O Fantasma do Café

Subway Spirit

Fui limpar o coletor lotado de cápsulas vazias da minha cafeteira Nespresso (sim, sou chique) e quando derrubei o conteúdo do coletor sobre a pia apareceu um líquido preto, uma espécie de “concentrado de café” que havia no fundo. Sem demora peguei um pano para limpar a sujeira quando apareceu um espírito, uma espécie de elfo com a face um pouco esverdeada, que com olhos suplicantes me pediu: “Por favor, deixe mais um pouco sobre a pia. Quero sentir esse aroma. Eu preciso, por favor.”

Claro que eu não podia fazer outra coisa a não ser autorizar. Não haveria razão para impedir que alguém, mesmo um elfo com a cara esverdeada, pudesse simplesmente cheirar o café concentrado e líquido alojado no fundo da cafeteira que agora manchava minha pia de inox. De imediato lembrei que aquele tom de verde de sua face eu havia visto há muitos anos no filme “Ghost”, onde um viciado em cigarros procurava fumantes no metrô de Nova York para absorver a fumaça que expeliam. Sim, eram da mesma legião, mas com adições diferentes. Dei um passo atrás e fiquei observando sua reação. Nos poucos minutos em que esteve ao meu lado permaneci com o pano na mão e o olhar fixo em sua busca pelas gotas dispersas sobre o balcão. Olhava para cada uma delas com a avidez de um faminto, observando as formas, cores, tonalidades e tamanhos. Parecia não se importar com a minha presença, ou com a minha pressa em limpar a sujeira restante. Tive ímpetos de apressá-lo, ou mesmo falar que tenho mais coisas para fazer e não posso deixar a pia suja. Todavia, pensei que a simples menção da palavra “suja” poderia ofendê-lo. Temi uma reação exagerada por parte do elfo, como se estivesse ofendendo a “pátria-mãe”, ou algum outro símbolo importante em sua “vida”, se é que se pode falar dessa maneira para alguém que obviamente já morreu. Como poderia ser considerado sujeira algo que ele procurava com tamanha vontade? Seus olhos esbugalhados rastreavam cada centímetro da pia, como um cão farejador, olhando com atenção as formas inusitadas que as gotas enegrecidas faziam em contato com o aço.

Restava-me a opção do pigarro, secularmente usada para manifestar uma contrariedade. “Ahamm”, disse eu timidamente, e foi quando ele se voltou para mim e, como desperto de um longo devaneio, abriu seus olhos com gigantescas aréolas vermelhas ao redor e disse:

Ora, desculpe. Eu me perdi. Boa safra aqui. Ristretto em sua maioria. Talvez 60%, mas pude perceber Arpeggio e Livanto. Porém nesta gota aqui – apontou uma pequena no canto, perto do pé da cafeteira – pude notar traços inconfundíveis de Cosi. Há mulheres na casa, por certo?

Respondi afirmativamente com a cabeça, e ia explicar, mas fui interrompido

Não, senhor, não é necessário se desculpar. Você não é o único. Cafés de baixo teor de cafeína são encontrados até em casas de cafeólatras famosos. Não há como ter um controle tão rígido do que existe em sua casa. Como saber se seu filho apareceu, trouxe uma amiga, ela não gosta de café forte, e uma coisa leva a outra e aparecem rastros de Cosi e Volluto. Não há razão para se envergonhar.

– Pois é, me desculpe. A gente tenta educar os filhos, mas essas coisas eles aprendem na rua. Olha eu queria me desculpar. Se quiser posso passar um agora e…

O elfo deu uma risada histriônica que parou subitamente, voltando à sua face anterior de tristeza desesperançosa.

Não bebo mais café, sinto muito. Meu corpo diáfano e minha capa perispiritual são capazes de absorver apenas porções minúsculas de aromas e eflúvios do vício de outrora. Não queria lhe assustar, apenas percebo quando alguém está derrubando um coletor de Nespresso mesmo quando estou longe. Estava, na verdade, na casa ao lado, quando o tilintar das cápsulas me trouxe até aqui.

– Bem, disse eu, se quiser posso lhe avisar da próxima vez. Sabe como é, isso aqui vai fora mesmo então…

Então… ele havia desaparecido. Da mesma forma sorrateira que veio se foi. Não deixou rastro. Queria saber mais sobre ele e sobre suas adições. Sei de algumas amigas minhas que certamente estarão no mesmo caminho, e gostaria que ele estivesse por perto para recebê-las quando chegassem no plano espiritual. Um mundo sem café deve ser triste e sombrio, porém um mundo em que a única alegria é o “pó negro das estrelas” também deve ser complexo.

Olhei para a formação de pingos escuros à minha frente mais uma vez e deixei o pano de lado. Acho que a pia pode ficar mais um tempo manchada. Talvez apareça outro elfo que precise dessas preciosas gotinhas.

 

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