Violência e Catarse

Rhonde x Bethe


Só eu que acho absurdo do ponto de vista estético, psicológico e cultural as lutas de MMA, em especial o espetáculo grotesco (é o meu ponto de vista) das batalhas entre mulheres? Só eu me escandalizo com a publicidade exagerada sobre algo que aos meus olhos não passa de selvageria – exatamente aquilo de que o processo civilizatório tentou se afastar nos últimos 10 mil anos? Só eu acho que as lutadoras parecem homenzinhos castrados, imitando cara, bocas e trejeitos dos seus ídolos másculos?

Existe uma pergunta: por que as mulheres também querem bater e exercer essa violência explícita, assim como os homens sempre fizeram – em razão dos seus papeis sociais milenarmente construidos – durante a construção de nossa civilização? Esse fato é um processo de “liquefação dos limites de gênero” ou um sintoma de desajuste, se entendermos a violência explícita como uma incapacidade de encontrar formas sublimadas de exercê-la?

Eu sei que as mulheres podem fazer tudo, elas tem o direito de fazer o que bem desejam, até imitar os homens em suas violências atávicas. As mulheres agora se identificam com essas lutadoras da mesma forma como os homens se identificam com os ícones testosterônicos de Rambo e Schwarzenegger? Ou são os homens que adoram ver a carnificina entre as mulheres, num duplo curioso com a pornografia? Não se trata de condenar as pessoas que se aproveitam de uma brecha na cultura para fazer valer suas aptidões. Não desejo impor limites às mulheres no sentido de “isso elas não podem por serem delicadas”. Não, não é isso. Quero apenas problematizar e expor minha dúvida. Minha pergunta é se a popularidade do MMA – e em especial as lutas de mulheres – não é o sinalizador de um desequilíbrio, uma doença social.

Seriam estas demonstrações os estertores da sociedade individualista? Ou estaremos valorizando a violência explícita por desprezar algo que a civilização tão penosamente construiu nos últimos milênios?

Futebol pode ser violento, mas não é seu objetivo machucar ou colocar a nocaute. Futebol é balé. Futebol é “quinta dimensão”, é pensar em conjunto, equipe. Mas eu não consigo ver MMA nem de homens. Acho estúpido e selvagem. Sinto uma angústia estranha vendo lutas, uma espécie de identificação atávica. Mas de mulheres acho apenas triste e grotesco. Mas, verdade seja dita, não sinto o mesmo com judô. Este parece civilizado. A arte de Gigoro Kano tem uma filosofia pacifista em sua origem: a neve nos galhos das árvores, a resiliência e o uso da violência do oponente para neutralizá-lo. Sobre chacoalhar os papéis sociais de homens e mulheres pode ser um bom resultado, mas não é o objetivo, assim como queimar Londres num incêndio (ou Barcelona) teve um resultado bom para a estética da cidade, mas não foram feitos para isso. E sobre as “divas” não faço julgamento de mérito, apenas estendi a pergunta: porque as mulheres de hoje são diferentes na sua estética? O que houve com elas e conosco? É uma pergunta, e não uma posição pois, como eu disse, a minha opinião sobre Marilyn ou Rondha é completamente desimportante.

Minha crítica é com a condescendência que desenvolvemos com a violência explícita do UFC. Não é para vencer com a imobilização ou o golpe: é para destruir o outro, partir sua perna ao meio, dar uma joelhada na cara. No MMA o objetivo é produzir o MÁXIMO de dano. Bater o quanto der. Machucar em lugares específicos, que causam mais dor e mais lesão (cerebral, por exemplo). O “estudo” e as “técnicas” são para otimizar o dano ao adversário, jamais para protegê-lo.

Esses lutadores, que nos “divertem” como galos de rinha, encurtam suas vidas e detonam sua saúde. Fazem lesões cerebrais pelos traumatismos repetitivos por anos a fio. Muhammad Ali é um triste exemplo disso ao desenvolver Parkinson muito cedo em sua vida. Vale a pena mesmo tanto sangue?

As lutas sempre foram privilégio dos homens, algo cultivado e venerado pelo universo masculino, em todas as culturas. No mundo primitivo não faria sentido algum as mulheres se engalfinharem com outras(os) e arriscar suas vidas e gestações. Aos homens coube o peso da guerra, e toda a cultura da violência que ela acarretou.

As mulheres podem fazer o que bem desejam, mas por que seria vedado aos homens perguntar as razões? Os papéis masculinos e femininos EXISTEM, e isso é um fato, quer se queira ou não, basta andar na rua para ver que eles existem. Quando se fala em papéis femininos não significa que se deseje que isso seja fixo pela “essência” dos gêneros, mas apenas que se reconheça que a civilização assim os estabeleceu. Eles são mutantes e instáveis, e não mudam com a mesma velocidade em todos os lugares, mas papéis são naturais na estrutura social. Talvez estes papeis que temos na atualidade sejam ruins, mas cabe somente a nós trocá-los. Minha pergunta – mais uma vez – é se fazer as mulheres brigarem entre si como espetáculo é um avanço social ou o sintoma de uma doença…

Entendo o sentido da catarse e, mais do que isso, concordo com essa ideia, mas pergunto se a mudança radical do papel feminino na sociedade a partir dos últimos 40-50 anos – diminuição no número de filhos e entrada triunfal no mercado de trabalho formal – não tenha propiciado a elas as mesmas angústias historicamente destinadas aos homens e, como consequência, a mesma necessidade do lenitivo por eles usado: a catarse coletiva através da violência explícita.

Hoje em dia a violência obstétrica existe de igual forma entre homens e mulheres, os comentários sádicos nas notícias da Internet também. Pena de morte aparece de forma igual ou muito parecida no imaginário de ambos os gêneros. As mulheres se brutalizaram?

Meu medo é que essa mudança retire das mulheres uma característica admirável do universo feminino: a candura e a suavidade. Quando mulheres admiram a violência e a força elas podem deixar de lado a delicadeza. Eu disse “podem”, e não que elas “devem”. E não estou falando das atletas, cuja vida ignoro por completo, mas de quem as venera. Acho que, seguindo o pensamento freudiano, as atletas, o esporte e os ícones (como Rhonda), são a consequência de uma mudança estrutural na sociedade através de uma alteração dos papéis. Elas as lutadoras, são apenas o resultado da transformação do campo simbólico. Os gladiadores foram criados para dar conta de uma necessidade dos homens e, ao que parece, agora também das mulheres.

Não tenho coragem de fazer um julgamento de mérito sobre esse fato. Não sei se isso é bom ou ruim para a civilização, mas creio que ver mulheres tentando destruir a cara uma da outra é chocante e – para mim – preocupante.

Sobre a estética masculinizada das atletas isso é um fato, não uma opinião. Se isso é bom ou mau, bonito ou feio… aí é apenas opinião pessoal e a minha consideração sobre isso só vale para mim. Mas não é essa a questão. O que eu pergunto é a razão disso. Alguém falou que essa americana é “a mulher mais linda do mundo”. Mas compare-se ela com as divas de 50 anos passados – Marilyn Monroe, por exemplo – e me expliquem o que houve com a imagem que cultivamos das mulheres.

Podemos concordar que houve um câmbio impressionante? A brutalidade era uma reserva de mercado masculina, mas agora ela também atinge as mulheres.

Acho que a melhor explicação está longe do “isso é um esporte com regras“. As regras foram sendo retiradas paulatinamente. Se você olha “de fora” percebe a semelhança com o boxe, mas sem os aparatos civilizatórios, como as luvas. As regras existem apenas para evitar as mortes, mas as concussões cerebrais, os desmaios e o os knock-outs são celebrados, quase da mesma forma como eram em Roma imperial.

Para mim MMA é catarse primitiva, mas parece que as mulheres começaram a necessitar deste artifício na modernidade. Mas se há tanta raiva para ser desviada através das lutas (como em Roma – panis et circenses) não existe uma pergunta que precisa ser feita?

Curiosamente, eu convivo com uma pessoa que deplora qualquer violência, mesmo verbal. Para ela qualquer expressão explícita de confronto é ruim, deletéria, desnecessária e aviltante ao sujeito. Ela se parece com um arquétipo de feminilidade, pois está longe de ser apática ou acomodada; apenas não acredita – como Gandhi – na solução de qualquer conflito por meio da agressão.

Feio e bonito são termos que não uso para isso, a não ser para falar de algo absolutamente desimportante: minha própria opinião. Já falamos acima das razões pelas quais criamos o “circo“: a catarse identificatória. Todavia, o que me atraiu em especial foi a novidade. As mulheres se envolveram nessa atividade em função – minha tese – de mudanças sociais e em especial os papéis femininos. Também o capitalismo e sua vertente individualista, mas esse seria um outro tema. Mas, antes que passe batido, “feio e bonito” não são conceitos que me atrevo a abordar. Prefiro entender que, seja horroroso ou sublime, houve uma mudança, e seria bom entender as razões.

Quebrar a cara das pessoas. Qual a ideologia – ou a filosofia – por trás desta “arte”?

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