Arquivo do mês: agosto 2015

Ressentimentos

Ressentimento

Eu acho que os ressentimentos direcionados a profissionais que atendem no espectro da humanização são naturais acomodações das placas tectônicas que sustentam a estrutura do parto. Ainda vemos muitas mulheres que depositam os resultados na mão de médicos, enfermeiras, parteiras e doulas. Tais profissionais são todos humanizados, e foram previamente mordidos pela vespa da humanização, mas totalmente impossibilitados de fazer algo que só à mulher compete: parir.

Empoderamento e Protagonismo são ações complexas, principalmente porque o “anjo da alienação” nos espreita a cada dobra de esquina. É sempre mais fácil colocar a culpa em quem está próximo de nós. Além disso, muitos profissionais aceitam essa posição de comando pois são vencidos pela própria vaidade. Quem aí já não curtiu ser tratado como “heroi” (ou heroína) no parto alheio?

Eu acho que esse tipo de atitude é compreensível, mesmo sem ser justificável. Ela ocorre em função da idealização dos profissionais. “Bah, estou sendo atendida pelo Dr Frotinha, ele é fodástico, o “Papa” da humanização, e agora tenho certeza que tudo vai dar certo”. Pacientes exaltam e veneram seus(suas) cuidadores(as), alçando-os(as) para níveis irreais. Já vi muitas injustiças assim no universo da humanização. Quando você afirma que o paciente estava errado ao criar uma expectativa não realista lhe acusam de “penalizar a vitima”. Mas essa consciência é fundamental.

Por isso eu creio que uma das tarefas mais essenciais do(a) parteiro(a) é a desinstituição. Sim, é importante que o cuidador rejeite a posição subjetiva em que é colocado pelo paciente. “Não, eu não sou seu Salvador; sou apenas o guia de uma jornada que é sua“. Para fazer isso é preciso despir-se da vaidade e da sedução do controle, que inevitavelmente atinge a todos.

Porém, se nossa função é permitir que o nascimento cumpra sua função de empoderamento, é primordial a tarefa de vitrificar-se, tornar-se invisível e permitir ao outro a necessária expansão.

Como exemplo, eu recebi o email de uma mãe que disse estar muito ressentida comigo por não tê-la acolhido suas dores em função do atendimento que recebeu de um colega da minha cidade. A crítica feita era ácida e acusatória. Quando li eu imediatamente saltei em defesa do meu colega, mas não no sentido de diminuir a dor de quem se sentiu agredida ou maltratada, mas por não aceitar “queimações” públicas contra quem não pode se defender. Ela não perdoou a minha “insensibilidade” diante da sua dor, mas ainda acho menos doloroso do que EU não conseguir me perdoar diante do linchamento público de um colega e amigo a quem muito admiro.

Enquanto os profissionais que assistem o parto ainda forem colocados na posição de controle absoluto do evento teremos o risco da idealização e do ressentimento.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Frio

sol

Poemaroto…

O sol inclemente
Castiga a careca
Do velho ranzinza
O céu de anil
Pergunta intrigado
Quedêlhe o frio?

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Masculino

Atlas

Nenhum homem jamais saberá o quanto sofre uma mulher, nem tampouco o que há de gozo em sê-lo. Também nenhuma mulher poderá entender o dilema masculino, sentido nos ovos, na dureza que vem ou que falta, na saliva que seca, na perna que fraqueja, nas costas nunca suficientes, na bala que cruza a rua e se choca ao peito, na guerra que escolhe os meninos, no filho que nunca viu e do qual nunca soube, do leão que naquele dia não matou, o olhar severo do pai, o avanço chamado abuso e a espera chamada covardia, o desejo tesão, o cansaço fraqueza, a vaidade crime, o medo fracasso.

E nenhuma víscera a crescer em seu corpo que lhe possa, por fim, garantir a masculinidade angustiosa, frágil e incerta.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Parto à Esquerda

bandeiravermelha3

 

As Esquerdas e a Humanização do Parto

Esta sempre me pareceu uma ótima discussão. Pelos relatos, artigos e filmes que tive conhecimento os modelos de parto nos países comunistas se baseavam em uma estrutura de autoridade, hierarquia rígida e cientificismo materialista muito fortes. Nesse contexto o afeto era algo pouco relevante, sendo considerado uma “fraqueza”. As rotinas obstétricas eram sustentadas com rigor e baseadas na otimização de pessoal e recursos, tal como em uma unidade militar. Os médicos eram os chefes supremos, com condutas e procedimentos inquestionáveis. Enfermeiras eram sargentões (muita piada se fez sobre as enfermeiras soviéticas no cinema). O modelo cubano tentou imitar ao máximo essas características.

Um parto domiciliar, que leva em consideração aspectos SUBJETIVOS da paciente, que deseja se livrar das rotinas despersonalizantes de uma maternidade, vai se posicionar na contramão do centralismo da medicina social comunista soviética. Qualquer coisa que lembre a valorização do subjetivo, do individual e de cunho pessoal será desmerecido nesse modelo.

Por isso é que o parto humanizado e domiciliar viceja nas democracias fortes e nos modelos mais liberais da Europa, como os países nórdicos e a Inglaterra. A Rússia e muitos países do leste convivem até hoje com modelos de parto muito violentos e grosseiros, onde ate a violência física contra as mulheres não é incomum. Ainda precisa haver um choque de humanização da assistência nesses locais.

No Brasil houve um movimento diferente e especial, pela conexão do parto humanizado com a contracultura hippie e – por sobre isso – uma luta dos setores mais progressistas da sociedade pela volta da democracia e o fim da ditadura. Esse caldo cultural propiciou a conexão dos humanistas (médicos, enfermeiras e outros) com as esquerdas.

Tal conexão provavelmente não ocorreu em muitos outros lugares, e nos Estados Unidos, por exemplo, tem um viés liberal e mais à direita. Em Cuba a atenção ao parto é hospitalocentrica e centrada no médico, e temas como parto domiciliar, casas de parto e parto por enfermeiras ainda estão longe de ser uma realidade.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Cabelo Natural

careca-pente-calvicie-original

 

Qual sua proposta para solucionar o dilema do “Cabelo Natural”?

Vou contar uma história que talvez possa nos oferecer uma elaboração útil até para outras questões…

Um determinado sujeito – genial – inventa um xampu milagroso que cura a calvície de forma incontestável. Um tratamento adequadamente testado, aprovado e comprovado. Entretanto, ele levou 40 anos pesquisando e quer receber pela sua dedicação e trabalho. Resolve colocar o xampu no mercado e percebe (é claro!) que faz um grande sucesso. Pelo seu esforço e dedicação incansáveis ele cobra caro pelo tratamento de renovação capilar, mas mesmo assim constata uma fila enorme de pessoas que se dispõe a pagar pela solução do seu problema.

Entretanto, surge um questão facilmente previsível. Muitas pessoas gostariam de vencer a calvície, porque foram por décadas maltratadas por ela, porém não tem dinheiro suficiente para o tratamento. É claro também que, fosse mais barato, o médico não teria tempo e nem sossego para atender todos os seus pacientes; o preço é uma forma de diminuir a demanda e respeitar a lei de oferta e procura. Todavia, o inventor – que é uma boa pessoa – ensina alguns colegas a fabricar o xampu e a fazer o adequado tratamento, que é difícil e demorado. Outros profissionais chegam, mas o problema se mantém: como levar a descoberta a todos?

Ele se esforça, através de publicações e demonstrações, para que o governo tome conhecimento de que descobriu a cura da calvície, mas o governo tem outras prioridades. Afinal ser careca não é tão ruim assim, não é verdade? Existem coisas mais importantes a tratar. A imensa maioria dos colegas deste profissional ganha um bom dinheiro vendendo perucas e poucos estão realmente interessados na descoberta revolucionária. Por outro lado, quem teve o cabelo de volta sente-se muito agradecido, e coloca relatos e vídeos na Internet, o que só faz aumentar o número de interessados. Os poucos especialistas que se dedicam à nova descoberta ganham bem pelo tratamento, mas muitos pacientes sem recursos continuam carecas, enquanto outros acham que peruca é legal, pois o importante “é ter algo cobrindo a cabeça“.

Com o tempo os especialistas que restauram o cabelo são alvo de perseguições e difamações pelos colegas, os mesmos que lucram com as perucas. São atacados, vilipendiados, difamados e maltratados. Entretanto, colecionam sucessos e ficam conhecidos. São os “cabelistas“, que se contrapõem aos “peruquistas“, pelos quais são odiados. A associação de profissionais convoca reuniões para mostrar que são as próprias pessoas que escolhem usar perucas, pois o tratamento natural para restaurar cabelo é demorado e impõe uma certa dedicação do paciente. Além disso, se apressam em mostrar como as perucas são modernas, tecnológicas, feitas com fios “quase naturais”, não tem risco algum e são lindas.

O Movimento do Cabelo Natural, apesar de todos os ataques e mentiras, ganha as ruas, a mídia, os clientes e seduz cada dia mais profissionais, cansados de vender perucas para sujeitos que poderiam ter seu próprio cabelo. Esses pacientes são a melhor propaganda do novo tratamento, pois melhoram sua auto estima e impõem um novo direcionamento para suas vidas. “Se eu posso ter meu cabelo de volta, agora posso vencer qualquer desafio“, dizem os orgulhosos pacientes.

Ainda assim pessoas são condicionadas a comprar perucas, pois os profissionais mais conservadores não querem se reciclar ou não desejam perder tanto tempo com um tratamento que as vezes pode até não funcionar. Preferem continuar vendendo perucas, um tratamento simples e rápido, mas com inúmeros efeitos colaterais. Eczemas, dermatites, infecções, retração do couro cabeludo e até morte (3,5 x mais comum do que no tratamento capilar) pela anafilaxia causada pelos produtos de fixação da peruca.

Como fazer para que todos os carecas, não só os que tem recursos, possam ter o direito assegurado a um cabelo natural e mais seguro? Como garantir liberdade de escolha para ter seus cabelos naturais, ou para ter uma peruca (para quem assim escolher)? Como forçar os “peruquistas” a utilizar o tratamento mais natural se muitos não querem, não sabem ou não se interessam?  Como lidar com o fato de que os intermediários pagam o mesmo pelo cabelo natural ou pela peruca, mas esta última se coloca em 30 minutos, enquanto um tratamento natural leva meses?

Mas… a culpa pela falta de profissionais para tratar os carecas menos abastados é dos poucos profissionais que se dedicam e se expõe oferecendo a terapia mais lógica, segura e racional? Ou é do sistema? Ou será dos pacientes, que não se mobilizaram para garantir o direito a um cabelo sedoso, abundante e natural pago pelo governo?

Qual sua proposta para a encruzilhada do cabelo natural?

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos