Memória

 

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Tenho uma memória condizente com a minha idade. Isto é: uma porcaria. Nomes de ruas, atores de Hollywood, nomes de antigas pacientes e seus filhos e títulos de filmes me fogem à lembrança com muita frequência. Por sorte eu pergunto algumas coisas pra Zeza, o que ajuda um pouco. Não que ela tenha uma boa memória, mas os “black spots” dela são diferentes dos meus. No “conjunto” nós dois juntos temos uma boa memória.

Eu gostaria de ter a memória prodigiosa do meu irmão Roger sobre jogos do Grêmio nos campeonatos gaúchos dos anos 80, ou a memória da minha filha Bebel para qualquer coisa, porém não tenho estes dons. Entretanto, minha memória é seletiva e peculiar.

Tenho uma memória visual muito boa, e eu mesmo me surpreendo com ela. Há alguns dias repeti com surpresa um desses momentos. Estava no shopping, na “praça de alimentação” (nome pomposo para refeitório ou comedouro) quando, distante uns 15 metros de onde eu estava, um senhor careca se ergueu da cadeira e encaminhou-se para pegar sua bandeja. Esteve o tempo todo de costas para mim. Nesse instante, vendo-o caminhar, um sinal acendeu em minha memória.

– Esse cara estudou comigo na escola.

– É médico? perguntou Zeza.

– Não, respondi, ele estudou comigo no segundo grau, e eu não o vejo há mais de 40 anos.

Quando voltou com sua bandeja pude ver seu rosto, mas esta imagem apenas confirmou minha impressão inicial. Eu o reconheci pelo jeito de caminhar, a forma como esconde a cabeça entre os ombros, como encolhe os braços a cada passo e como gira a cabeça sem que o corpo acompanhe. E vejam… ele é calvo agora, mas na época da escola ostentava uma longa cabeleira.

A memória me parece composta de fragmentos que apenas fazem sentido quando justapostos. As coordenadas físicas do meu colega, quando colocadas lado a lado, levaram a um ponto único e especial no mapa da minha memória. Quando o ponto foi descoberto girou a chave do reconhecimento. E isso sem que fosse necessário ver seu rosto!

Passei o almoço pensando nas peculiaridades da memória porque antes de chegar à cafeteria quase esbarrei em um bela menina de sorriso meigo que foi uma paquera de escola quando tínhamos 15 anos. A mesma simpatia e timidez cativantes, o mesmo rosto redondo com covinhas. Eu a reconheci pelo sorriso e o jeito de olhar, baixando o queixo e olhando de forma reservada, de baixo para cima. A única dificuldade, e o que efetivamente me impediu de cumprimentá-la, foi que ela tem realmente15 anos, e eu inequivocamente envelheci. A imagem que vi era apenas uma projeção paralisada há 40 anos. Será que ela congelou seu corpo nas últimas 4 décadas e acabou de ser desperta do seu sono criogênico? Será a menina que vi o clone que fez de si mesma?

Nunca saberei. Ela passou e apenas a lembrança permaneceu. Queria perguntar a ela como a vida vida a tratou, que plantas semeou, que amores, filhos, ideias e sonhos colheu. O que fez ela com a vida que ganhou?

O nome? Não lembro. Tenho uma memória péssima.

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