Bruxas e bruxarias

 Bruxinha

 

Frase de um colega médico em um debate sobre a presença de doulas no hospital: “Quer dizer que doula agora virou curandeira? Para num passe de mágica sumir com a dor da gestante?

A resposta é: sim.

Quem já teve uma mãe (ou uma avó) que soprou seu joelho ralado numa partida de futebol sabe como isso pode ser verdade, até porque a “dor”, como a conhecemos, é muito mais do que simples emissões químicas eferentes em direção ao cérebro. A dor é um sentimento, é uma resposta global do sujeito dentro da formatação da linguagem. É por isso que o joelho para de doer depois do “sopro mágico” de uma pessoa querida, e pela mesma razão a proximidade afetiva das doulas faz com que as dores do parto adquiram SENTIDO, e como diriam os Terapeutas do Deserto, “a única dor insuportável é aquela que não tem sentido“.

As doulas, ao oferecerem esse significado às dores do nascer, estão conferindo uma visão especial a elas. Mais do que sinalizadores orgânicos importantes para – entre outras coisas – mudar a posição ou liberar endorfinas, a dor do parto produzirá uma marca importante e empoderadora para esta mulher. Como diria a antropóloga Barbara Katz Rothman, “partos não servem apenas para fazer crianças, mas para construir mulheres fortes e capazes para enfrentar os desafios da maternagem”. As dores do parto são como o cinzel a esculpir a mulher que surgirá, emergindo das profundezas de seus medos para ocupar o lugar que passará a ser dela.

As dores “insuportáveis” que obstaculizam o progresso do parto, a despeito de todo o suporte afetivo, emocional e psicológico oferecido (em especial pelas doulas) precisam ter o suporte da química através das anestesias, mas isso não significa que essa ação drogal deve ser nossa primeira escolha. Esses casos, pela sua raridade, precisam ser controlados com o que a tecnologia pode nos oferecer mas não faz sentido algum imaginar que um rito de passagem como o nascimento, que era levado a cabo com tranquilidade pelas nossas antepassadas, agora precise de recursos tecnológicos perigosos – como as drogas – para ser suportado com dignidade.

Será mesmo que as mulheres involuíram a ponto de que TODAS precisem de “muletas tecnológicas” em função da degenerescência de suas habilidades milenares de gestar e parir?

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Arquivado em Ativismo, Pensamentos

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