Pedido Primeiro

Pais

 

Muitas vezes avalio as pessoas que conheci e tento me perguntar sobre as vantagens e desvantagens que elas carregam na vida. Muitas têm dinheiro, outras são inteligentes e cultas. Algumas não têm qualquer atrativo físico, mas carregam virtudes que reconheço como brilhantes. Muitas delas estão contentes com o pouco que possuem, enquanto outras não conseguem se satisfazer com o muito que acumulam. Muitos amigos me falam de “cargo”, materiais, coisas que tem ou que aspiram, projetos que se emperram por falta de dinheiro, façanhas gigantescas produzidas pela riqueza, enquanto alguns outros exaltam detalhes em suas vidas que para mim seriam imperceptíveis.

Afinal o que existe de valor na existência que nos faz procurar durante toda uma vida? O que é que tanto buscamos?

Penso por vezes, no “chiaroscuro” de cada noite, nos momentos que antecedem o mergulho onírico de cada jornada, em qual seria o pedido único que faria antes de nascer. Se me fosse oferecida uma única qualidade, circunstância ou valor, um pedido que não pudesse ser negado, um elemento escolhido para deixar minha vida mais produtiva… o que eu apresentaria como pedido na antessala da vida, antes de chegar a este mundo e cursar uma existência inteira onde a angústia seria minha única, leal e indefectível companheira?

Não seria a beleza. Sei o quanto ela abre portas, facilita os encontros e os amores, deixa os contatos mais fluidos e fáceis. Entretanto, a beleza tanto atrai quanto aprisiona. As histórias de homens e mulheres extremamente belos não são relatos de felicidade obrigatória. Pelo contrário: quanto mais conhecemos a vida de estrelas de cinema, modelos esculturais de perfeição das formas, mais percebemos que sua formosura física jamais atuou como uma garantia de sucesso emocional ou psíquico. A biografia dos personagens da cultura que tiraram suas vidas precocemente, ou que tiveram vidas afetivas e amorosas pobres e doloridas, são evidentes demais para acreditar que a beleza possa nos oferecer qualquer garantia de felicidade.

Mas, e o dinheiro? Pode ele oferecer alegria? Pode ele nos trazer segurança e acesso aos prazeres que o mundo oferece? O dinheiro é capaz de comprar a felicidade, ou ele apenas oferece boas vestimentas a um sujeito que, diante da sua nudez, sofre como qualquer mortal? Assim como a beleza, a riqueza ofusca e ludibria, engana e distrai. Muitas relações estabelecidas com os ricos e belos só ocorrem pela luz fulgurante da atração que emana dessas qualidades. Todavia, por superficiais que são, elas atraem sujeitos que se embriagam de suas promessas, mas que não suportam a nudez que se evidencia quando surgem as rugas e desaparecem os encantos que o dinheiro oferece.

Então, se a riqueza e a beleza não são garantias, quem sabe a inteligência e a cultura seriam as qualidades que eu pediria antes da minha chegada. Por certo que uma vida cheia de saber poderia me abrir portas, mas que certeza poderia eu ter de que tal virtude me traria o nirvana que tanto ansiamos? Não, a inteligência apurada não pode me garantir uma vida feliz, e os exemplos de gênios consumidos por aflições e angústias terríveis aparecem em toda a história da humanidade. Nada no mundo intelectual me traz a segurança de uma vida plena e tranquila.

Se a beleza, a riqueza, a inteligência e a cultura são insuficientes, que poderia você pedir para lhe oferecer, senão a garantia, pelo menos uma trilha mais firme em busca de uma existência plena e feliz?

Depois de trabalhar por mais de 30 anos escutando as queixas, sofrimentos, dramas e angústias de tantos que me procuraram pela oportunidade de falar de suas dores, eu só penso em uma coisa cada vez que tais pensamentos me afligem. Ela não custa dinheiro algum, e sequer ocorre em pessoas dotadas de beleza ímpar ou com qualidades intelectuais além do comum. Ela se esconde no sorriso de pessoas comuns e nas lágrimas de todos aqueles que um dia puderam ter esse valor. Não aparenta ser muita coisa, de tão banal que se afigura, e as vezes nem aparece nas biografias de famosos. Mas hoje eu não tenho dúvida que, se me fosse dada a oportunidade de escolher um único pedido antes de descer para a Terra e empreender uma nova jornada, seria essa a minha solicitação.

Eu escolheria ter um pai e uma mãe. Somente isso. Meu pai não precisaria ser rico ou inteligente, e minha mãe não precisaria ser um ente cuja beleza infinita me inundasse o corpo físico com seus genes cheios de formosura e charme. Nenhum deles precisaria ter valores que se possam contar, onde a matemática precisasse ser utilizada para avaliar sua grandeza. Também não precisariam ser de sexos diferentes, e até tal desafio seria pequeno diante da vantagem de tê-los por perto.

Se eu tivesse, como tive, pais que me amassem pelo que sou, qualquer outra dificuldade que viesse a aparecer em minha vida seria encarada de uma forma completamente diferente do que seria se sua ausência fosse uma presença viva e sangrante em todas as minhas relações e experiências.

Sim, eu desejaria o amor primordial, a base para qualquer outro afeto, o imprint de carinho e cuidado que é o grande diferencial na vida de qualquer sujeito.

Ok, se for possível fazer outro pedido, pequenino, quase imperceptível, para acompanhar esse singelo desejo de ter ao meu lado pais que me amem como sou… se der para nascer de parto humanizado eu ficaria agradecido, tá bom?

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1 comentário

Arquivado em Pensamentos

Uma resposta para “Pedido Primeiro

  1. Margot

    Lindo e fundamental. …

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