O que foi feito de R.?

viajante-solitario

 

O que foi feito de R.?

R. era meigo, afável e delicado. Não gostava de futebol. Não sabia o nome dos jogadores e não sabia dar um chute sequer numa bola. Era franzino e pálido. Tinha as mãos suaves, dedos finos, sorriso tímido. Seus cabelos negros eram sempre bem penteados. Não conversava muito conosco, e não acompanhava nossas brincadeiras bobas de garotos de 16 anos. Ele era reservado, mas dono de uma inteligência viva e ágil. Era culto, lia livros, falava em voz baixa e melodiosa, conhecia as ciências e as artes.

R. estava sempre rodeado pelas meninas, que gostavam de suas histórias. Seu sorriso era característico, e seus comentários espirituosos. Entretanto, nós não entendíamos a sua “fraqueza”. R. era frágil como uma borboleta. Seus passos eram leves, inaudíveis; ele levitava pelos corredores da escola sem que seu caminhar pudesse ser ouvido. Ele tinha um olhar triste, mas não sabíamos o que era. Havia um mistério, mas talvez o segredo que R. escondia era tão bem guardado que mesmo ele não tinha acesso.

O que houve com R.? O que aconteceu com o menino tímido, de caminhar contido e cabelos negros?

Hoje, passados 30 anos, eu sei do que R. sofria. Na época éramos todos cegos, e sua condição ficava invisível aos nossos olhos.

Desculpe, R., pela nossa profunda insensibilidade.

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