Estímulo ao Parto Normal

parto normal

Se as últimas iniciativas da ANS – entre elas o pagamento triplo para o parto em comparação à cesariana – efetivamente produzirem um incentivo ao parto normal, eu tenho algumas preocupações sobre o que acontecerá com a atenção ao parto na classe média, que é a mais afetada pela epidemia operatória na obstetrícia.

Pelo que percebo ainda existe muita falta de vontade e talento para atender partos normais. Partos são processos complexos, demorados, inesperados, com uma configuração absolutamente única e subjetiva, exatamente porque fazem parte da “vida sexual normal das mulheres”, como nos alertava o mestre Odent. Por esta razão não existirão jamais duas mulheres que vão amar, gozar, sorrir, chorar ou parir da mesma maneira.

Assim sendo, sem estabelecer uma leitura absolutamente SUBJETIVA de cada nascimento, como perceber seus ritmos e sua fluidez única? Como olhar para cada mulher como a primeira e última a parir naquele tempo, espaço e formato sem entender a singularidade do momento?

Parto é algo que acontece entre as orelhas“, como diziam as velhas parteiras. A atenção que damos a ele precisa de uma combinação complexa de elementos sutis como conhecimento técnico-científico, atenção, paciência, sensibilidade, disponibilidade e uma inabalável fé nas habilidades femininas de gestar e parir. Como diria Max, é fundamental “acreditar que elas podem”.

Por reconhecer as complexidades e dificuldades da atenção ao parto tenho receio das iniciativas que apenas oferecem incentivos econômicos aos profissionais. Não há como se contentar apenas com este aspecto financeiro.

Tenho medo de testemunhar a multiplicação de ocitocina sendo aplicada, o anacronismo da posição de litotomia, o uso inadequado de fórceps, de Kristeller e episiotomias gigantescas. Sem uma importante redefinição do que seja “parto normal”, e sua aproximação com nosso conceito de “Parto Humanizado”, poderemos ter muitos problemas com assistências equivocadas sendo realizadas.

“Uma cesariana é como pintar uma parede; um parto é como pintar um quadro”, dizia Max. No primeiro precisamos pincéis, boa técnica e a repetição quase enfadonha de camadas de tinta sobrepostas, assim como na cesariana se repetem as camadas de tecido a recobrir o amnionauta na escuridão do claustro materno. No segundo, para além das tintas e pincéis, precisamos jogar nosso sentimento, nosso tempo, dedicação e alma, e estes elementos não são facilmente ensinados. O parto se configura como uma amálgama de inúmeros outros talentos, que transformam sua execução em algo que se aproxima da manifestação artística.

Espero que as medidas da ANS sejam acompanhadas de um questionamento mais profundo quanto à formação de profissionais e a multiplicação de atores – como obstetrizes e doulas – a compor o novo cenário da assistência ao parto.

Avanços precisam ser comemorados, sem deixar de reconhecer que muito mais há por fazer.

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Arquivado em Ativismo, Parto

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