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Como estás?

Hei de estar na alvorada; quando for chamado lá eu hei de estar.

Assim cantavam os “Arautos de Rei”, conjunto gospel que eu ouvia em casa quando pequeno. Eles eram a versão dos “King’s Heralds” americanos e suas músicas formam o playlist da minha infância. Talvez por isso eu me lembre tanto das letras. Outra, ainda mais significativa, era assim:

Se a morte vier hoje te buscar, como estás (como estás) com teu Deus?

Não parei de pensar nessa pergunta durante meio século. Para mim sempre houve esta urgência. Se a morte vier me buscar hoje à tarde, o que terei a dizer nos portais celestiais?

Vejo Pedro em seu trono, balançando as chaves na minha frente. “O que você fez dessa oportunidade incrível de habitar um corpo, sentir suas dores, amar, sofrer, buscar, fugir, temer, gozar, mentir, chorar? O que deixa como semente? Uma palavra, uma idéia, filhos, livros, jardins?”

Se a morte vier hoje me buscar vou pedir desculpas por tudo que deixei de fazer por medo ou vaidade. Os beijos não dados, as palavras engolidas, a piada genial cujo timing passou, o abraço que não rolou. Tanta coisa deixada para trás por não me dar conta do tempo curto dessa aventura de vida.

Ahhhh… os bebês nascendo. Essa é a memória que ficará para sempre.

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Arquivado em Pensamentos

Notre Dame

“Em apenas dois dias 1 bilhão de euros foram arrecadados para consertar e reerguer uma igreja na França. Peço que imaginem o quanto isso ajudaria a minorar o desespero dos desabrigados no Haiti ou Moçambique em seus recentes desastres. Entretanto, a morte de negros miseráveis não afeta o coração destes ungidos. O êxtase da exaltacao artística é mais importante que a dor e a morte dos excluídos.

Notre Dame é um ícone da religião é do catolicismo francês, mas também do colonialismo cruel da Europa durante séculos. Talvez esse segundo ponto seja o que nos leva a preservá-la e reergue-la, mais do que os aspectos místicos e religiosos. Precisamos preservar os símbolos da dominação branca no mundo e a velocidade dos milionários brancos para recuperar esta obra nos mostra como somos ágeis quando nosso poder precisa ser reforçado.

E não se trata de contrapor uma coisa à outra. Arte é essencial, assim como a fé das pessoas precisa respeito. Todavia, morte, fome, frio e doenças são muito mais importantes e a escolha feita pelos bem nascidos serve para nos mostrar como funcionam as prioridades no capitalismo desumano e racista.”

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Arquivado em Pensamentos, Política

Nathalie

“Nathalie cruzou as mãos sobre os joelhos e manteve seus olhos baixos, fixados em um ponto abaixo do horizonte plúmbeo. Tinha-os tristes e as linhas que os circundam eram marcadas por nuvens densas a cobrir de sombras seu rosto.

– Nada pode preencher este vazio, Nick. Não há sequer palavras que possam ser ditas. Talvez aqui esteja mesmo o “encontro das pontas” que Denny falou. Se não é possível descrever em palavras a emoção fulgurante do nascimento, também a morte só pode ser descrita se for sentida na carne. Nada do que é dito faz sentido diante da ausência, do vão, do nada que nos recobre.

Nick, engoliu em seco e pensou que seu silêncio diria mais do que qualquer frase. Olhou os olhos secos de Nathalie e sentiu nos próprios braços, como uma cãibra, a dor da impotência. Queria acalentar sua amiga, mas não há abraço suficiente para um momento de dor como esse.

Nathalie continuou, depois de suspirar e girar os olhos pelo teto, sem poder fixá-los em nada.

– Sabe o que sinto, Nick? Uma sensação incrível de arrancamento. Como um membro arrancado sem aviso. O desejo de caminhar e perceber que faltam as pernas, ou de afagar quando se foram os braços.

– Mas… Nick balbuciou meias palavras, mas foi interrompido pela fala de Nathalie.

– O que me vem à mente é saber que o que eu mais gostava já não poderei fazer. Não tenho agora comigo as festas, as viagens, o nascimento dos nossos filhos e a chegada dos netos. Essas são luzes brilhantes que iluminaram nosso caminho e jamais as perderei da lembrança. Entretanto, o amor não se sustenta apenas por estes alicerces, mas pelos humildes tijolos que lhe dão forma. Em minha mente agora está um prato da comida que ele mais gostava, o barulho da chave no portão da casa, seus passos arrastados no pequeno hall, sua face cansada e o sorriso que ele colava no rosto quando sentia o cheiro da sua comida predileta.

– Entendo, murmurou Nick

– Que sentido há em viver quando aquele sorriso simples, por um encontro banal, se perde na poeira de uma história comum para sempre?

Nathalie deixou correr uma lágrima tímida enquanto o sol se recolhia e avisava ao relógio o fim de mais um ciclo.”

Jeremy S. Woolworth, “Bridge to Nowhere”, Ed Sargasso, pág 135

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A Força do Silêncio

Nikolai acordou quando uma lâmina de luz invadiu sorrateiramente a cela lambendo seu corpo encolhido. Abriu os olhos com sofreguidão, afastando as pálpebras e permitindo que o sol esquentasse sua cara amassada e pálida.  O brilho luminoso que tocava seus cabelos loiros e revoltos parecia produzir uma chama em sua cabeça. Resmungou um pouco e reclamou da hora. Não era fácil dormir durante a noite ao som dos gritos, os barulhos dos ratos, a conversa dos carcereiros e os sons variados da noite, os cães, os gatos, as corujas e os camburões que chegavam ao portão central trazendo novos hóspedes. Tudo isso fazia sua cela solitária ser invadida por milhões de pequenos pacotes de som, muitos deles misturados e sem distinção, enquanto alguns chegavam solitários e nítidos. A noite na prisão era cheia de vazios preenchidos por angústias e medo. Ergueu seu corpo esquálido e resolveu se refugiar do calor do sol, deu dois passos e colocou-se na face oposta da pequena cela, onde a sombra ainda cobria de penumbra a parede descascada. Ajustou suas costas nuas no vão entre a parede e um ressalto da viga e sentiu o vinco do concreto a lhe machucar as costelas. Apesar de passar horas durante o dia encostado naquela parede, nunca havia sentido o vinco do ressalto a lhe incomodar. Afastou-se por momentos da parede e olhou para o pequeno vão atrás de si para entender porque seu corpo parecia não caber mais naquele espaço.

Anos já se haviam passado desde que se pela primeira vez foi colocado na pequena cela solitária. Não havia engordado, por certo. Sua perda de peso já contava mais de 20 quilos desde que ali chegara. Como poderia então seu corpo subitamente não caber mais num espaço que sempre foi usado para fugir do sol impiedoso que lhe castigava nas manhãs de verão?

Olhou mais uma vez para o pequeno vão entre a viga e a parede branca. De súbito fechou os olhos, girou a cabeça em direção à porta enferrujada e suja da cela e, depois de alguns instantes puxando pela memória, tentou recordar as imagens que deveria estar vendo. Descreveu mentalmente a porta de ferro verde, a portinhola de baixo por onde lhe chegava o pão duro e a sopa de peixes, o grunhido que faz ao abrir, os sapatos dos carcereiros, o ar que entra quando ela eventualmente é aberta, o vaso sanitário imundo que está no canto contíguo e o sol colorindo com sua luz o chão poeirento.

Depois do exercício, abriu os olhos e se assustou com as imagens que viu sobrepostas à sua lembrança. Tudo em sua mente estava levemente diferente. Em pânico se ergue, empurra suas costas contra a parede e decide contar os passos até a porta da cela. Menos de quatro passos. Muito impreciso. Prefere, então, contar com os pés. Equilibra-se como um bailarino de corda bamba e coloca pé disforme e sujo depois do outro, cutucando seu calcanhar cascurrento com a unha do dedão. Contou catorze pés e mais 4 dedos da mão.

O sentimento era de assombro e pânico. Pensou por alguns instantes estar alucinando, mas resolveu olhar os rabiscos na porta de ferro, feitos com o cabo de seu garfo, nos primeiros dias em que ali havia chegado. Leu seu nome “Nikolai” arranhado na porta, com a letra trêmula que lhe sobrou após uma noite de espancamentos.

Não havia em sua mente mais nenhuma dúvida, e um frio gelado percorreu o estreito espaço de sua coluna. Aquela era a sua velha cela imunda, e ela estava encolhendo.

Nikolai Kuznetzov, “Сила молчания” (A Força do Silêncio), Ed Dubrov, pag 135.

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