Pra não dizer que não falei de flores

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Doula NÃO é uma profissão, e talvez nunca seja. Uma profissão envolve regras, modelos, controle externo, conselhos de classe, punições, etc… Não sei se a “fraternidade instrumentalizada”, no dizer de Max, se adaptaria a este tipo de regramento. Seria possível a profissão de “amigo”? Poderíamos fazer cursos para que a amizade fosse mais sólida, mais honesta, consistente? Podemos regrar a compaixão e o carinho? “Olha, recomendamos massagens na região lombar até cinco minutos, em séries de no máximo cinco insistências. As evidências nos dizem que…”. Não acho que a subjetividade de um parto possa se adaptar a este tipo de protocolo.

Bem, se a doula não é uma profissão, ela é o quê?

Ao meu ver a doula é uma FUNÇÃO, que pode ser exercida por muitas pessoas e por várias profissões. A mãe pode ser, a irmã, a cunhada e até o marido. Todos os grandes estudos internacionais que atestam a importância e a qualidade da assistência prestada por doulas foram feitos com pessoas que exerciam essa função sem nenhum preparo prévio além da sua ligação afetiva com a gestante.

Ok, mas o marido pode ser doula? Sim, até o marido. Entretanto, mesmo sabendo que ele “pode” exercer a função de doula eu sempre digo que não é justo com ELE pedir para que tome conta dessa tarefa. E isso ocorre porque os maridos também estão diante de um processo transformativo difícil e penoso que é tornar-se pai. Existe para eles uma tensão muito grande, junto com medo, apreensão e angústia. Pedir a eles que exerçam essa função pode ser desgastante e complexo. Em outras palavras, os maridos também precisam ser “doulados“, em muitas circunstâncias.

Se a doula é uma função ela pode ser exercida por qualquer pessoa que tenha o desejo de ajudar e que tenha consciência dos LIMITES de sua atuação. Mas é claro que os LIMITES são as questões mais tensas no debate sobre as doulas.

Entender limites é olhar através de uma descrição do que a doula não é, a partir do que ela NÃO faz.

Uma doula não é uma profissional de saúde. Ela NÃO realiza nenhuma ação de enfermagem ou médica.

NÃO verifica pressão,
NÃO avalia apresentação ou dilatação do colo uterino,

NÃO verifica batimentos do bebê,
NÃO mede a barriga da paciente,
NÃO avalia bem estar materno ou fetal,
NÃO atende parto; atende gestantes em suas necessidades emocionais e físicas.

É claro também que uma médica obstetra, uma obstetriz ou uma enfermeira podem exercer o papel de doulas. Entretanto, se elas estiverem nessa função OUTRA PESSOA deverá estar ocupada com a assistência ao parto, sob pena de sobrecarregar a(o) profissional que presta o atendimento. Uma das características mais importantes das doulas é a possibilidade de que os profissionais se ocupem exclusivamente da atenção técnica do parto, deixando as ações de relaxamento, tranquilização, alimentação, movimentação etc.. com as doulas.

Para além das doulas nós temos os profissionais que são regulamentados para a atenção ao parto: médicos obstetras, médicos de família, enfermeiras e obstetrizes. São os “skilled attendants” que tanto exaltamos. As funções deles são razoavelmente claras: somente os médicos podem atender desvios da normalidade, as patologias e as cirurgias, e aos enfermeiros e obstetrizes cabe a atenção ao parto “eutócico”, sem anormalidades perceptíveis.

Doulas exercem uma função para a qual existem muitas técnicas no sentido de facilitar o bom posicionamento fetal, assim como acupressura, hidroterapia, massagem, ritmicidade etc, mas a excelência do seu trabalho está na transferência afetiva que ela pode oferecer às gestantes com a sua presença. Mesmo sem qualquer técnica ou qualidade especial a doula, ainda assim, terá uma grande ação para facilitar o trabalho de parto e o parto. As trocas emocionais que são produzidas pela presença da figura amorosa e carinhosa da doula são a chave para entender os resultados positivos da sua utilização. As técnicas, todas elas, vem como um valioso acréscimo.

Desta forma, não há porque confundir as ações das doulas com a de qualquer profissional da saúde na atenção ao parto. Doulas não fazem trabalho redundante e não tiram o lugar de ninguém. Elas vem se somar às equipes médicas e de enfermagem para que a paciente se sinta acolhida em TODAS as suas necessidades.

“Doulas são como flores de cactus brotando da aridez desértica da tecnocracia” (Max)

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