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A dor da diferença

Muitos heterossexuais julgam os homossexuais como sendo promíscuos, frágeis, egoístas (sexo sem prole) e incapazes de relacionamentos afetivos duradouros. Já muitos gays acham os heterossexuais covardes (já fui tratado assim), com vidas sexuais monótonas, chatos e sem graça. Conformistas e preconceituosos.

Tudo errado…

São todos preconceitos tolos. Nada existe na homossexualidade inerentemente promíscuo ou egoísta, e nada existe da heterossexualidade que leve o sujeito a ter uma sexualidade monótona. Em verdade, o fato é que as escolhas dos outros, quando divergem das nossas, são desafiadoras. Todavia, ao invés de aceitarmos como válidas as diferentes perspectivas que a vida oferece, nós as atacamos com a ilusão de diminuir nossa angústia por termos escolhido esse caminho – e não o outro.

Funciona como o ateu que se irrita com a fé alheia ou o ex fumante que não suporta ver alguém demonstrando publicamente tamanho prazer com o cigarro. Também aqueles que raivosamente publicam fotos de gente na praia durante a pandemia enquanto se refugiam nos seus apartamentos consumindo Doritos e Netflix. O prazer do outros nos causa angústia e dor.

O poliamor, por exemplo, agride meus sentimentos de exclusividade, mas quem disse que precisa ser assim? Talvez a posse dos corpos para os deleites do prazer seja obsoleto mesmo, e o futuro verá a monogamia com a mesma estranheza que hoje vemos o culto à virgindade ou o cinto de castidade.

De minha parte, melhor garantir o muito que tenho em uma só. Se já é difícil achar uma que suporte minha neurastenia, que dirá com muitas. Aliás, não conseguiria nem dormir, imaginando o complô para me exterminar.

(a partir de uma conversa com Deia Moessa Coelho)

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Moralismo espiritualista

Eu cresci em uma casa espírita e meu pai foi presidente de uma federação estadual até romper com o modelo religioso do espiritismo. Entretanto, DESDE SEMPRE percebi no espiritismo um viés conservador e moralista, em especial no que diz respeito às múltiplas manifestações da sexualidade.

Homossexualidade sempre foi tabu, e testemunhei o sofrimento de amigos gays discriminados em suas escolhas dentro de casas espíritas. Curiosamente, esse preconceito ocorre mesmo diante da notória ambiguidade sexual dos dois maiores ícones do espiritismo.

Liberdade sexual e – especialmente – sexualidade feminina eram vistos como assuntos proibidos, ou então filtrados por uma ótica cafona de exaltação da “castidade”. Nesse aspecto o espiritismo segue a mesma trilha de TODAS as seitas cristãs, do catolicismo aos evangélicos mais reacionários. No mesmo culto à “família tradicional” ocorre a indissociável hipocrisia corrente; como nas outras vertentes cristãs é presente o “fantasma do filho gay” que nunca é mencionado, a mesma vergonha da filha grávida solteira, as mesmas posições políticas contrárias às manifestações de trabalhadores, o mesmo “racismo caridoso” e a constante aversão aos movimentos populares de esquerda. “Espíritos aconselham o trabalho e a obediência às leis. Greves são causadas por obsessões”.

As religiões, TODAS ELAS, são movimentos conservadores de manutenção e suporte dos poderes estabelecidos. Eu me dei conta disso há 33 anos e abandonei as Casas Espíritas de caráter religioso, mantendo apenas para mim as crenças que até hoje me nutrem e consolam. As recentes manifestações lamentáveis – e carregadas do mais puro reacionarismo – de dirigentes e personalidades espíritas apenas confirmaram a imagem negativa que sempre tive do espiritismo como movimento social.

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Os limites da razão

Para os lacradores

Apesar de saudar o contraditório e as racionalidades explicitadas sobre a importância da liberação do aborto é fácil perceber que o aborto não será descriminalizado por uma súbita “lacração” de uma ativista. Não será através de um discurso, uma ideia, uma metáfora ou uma sacada genial. Não é assim que funciona em um mundo imerso no oceano das emoções e que mantém apenas o nariz de fora para, eventualmente, respirar o ar da razão.

Não foi preciso nenhum discurso que a homossexualidade foi descriminalizada – nos livros, ao menos – e nem por uma postagem brilhante, citando Freud ou Butler. Não foi por uma palestra maravilhosa na Academia que os livros pararam de exaltar a fórmula láctea. As ideias pavimentam o chão, mas são imóveis. Nossos pés é que produzem transformação e mudança.

Se a razão tivesse esse poder Lula estaria livre e a humanização do nascimento seria a regra em todos os hospitais. Não haveria violência de gênero e ninguém abusaria de drogas. Mas não somos governados pelo entendimento; somos presas de nossas emoções.

A solução passa necessariamente pela mobilização popular. É o que se fala de Lula, do aborto, da democracia e o que se tem como experiência sobre câmbios sociais profundos.

Nosso problema é de culinária: falta ainda “massa crítica“. Olhem para baixo, para o Chile e a Argentina, e entendam que essa é a única forma de avançar na questão do aborto.

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Outing

Na minha juventude o meu grupo de jovens espíritas era formado por um grande contingente de homossexuais. Todos estavam vivendo a gigantesca angústia da transição, do “outing“, do abandono do armário. A maioria não se reconhecia gay e achava que seus pensamentos eram influências espirituais maléficas e perturbadoras, vindas das profundezas do Umbral e os seus sentimentos homoafetivos eram perturbações kármicas. Todos, sem exceção, acreditavam que o espiritismo poderia funcionar como um “torniquete afetivo” capaz de impedir a hemorragia erótica que se anunciava para breve. Naquela época, fim dos anos 70, a homossexualidade ainda guardava nitidamente uma relação com mácula moral, fraqueza, obsessão e pecado. Talvez por isso muito de sua invisibilidade.

Até mesmo nós, amigos e companheiros, acreditávamos nessa fantasia, que nos garantia que a fé e a contenção poderiam funcionar para endireitar o comportamento errôneo e doentio. Seria como um “gays anônimos“. Pensávamos que a imersão num mundo de crenças místicas associadas à ideia da reencarnação poderia causar dois resultados: o fim das ideias obsessivas em relação ao mesmo sexo ou – no caso de falha – a contenção e a castidade. Afinal, se Chico e Divaldo podiam “sublimar” seus impulsos em nome da moral, do trabalho e das promessas realizadas antes do nascimento, por que haveriam eles de sucumbir?

Todos os meus amigos, gays espíritas da juventude, romperam com o movimento espírita com graus variáveis de violência logo após a saída da adolescência ou mesmo durante essa fase. Não foram poucos os que não aceitam falar no assunto. Muitos pediram acolhimento na Umbanda e alguns se tornaram agnósticos. Todos se sentiram oprimidos e pouco acolhidos nas hostes espíritas, e com boas razões. Eu mesmo testemunhei palestras catastróficas sobre o tema e senti na pele a ardência da rejeição quando falei publicamente de forma mais compreensiva e acolhedora sobre o tema. Em algumas vezes pensei, logo após uma palestra que praticamente criminalizava a homossexualidade: “se eu fosse gay só me restaria uma vida de culpa imobilizante ou o suicídio“.

Meus amigos precisaram abandonar o espiritismo mesmo mantendo suas crenças na reencarnação, mediunidade, na sobrevivência do espírito ou nas leis de causa e efeito, pois o convívio com o moralismo cristão espírita foi tóxico demais para suas vidas. É uma pena que tal barreira ainda permaneça no seio de uma filosofia que deveria ser progressista e comandar a mudança de compreensão sobre tais fenômenos.

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Principiante

Doutor

Primeiros dias de trabalho no primeiro emprego. Não tinha mais de 27 anos mas carregava uma cara de 20. Trabalhava nesta clínica privada durante a manhã, enquanto à tarde atendia no hospital da aeronáutica. A essas “clínicas de passagem” (“fico aqui até achar algo melhor”) chamávamos “trambiclínicas“. Estão em extinção nos dias de hoje, mas quando me formei havia muitas.

Abri a porta e chamei por um nome de menina. Ela entrou, acabrunhada e tímida. Talvez não imaginasse um doutor adolescente. Quem sabe tivesse medo de me dizer algo, ou escutar alguma coisa que não queria.

Falou de umas dores no seio e algumas outras questões menos importantes. Ela era bonita como são as meninas nessa idade, e seu sorriso era tímido e juvenil. Tinha 19 anos e era estudante. Morava com o pai, e mãe e uma irmã.

Antes de pedir exames, colher o papanicolau e escrever uma receita protocolar resolvi perguntar-lhe sobre sua vida. Talvez houvesse ali algo a dizer.

– Como é sua vida sexual?, perguntei, fingindo uma maturidade e isenção que somente a idade garante.

Ela me olhou sem pestanejar e respondeu “boa”.

– Algum problema com as relações?

– Nenhum, disse ela, parecendo querer abreviar a conversa. Comecei a ter relações há 4 anos e nunca tive problemas.

– Anticoncepcional?, insisti

– Não tomo anticoncepcional, doutor.

Meu semblante ficou severo. Sua resposta de alguma forma me irritou. Esse sentimento pude sentir muitas vezes na vida. Uma mulher que não cumpre nossas “ordens” não está apenas prejudicando sua saúde, está desafiando nosso poder. Aprendi isso de uma maneira brutal ao tentar entender a raiva – às vezes ódio – que os profissionais sentem ao ver pessoas que se recusam a fazer uma cirurgia, tomar uma droga, ou ir para um hospital para ter um filho. Tais recusas são tomadas como ofensas e desconsideração com a autoridade do profissional. Nossa resposta, que deveria ser de acolhimento e respeito pelas decisões soberanas de quem nos procura, em geral é estruturada como violência. Não é lícito aos pacientes desmerecem nosso saber.

– Camisinha? Diafragma? Coito interrompido? DIU? Tabelinha?

A todas estas me respondeu negativamente, sem piscar um olho.

Resolvi agir com a delicadeza de um viking à mesa do jantar após uma batalha.

– Filha (iniciei com a arrogância típica dos donos da verdade, médicos e bispos), você não acha que é muita irresponsabilidade da sua parte agir desta forma em relação à sua vida sexual? Tem 19 anos, estuda, vive com os pais, não tem emprego, não tem renda, tem relações há 4 anos e não usa nenhuma proteção contra uma gravidez indesejada. Você acha certo agir assim? Acha justo que uma gravidez arruíne a sua vida e entristeça sua família? Não lhe parece uma atitude sem juízo?

Ela ficou por alguns instantes me olhando sem nada dizer. Finalmente arqueou as sobrancelhas e me respondeu com uma expressão de desconforto:

– Doutor, eu só tenho relações com meninas.

Silêncio. Passados alguns instantes percebi cada centímetro da minha pele ruborizar. Na minha face o vermelho brilhante denunciava a falha, a incompetência e o preconceito. Tentei falar algo, mas a voz não saía. Queria dizer algo para dar a impressão que “tudo estava bem” e que eu achava “a coisa mais normal do mundo”. Afinal somos treinados para estas situações.

Mentira. Somos produzidos em série para interpretar exames e cuidar de um corpo falsamente biológico. Achamos o erro na molécula, o equívoco no hormônio, a fissura no osso mas na arte do enfrentamento com a crueza da palavra somos garotos que, diante de uma mulher de verdade, nada sabem dizer. Falta-nos a voz. Para saber como enfrentar o choque da fala do outro somente se conquistarmos a mais excelsa das virtudes de um medico: a idade, que por vezes nos brinda com a sabedoria.

O constrangimento havia me roubado a voz e a pose. Dos frangalhos de uma arrogância tola, filha da insegurança infinita que jamais me abandonou, consigo forças para uma última frase, que poderia abrir – ou não – as portas para um novo contato, certo que o anterior havia morrido em sua última fala. Depois de um breve suspiro, pergunto:

– Desculpe. Podemos começar tudo de novo?

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