Poderes

Humanis Corporis

Queria desenvolver mais o tema da fixação dos obstetras brasileiros de fazer seminários em que dedicam algumas horas para combater – das formas tradicionais – o parto domiciliar. Via de regra escolhem-se profissionais que apresentam os conhecidos trabalhos que confirmam o que se pretende acreditar. Falam exaustivamente dos riscos, dos problemas, dos transportes, das cidades grandes. Mostram a Inglaterra como um país completamente diferente, assim como a Holanda, e explicam que os partos domiciliares de lá podem ser estimulados pelos respectivos governos porque…. bem, eles são ingleses e holandeses, não é?

Mas o que mais chama a atenção é que os riscos, se existirem, são muito pequenos, o que os transformaria em riscos normais da vida humana. Jogar futebol na escola é muito mais arriscado do que jogar xadrez, mas nem por isso se proíbem jogos no colégio por existir uma alternativa mais segura. Há que se considerar riscos relativos e riscos absolutos, o que frequentemente não se faz, por interesse. Todavia, qualquer pessoa percebe a existência de VALOR nos jogos de futebol, o que faz com que os riscos sejam absorvidos como parte da vida, do preço que se paga por existir. O mesmo raciocínio se usa para viagens de avião e automóvel; o segundo não é proibido por ser o primeiro mais seguro. Porém, muitos se negam a perceber qualquer valor associado ao rito de passagem atravessado pelas mulheres chamado “parto”, e tentam de todas as formas desconsiderá-lo.

Partos extra-hospitalares no Brasil não chegam a 3% do total de nascimentos, mas os partos “urbanos” domiciliares e planejados, em mulheres de classe média, não chegam a 1%. A quantidade de mulheres que optam por um modelo domiciliar é desprezível diante do modelo hospitalar. Por isso cabe a pergunta: porque tanta preocupação? Porque se ocupar destas mulheres, normalmente MUITO informadas, e que optam por ter filhos em suas casas?

Minha tese é que o parto domiciliar, mais ainda do que o parto realizado em Casas de Parto, incomoda pelos seus significados invisíveis. Como dizia a professora Robbie Davis-Floyd no seu livro Birth as an American Rite of Passage a obstetrícia contemporânea se estabelece sobre a crença da defectividade essencial da mulher. Este é seu marco teórico mais importante, e menos percebido. No paradigma tecnocrático os sujeitos são máquinas, coisificados pelo modelo cartesiano, De Corporis Humani Machina. Já no que tange às mulheres, elas são dotadas pelo Criador de uma máquina defeituosa em essência, cuja fabricação é equivocada e sujeita a erros, que podem ser consertadas pela razão humana personificada na figura masculina do médico. Mulheres são seres passíveis de falhas, e cabe aos profissionais a tarefa de resgatá-las das garras cruéis de uma natureza madrasta.

O parto domiciliar é o avesso dessa crença. Muito mais além das teses da humanização do nascimento, o que sustenta o parto domiciliar planejado – com sua tecnologia simplificada (mas eficiente, como provam os estudos) – é a postura contrária (muito mais do que discordante) à visão corrente da defectividade feminina. Desconsiderando a visão médica tradicional da “bomba relógio” prestes a explodir, as parteiras modernas (enfermeiras e obstetrizes) que acompanham partos domiciliares enxergam a mulher na plenitude de suas capacidades, e na excelência de seus corpos. Mulheres parindo são exemplos de “perfeição” da natureza, expondo a delicadeza do processo adaptativo da espécie aos desafios da altricialidade e da encefalização.

Essa atitude ofende o modelo médico. Mais do que preocupar-se com possíveis problemas para mães e bebês – o que seria uma atitude nobre da corporação – o parto, sem os aparatos e os profissionais que configuram o modelo hegemônico, desafia os poderes constituídos sobre a visão catastrofista do nascimento. Fosse o bem estar de mães e bebês a questão preponderante e estaríamos combatendo um problema MUITO mais óbvio, e sobre o qual já não recai nenhuma dúvida: a epidemia de cesarianas. Nenhum médico sério questiona a mortalidade e a morbidade aumentadas com o avanço das cesarianas no mundo todo, mas as lideranças da corporação quase nada dizem ou fazem para estancar a hemorragia de cirurgias obstétricas. E por quê?

Ora, porque as cesarianas estão alinhadas com o modelo ideológico que coordena o nascimento. Elas se adaptam como uma luva à ideologia predominante de corpos mal feitos, gestações problemáticas, ciclos vitais fisiológicos tratados como patologia e o uso salvador das técnicas, hospitais e recursos de toda a ordem para “salvar” mulheres condenadas pela sua própria condição de “ser mulher”.

Os partos domiciliares ameaçam a estrutura de poderes; cesarianas em desvario não. Pelo contrário: quanto maior o número de nascimentos cirúrgicos maior será a artificialização do nascimento e mais importantes serão aqueles que o controlam. Por esta razão é que se dedica um tempo anormal para combater um modelo de assistência que está LONGE de colocar pessoas em risco, mas que ameaça poderes instituídos e hierarquias sociais estabelecidas.

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