Arquivo da tag: morte

Carta a Theo

Há poucas semanas você partiu ainda antes de chegar. Theo, filho de Lucas e Ariane, com 30 semanas de gestação. Como disse meu irmão Roger, “um bisneto que se foi antes do seu bisavô”. Sem explicações e sem avisos, apenas fechou seus olhinhos enquanto ainda aguardava em silêncio, imerso no mundo aquático, quentinho e róseo que o circundava.

De sua breve passagem, algumas descobertas. A primeira é de que o valor da vida está em sua fragilidade. Como pétala, quanto mais delicada mais rara sua beleza. Para além disso, o aprendizado de que a dor, por mais violenta e dilacerante, sempre carrega consigo várias lições . No seu caso Theo, você nos ensinou o valor da comunhão, do suporte, da família, da vida e do perdão. Também nos mostrou a importância da resiliência e da aceitação, assim como nos lembrou que juntos somos mais fortes e capazes de suportar mesmo as perdas mais dolorosas.

Theo, você seguiu seu caminho e à nós resta a saudade de tudo que não vivemos ao seu lado: as brincadeiras com seus irmãos, primos e amigos, a vida na Comuna, o amor dos seus pais e tios, os vovôs carecas e as avós doces e carinhosas. Todavia, sabemos que você está em algum lugar imaginando quando poderá voltar. Quiçá antes do que pensamos…

Vá Theo. Siga o seu caminho. Curta as nuvens, as estrelas e o céu azul. Brinque com os pássaros e a chuva. Estará para todo o sempre vivendo em nossos corações.

* Fotos da cerimônia de despedida com a família mais próxima na Comuna *

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Deuses

Ela entrou no consultório vividamente alterada. Sentou-se rapidamente na cadeira à frente da escrivaninha de granito e sentou-se com o corpo projetado à frente, como a se jogar contra mim. Colocou as mãos sobre a pedra fria e me olhou fundo nos olhos.

– Não vim consultar, doutor; estou aqui para conversar porque sei que o senhor se posiciona firmemente contra a violência obstétrica e acredita que os pacientes precisam ter voz. Venho pedir para que o senhor me ajude a condenar um colega seu que cometeu um crime. Ele matou meu sobrinho.

Dava para entender o clima pesado. Ela estava no último estágio da indignação. Sua dor era perceptível; seu ódio queimava a pele e se irradiava à distância. Respirei fundo. Pensei no quanto de angústia ela já havia vivido até sentar-se à minha frente. De certa forma eu era sua esperança de paz, uma forma de auxílio para carregar o pesado fardo do sofrimento.

– Quer me contar o que houve? disse eu, temendo abrir uma comporta que seria posteriormente incapaz de fechar.

Ela fez uma pausa e contou sua história.

– Meu sobrinho, morreu. Ele nasceu com uma malformação cardíaca. Foi diagnosticada apenas depois que nasceu porque não conseguia respirar direito, ainda na sala de parto do hospital. Ele nasceu roxo e assim continuou, doutor. Foi direto para a UTI onde ficou no oxigênio. No dia seguinte foi dado a nós o diagnóstico da malformação no seu coração. Ficamos totalmente arrasados. Morreu dois dias depois de nascer.

– Posso imaginar a dor de vocês, disse eu ingenuamente.

Ela me censurou com o olhar e disparou frases duras, como se essas palavras estivessem presas há tempo em seu peito.

– Vocês não sabem o que é isso, disse ela. Vocês não conseguem sentir o que nós sentimos. Essa dor passa longe da experiência de vocês. Sempre frios, assépticos, insensíveis e distantes. Não, doutor, vocês não conhecem a dimensão dessa dor, o vazio que fica, o amargo na boca e a escuridão que se interpõe entre o agora e o amanhã. Só estando desse lado da mesa é que é possível entender o quanto dói esta ferida.

Preferi ficar em silêncio pois a porta da empatia havia sido fechada. Mentalmente disse “entendo”, mas percebi que entender, compreender e colocar-se no lugar era para mim vedado. Ela exigia a exclusividade do lugar de sofrimento, impedindo que eu pudesse ao menos me aproximar dele. Só para ela havia o direito de sofrer.

Resolvi me acercar, com todo o cuidado, da motivação expressa do contato.

– E como quer que eu lhe ajude? Ainda não me disse onde houve o erro que conduziu seu sobrinho ao óbito.

Outra fuzilada no olhar.

– O médico do pré-natal, o Dr. Fulano – e faço questão de dizer seu nome com todas as letras, F-U-L-A-N-O – não pediu ao meu sobrinho uma ultrassonografia cardíaca durante o pré-natal. Se nós soubéssemos de antemão tudo poderia ter sido diferente. Foi negligente, impediu um diagnóstico a tempo. Por isso quero vê-lo pagar pelo crime que cometeu.

Ela tocou em um tema muito delicado, pelo menos para mim. O abuso de exames para a gestação sempre foi um assunto que me interessou desde os tempos da escola médica. Esse parecia ser um daqueles casos que, lidos ao contrário, poderiam nos dar a ilusão de que “algo poderia ser feito” para evitar a tragédia, bastando para isso que os médicos pudessem ler o futuro. Retrospectivamente tudo faz sentido e todos os pontos se ligam. Seria como internar todas as crianças com febre porque uma em um milhão poderia estar iniciando uma meningite. Não faz sentido fazer isso na vida real, mas quando se olha para trás sempre é possível perguntar: “mas por que não internaram na UTI quando iniciou a febre?”

– O que você acha que seria diferente se ele tivesse solicitado este exame? Em que ele poderia mudar o cenário? Veja, este bebê nasceu em um hospital plenamente equipado. Foi direto para a UTI neonatal. Esteve ao cuidado dos profissionais de lá e sucumbiu ao drama terrível de uma malformação no coração. O que poderia ter sido feito para evitar este desfecho, pela sua perspectiva?

Hoje, lembrando da cena, acredito que aqui esteve sempre o meu grave erro. Já era óbvio que sua indignação era sem objeto. Não havia dolo; não havia sequer culpa de nenhum profissional que atendeu aquela mãe e seu bebê. Entretanto, o caótico da vida é insuportável para quem sofre seus reveses. A pior dor é aquela que não pode ser colocada em uma linha clara de causalidades. Se uma criança – que carregava esperanças e idealizações de uma família – não sobrevive, então alguém deve ter falhado. Exercer o ódio arrefece a dor da nossa alma; apontar o culpado nos oferece alívio.“Ufa, afinal sabemos o que houve. Foi um erro médico”. A pior escuridão é quando nos falta a luz de uma resposta; como a procura por um filho que desapareceu aguardando por uma resposta – qualquer uma – que possa acalmar um coração imerso na dúvida mordaz e corrosiva.

Por outro lado, ser compreensivo, acalentar essa dor, acolher esse sofrimento e ficar em silêncio diante do seu relato, apenas atrasaria a necessária tomada de consciência sobre a verdade que ela se negava a encarar. Minha dúvida nunca será desfeita: qual o enfoque caberia utilizar, o “materno” ou o “paterno”?

Certa vez um colega foi duramente punido no hospital onde eu trabalhava. Muitas vezes escutei a sua história e quanto mais a ouvia mais era fácil perceber que não havia culpa alguma em seus atos. O diretor o puniu porque se sentia obrigado a dar algum tipo de satisfação à família enlutada. Para a família produziu um efeito calmante, mas para o meu colega – injustamente acusado – o resultado foi devastador. Ele me dizia que a pior punição era mental: “Sou prisioneiro dos meus pensamentos. Revivo a cena centenas, milhares de vezes por dia. Eu preciso me livrar dessa prisão e dessa tortura que parece não ter fim”.

Todavia, as minhas próprias dores diante das injustiças me impediram de guardar o devido silêncio, assim como a escuta respeitosa e calma. Respondi. Devolvi para ela a irracionalidade de suas palavras. Tentei responder com a razão uma demanda puramente irracional, fruto da dor, da mágoa e dos afetos destroçados. Um erro que carregarei para sempre comigo.

Depois de fazer a pergunta ela perdeu os limites da civilidade.

– Como você ousa perguntar isso? Não percebe a tolice de suas palavras? Todos os dias somos bombardeados por informações das maravilhas da medicina e da tecnologia, e negar isso aos pacientes é um crime inaceitável. Se houvesse esse diagnóstico antes do nascimento ela poderia ter sido operada até mesmo antes de nascer!! Ou você não sabe da existências dessas cirurgias?

Lembrei da foto do braço do feto pendurado para fora do útero aberto segurando o polegar do cirurgião, uma foto que correu o mundo mostrando a possibilidade de uma cirurgia fetal intrauterina. Provavelmente era esse tipo de intervenção que ela se referia, mas por certo que ela não tinha a menor ideia do que se tratava. Apenas juntou em sua mente a doença congênita e a possibilidade – mesmo que apenas teórica – de mudar o quadro através de uma operação heroica. Também ela era vítima de uma propaganda médica tecnológica fantasiosa e sem limites, como se um novo mundo se descortinasse à nossa frente pela via dos equipamentos maravilhosos que a criatividade humana produz. Diante de tantos avanços a morte de uma criança inocente só poderia ser o resultado da brutal negligência daqueles que controlam essas maquinas fantásticas e seus feitos extraordinários. Na minha frente apareceu Marsden Wagner me sussurrando: “Quem brinca de Deus acaba pagando pelos desastres naturais”.

– Não tenho como lhe ajudar. Entendo seu sofrimento, mas não acredito – pelo seu relato dos fatos – que tenha ocorrido qualquer falha dos profissionais que acompanharam seu sobrinho na sua breve passagem por aqui. Perdoe minha sinceridade, mas acredito que esse tipo de ação provocará ainda mais dor e, na pior das hipóteses, produzirá injustiças contra pessoas que fizeram o possível para ajudar essa criança.

Ela, finalmente, explodiu em ódio e indignação.

– Eu sabia!! Você é como todos os outros. Achei que poderia encontrar em você alguém diferente, que pudesse me ajudar nessa busca por justiça, mas não passa de mais um covarde. Vocês sempre se protegem e encobrem os erros uns dos outros. Não passam de carniceiros e mercenários, incapazes de entender e respeitar a vida dos pacientes. Acham-se deuses, infensos aos sentimentos de empatia e amor ao próximo. São cães, arrogantes e prepotentes!!

Desta vez fiquei em silêncio. Quando ela se levantou, também me ergui da cadeira.

– Vocês podem escapar de tudo, menos da justiça divina. No dia do julgamento seu silêncio será colocado na balança. Passar bem, doutor.

Eu a acompanhei até a porta. Na passagem pela secretária fiz um gesto com a mão para que ela ficasse tranquila, já que escutou os gritos que vieram da sala. A paciente saiu porta afora e nunca mais a vi.

Na volta para a minha sala pedi um café para a secretária e me sentei, ainda sentindo os músculos do corpo retesados. Por sorte haveria meia hora para me acalmar, já que a consulta fora abruptamente interrompida. Em minha mente eu apenas pensava. “Sim, muitos se acreditam deuses; entretanto, se acham mesmo que essa postura é arrogante e sem sentido, por que insistem tanto em nos colocar nessa posição?”

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Livro de Citações, Parto

Destino

Durante muitos anos pedi ajuda ao ecografista que trabalhava no mesmo prédio do meu consultório para casos complicados e urgentes. Ele era muito bom e tinha um especial talento para adivinhar o peso dos bebês. Tínhamos diferenças políticas absolutamente antagônicas, o que não me impedia de admirar a paixão que tinha por sua arte.

Diante da necessidade da minha nora fazer uma ecografia pedi que o procurasse, por confiar em seu talento. Ela ligou para lá, mas não conseguiu marcar a ultrassonografia com este colega pois me informou que ele faleceu há 3 anos.

Liguei para sua clínica e falei com sua esposa, atual coordenadora. Ela disse que foi traumatismo craniano, num acidente tolo de motocicleta, sua paixão.

Tinha a minha idade. Um bom colega e um excelente profissional.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Bolhas

Cena 1: Meu avô morreu aos 94 anos na casa do meu pai. Estava cansado e tinha problemas respiratórios crônicos. Morreu de gripe. Acordou pela manhã e avisou o meu pai que era seu último dia. Distribuiu seus pertences – entre verdadeiros e imaginários – para os filhos e netos. No meio da tarde, e com muita dificuldade respiratória, chamou meu pai e disse “Deu…”. Fechou os olhos, expirou pela última vez e foi encontrar minha avó no outro plano.

Até pouco antes de morrer mantinha o hábito de tomar whisky “on the rocks” todas as tardes. Um dia uma parente notou o copo servido ao seu lado e tentou retirá-lo discretamente. Quando viu, meu avô puxou o copo para si e disse “não mexa no meu scotch!!”, ao que ela falou “não faz bem para você tomar isso todos os dias”. Ele respondeu com aquela cara vermelha e mau humorada dos ingleses: “Tenho mais de 90 anos e vou partir em breve. Deixe-me ao menos morrer feliz”.

Cena 2: Trabalhei muitos anos com pacientes renais em uma clínica de diálise. Os pacientes tinham dietas severas, com ausência quase total de sal, o que torna a comida sem sabor algum. Havia entre eles um garoto de 20 anos que morava na periferia da minha cidade. Era dependente químico, tinha um bebê recém nascido e os rins destruídos. Sobrevivia pela hemodiálise que fazia duas vezes por semana. Mais de uma vez fui buscá-lo no banheiro onde se escondia para comer pó de K-Suco. Uma segunda-feira sua esposa ligou para a clínica dizendo que ele não viria fazer a diálise. Montou uma festa em casa no fim de semana onde bebeu, comeu de tudo e avisou que seria seu último dia de vida. Disse “não quero mais viver uma vida sem gosto”. Morreu no domingo à noite.

Cena 3: o Garoto da Bolha, filme com John Travolta e baseado em fatos reais. Ausência de funcionalidade do sistema imunológico, o que o obrigava a viver dentro de uma bolha. O filme inteiro é sobre a vida insuportável e solitária do garoto, preso em seu mundo de plástico. A cena final do filme é sua fuga da bolha e o contato com o mundo de verdade.

Essas histórias me vem à memória quando acusam de irresponsáveis (com razão) as pessoas que resolvem fazer festa, abraçar, beijar, transar, ir à praia e fazer compras. Talvez o pensamento simplista delas seja “de que vale a vida sem poder vivê-la de verdade?”.

Para mim é fácil apontar o dedo para essa gente, já que tenho os genes da fobia social e vou passar o resto da minha vida isolado e solitário, mas o que dizer das “pessoas das pessoas”, os extrovertidos, os amorosos, os carentes e os amantes? É justo acusá-los de exigirem o direito de viver uma vida feliz, ao lado de quem amam?

Sim, eu sei. A pandemia, o afastamento, o vírus, a segurança dos OUTROS e não apenas a sua, etc. Tudo isso é verdade é não há como discordar. Eu apenas acho errado condenar ao inferno as pessoas que se rebelam contra uma vida infeliz e encarcerada. Se podemos condenar as atitudes que negligenciam a epidemia também acho que é justo entender quem apenas sonha com uma vida miseravelmente normal.

1 comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos

A Lógica do Extermínio

Mas por que não eliminar os criminosos cujos crimes hediondos nos chocam diariamente?

Porque assassinado patrocinado pelo Estado é igualmente um crime bárbaro, além de ser inútil, pois matar abusadores não diminui o abuso, da mesma forma que proibir a bebida não extermina o alcoolismo.

Penas de morte servem apenas à vingança, e esta não se presta para construir uma sociedade melhor. Se a pena de morte produzisse algum efeito diminuiriam os crimes onde ela é aplicada no Brasil – na guerra de facções das grandes cidades. Não é o que se vê. Pelo contrário; mais execuções, mais ressentimento, mais mortes em um ciclo vicioso infinito de dor e destruição.

Não se elimina o mal com extermínio, mas com acolhimento, por mais difícil que isso possa parecer. Entretanto, é o único caminho que comprovadamente funciona.

Deixe um comentário

Arquivado em Violência