A necessidade da transcendência

nausea

Olha, qualquer um pode enxergar de forma negativa até mesmo o sexo, quanto mais uma gravidez. Todavia, as descrições negativas sobre a gravidez que frequentemente encontramos na Internet não descrevem as agruras e problemas em si, mas as dificuldades de pessoas que não conseguem perceber sentido no conjunto de transformações pelas quais uma mulher passa durante sua gestação. Quando focamos no negativo e no problema ele se torna absolutamente evidente; quando voltamos nosso olhar para outro lado, ele desaparece.

Para quem está cego à transcendência é impossível perceber a luz. Podemos, sem muito esforço, descrever uma rosa como uma “vara cheia de espinhos que facilmente perfuram dedos desavisados“. Podemos descrever o nascimento de uma criança em termos econômicos, fazendo cálculos que começam nas fraldas e terminam na universidade particular. Podemos enumerar os transtornos físicos, os edemas, o peso alterado, as náuseas e tantas outras coisas. É uma questão de viés e, portanto, de escolha. Um momento mágico e glorioso como a gestação (para o meu olhar, admito) pode ser entendido e traduzido apenas pelos desconfortos que frequentemente se apresentam à grávida. Um período curto de 9 meses pode ser visto como uma “longa e torturante jornada”. O natural e charmoso crescimento do útero pode ser visto como um transtorno sem precedentes e até uma perda de feminilidade. Porém, quanto mais as mulheres se afastam de sua essência feminina, onde a gestação e a maternagem tem lugar de destaque, mais elas perdem seu valor específico.

Para nós, homens, é fácil abstrair a magia e nos focar nos pés inchados, na ciatalgia e nas cãibras. Já para uma mulher, que mergulhou nas águas misteriosas de uma gestação, é muito mais difícil manter-se alheia à intensidade inebriante de suas transformações. Por isso mesmo as descrições negativas e até pejorativas da gravidez são para mim espantosas. Eu respeito qualquer forma de olhar para a gestação e o nascimento, até partindo daqueles que pretendem artificializá-los ad infinitum. Entretanto, se existe algo da essência humana que vale a pena manter, creio que esta chama tímida se esconde no nascimento. Toda a história de nossa espécie foi escrita pela ligação entre uma mãe e seu filhos. Max adora repetir o adágio freudiano de que “Se o amor existe, ele é o amor de uma mãe por seu filho, e todas as outras formas de amor são dele derivadas“. Portanto, esse amor – que é fruto da extremada dependência do filhote humano ao nascer – esculpiu o que somos. Somos filhos dessa fissura cósmica, o inexplicável, o não planejado. Somos o que somos por causa do amor, e ele apenas pode nos definir. E se isso é verdade, qualquer mudança nas delicadas tessituras deste envolvimento primitivo poderá ter consequências funestas para todos nós. Talvez, num futuro distante, teremos a triste nostalgia do tempo em que uma mulher podia sentir alegria, contentamento e plenitude na sua gravidez, mesmo rodeada de pequenos desconfortos passageiros.

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