqui na matéria do El País

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Cesaristas

Sejamos justos: criar a imagem do cesarista oportunista e antiético é um erro. Não é isso que move estes profissionais, mas elementos inconscientes e mesmo inconfessos.

É claro que existem profissionais que são comandados pela ambição e falta de escrúpulos, mas não são a maioria. A maior parte dos cesarianas tem fé no seu trabalho. Acreditam mesmo na superioridade da tecnologia sobre a natureza. Acreditam piamente na defectividade do corpo feminino e na sua excelsa tarefa de salvar as mulheres da crueldade de uma natureza injusta. Medicina funciona como uma religião e para exercê-la é necessário acreditar em seus postulados. Como qualquer religião tem os seus oportunistas, enganadores e perversos, mas eles são minoria. A grande parte se associa a ela pela fé.

O que comanda as ações destes profissionais é o MEDO e o despreparo para atender partos em toda a sua complexidade bio-psico-social. Médicos absorvem parto com a mesma lógica que assimilam todos os outros dilemas médicos: a escolha do procedimento mais simples, mais fácil e com menores riscos PARA SI MESMOS. A cesariana é a solução rápida, mágica e tecnológica para as angústias do nascimento.

Repito o que já disse anteriormente: o maior erro da medicina no século XX foi a expropriação do parto normal das parteiras. Milênios de experiência acumulada jogados ao lixo em nome de uma experiência cientificista e intervencionista sobre um evento fisiológico. O desaparecimento do parto normal nas sociedades ocidentais, em especial no Brasil – onde menos de 5% das mulheres têm acesso a um parto sem intervenções – nos cria, pela primeira vez na história, um estranhamento com a própria essência natural deste evento. Este, subjugado à visão artificial criada há pouco mais de um século, só pode ser conhecido através do mapa desenhado pela obstetrícia. Tão distante está da realidade e da essência do parto que este mapa em nada mais se assemelha ao caminho percorrido por tantos milênios.

O PARTO em sua plena capacidade transformativa, só pode ser visto e sentido na marginalidade, nos partos domiciliares, na assistência das parteiras e no suporte das doulas. O resto da população precisa se subjugar a um modelo centrado no médico e nas instituições, objetualizando a mulher e deixando esse evento cada vez mais longe de sua essência feminina e sexual.

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Na antessala de Belzebu

belzebu

Na fila do inferno o secretário do Capeta anuncia:

– Por favor, advogados, cesaristas e vendedores de telemarketing, fiquem na fila de esquerda e aguardem a chamada. Vendedores de plano de saúde, pedreiros que faltam na segunda e empregadas que queimam o arroz, fiquem na fila do centro. Segurem o seu cartão verde na mão junto com o atestado de óbito e o cartão do SUS.

– E nós?

– Neonatologistas que afastaram bebês de mães e enfermeiras que atacaram doulas segurem seus cartões vermelhos e aguardem aqui que o Sr Belzebu vem falar com vocês em pessoa.

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A Holanda NÃO é aqui

Windmill

Um motorista ensandecido pilotando uma “Hilux” grita para uma ciclista na ciclovia paulistana: “Vagabunda!! Isso aqui não é a Holanda!!

Um cesarista ensandecido pilotando um reluzente bisturi grita para um profissional humanizado: “Idiota!! Isso aqui não é a Holanda!!

Discorram sobre esse paralelo…

PS: Quando eu era adolescente nos ano 70 ainda vivíamos na época da ditadura militar. A nós era vedado o ritual sagrado do voto. Governos se sucediam sem que o povo tivesse o direito de escolher seus mandatários; eram os anos de chumbo. Eu vivi nesse tempo e trago as marcas dessa dor em meu peito. Eu sei o quanto dói a falta de liberdade.

Nesse período sempre que um “esquerdista” resolvia falar da importância da democracia alguém levantava a voz e clamava em altos brados: “Cale a boca!! Aqui não é a Europa. Lá é possível votar, pois eles tem cultura. Nosso povo não sabe fazer isso“, num discurso que mesclava de forma curiosa Macunaíma com Newton Cruz. A desculpa era sempre centrada no fato de sermos uma gente preguiçosa, um povo malemolente, inculto, incapaz, incompetente e que – mais do que precisar – merecia que a ditadura governasse seu destino. Com as mulheres o mesmo: é preciso sempre alguém que as governe e controle, pois elas são essencialmente incapazes de tomar decisões por si mesmas.

“Isso” aqui não é a Holanda. Esse país não se presta para democracia. Esta nação não pode se auto gerir. Nossas mulheres são dóceis e submissas e precisam ser controladas para parir. Calem a boca.

A Holanda NÃO é aqui…

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