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Beleza

Pois é… eu sempre penso que a beleza é um fardo muito pesado de carregar, tanto quanto o dinheiro e o poder. Pense nas mulheres lindas do cinema; raras foram as que foram felizes na sua vida pessoal. Muitas, como Marilyn Monroe, morreram muito cedo. Grace Kelly foi vítima de sua fantasia de princesa, tendo uma vida inteira de infelicidade ao lado de Rainier. Ava nunca se curou de Frank Sinatra, e Rita jamais superou Orson Welles. Guy Williams morreu aos 65 anos solitário em um hotel em Buenos Aires. Tanta gente cuja beleza jamais lhes garantiu o amor infinito que pareciam ter como certo.

Ao contrario da vida de sedução, charme e glamour que imaginamos, a regra para uma grande parte das beldades é o martírio, o abandono, a solidão, o desamor e a frustração.

Se me fosse dado escolher como transitar por esse mundo meu pedido seria simples: nem tão feio a ponto de ser repugnante, mas também não desejaria ser tão bonito a ponto de ofuscar qualquer outra virtude que pudesse ter ou desenvolver. Sim, minha opção seria um “não fede nem cheira” na estética, a mesma escolha que faria para a riqueza: nem tão pobre a ponto de passar necessidades, e nem rico a ponto de monetizar a vida e os afetos.

Creio ser mesmo verdade: para os lindos a atração é natural, mas para os feiosos é preciso esforço e dedicação, o que acaba produzindo um sujeito mais completo e integral. Acho charmoso alguém cujos defeitos e imperfeições lhe conferem autenticidade.

Ser lindo(a) e não se tornar arrogante e superficial é uma tarefa pesada demais, que poucos conseguem suportar. Deus, ao me brindar com está espetacular mediocridade, sabia bem o que estava fazendo.

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Perfeição

O cinema é um pouco responsável por esta visão idealizada das formas femininas. Ângulos, maquiagens, luz, filtros e agora o Photoshop nos dão essa ideia falsa das mulheres da tela. Lindas, perfeitas, eternamente jovens e sedutoras; deusas do sexo e da beleza. Nahhh, falso… mas ainda bem. A fotografia, me dizia Max, “é a arte das mentiras”, pois nos apresenta um fragmento de segundo e nos esconde todos os outros.

Cindy Crawford uma vez disse que adoraria ser “de verdade” como era representada nas propagandas. Ela não se reconhecia nas imagens de si mesma publicadas nas revistas femininas. Eu sabia; no fundo sempre foi tudo mentira, literalmente falso. É óbvio que Scarlett não é como aparenta; é claro também que chegando perto a gente enxerga a idade dos artistas. Quando se espantam com a longevidade da beleza cirúrgica de Cher eu sempre digo “deixe eu olhar pra ela às 7 da manhã, no trajeto entre a cama e o banheiro, que eu digo sua exata idade“.

A mentira não está no real, mas no caminho tortuoso que transita entre o objeto e nosso olhar, e de lá para a nossa mente. Todavia, não vejo sentido em reclamar dos pés de galinha, da barriguinha e dos “furinhos na bunda”. Aliás, o que torna Scarlett bonita, atraente ou “gostosa” é exatamente esta porção de imperfeição que podemos encontrar. Em verdade, talvez seja justo dizer que ela apenas se torna perfeita pelas suas imperfeições. Mais ainda: uma mulher sem imperfeições – onde seja possível pendurar nosso desejo – é um objeto estéril, insosso e inodoro. Serve apenas como uma fotografia em uma parede de borracharia.

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A mais bonita

Em verdade, apesar do natural estranhamento causado por esta afirmação, não existe momento mais pleno de sexualidade do que o parto. Lembro de Ferdinand Celine, médico e polêmico escritor francês, escrevendo “Querem sexualidade de verdade? Procurem no parto“. Quem não concorda, tudo bem.

Vi algumas mulheres defendendo maquiagem e tratamentos para o cabelo para o momento das fotos na maternidade. Não me meto nesses assuntos e acho que cada um faz como quer, mas me incomodou a justificativa: seria para que ela ficasse “mais bonita” quando fosse gravar o momento em imagens.

Acho isso muito estranho, e posso dizer que não há nada mais belo do que a imensa balbúrdia de suores, gemidos, cabelos desgrenhados, lábios inchados e olhos molhados que testemunhamos no momento em que um bebê nasce. Não discuto os diversos conceitos de beleza, que precisam de poses, ângulos, iluminação e acessórios, mas repito que esta beleza crua e selvagem desse momento é muito mais significativa na construção de nossa própria sexualidade.

Bonita para receber seu filho“? Acham mesmo que um bebê vai se importar com a tonalidade do batom? Ou os presentes vão levar isso em consideração? Eu creio que o belo da cena está na superação e na própria vida que se revigora. Claro, uma forma mais sutil de beleza.

Na perspectiva do ser que nasce, inseguro e incompleto, desalojado de sua casa de idílio absoluto, a fagulha de esperança que lhe acalenta é o brilho das duas estrelas que, ao se aproximarem de seu rosto, informam que a única alternativa é o amor. Estas estrelas são os olhos brilhantes e úmidos de sua mãe.

O resto é comércio.

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Morte prematura


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Cinquenta e poucos anos é muito cedo para morrer, e não creio que dá para usar a surrada desculpa de que “viveu 100 anos em 50”, porque essa vivência não inclui uma das fases mais criativas e interessantes da vida: a plena maturidade, o arrefecimento da sexualidade bruta, a velhice e o fim. Não abriria mão de assistir a desintegração do meu corpo e a sabedoria capaz de fluir das cinzas dessa queima. Não faz sentido uma vida em que só a infância e a juventude tenham espaço. Muito do que sei adquiri faz pouco, exatamente pela derivação proporcionada pela paulatina e insidiosa perda do vigor.

Se eu tivesse a oportunidade de escolher minha vida futura fugiria da beleza física, da riqueza e do talento desmedido. É muito difícil ver pessoas profundamente talentosas, belas e ricas felizes e gratas à vida; mais fácil é vê-las prisioneiras de suas virtudes e qualidades. Ter excelência em qualquer área – em especial na arte e no corpo – é um fardo pesado, muitas vezes difícil de carregar sem uma quantidade as vezes insuportável de sofrimento.

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Abertura das Olimpíadas Rio 2016

Delacroix

A abertura das Olimpíadas não foi feia, nem brega ou desonesta. Foi apenas perfeita e linda. Se usarmos este tipo de análise sombria e pessimista (“o povo com fome e nós festejando”, ou “nós sambando e eles tirando direitos”) nenhuma obra de arte poderia ser feita. Toda obra de arte mente; desavergonhadamente falseia a realidade, mostrando uma face e ocultando todas as outras – como uma foto de perfil de Facebook.

Fosse possível mostrar o “real” de um pais – uma pessoa, uma ideia, uma proposta – e a arte simplesmente desapareceria, pois que sua essência repousa exatamente nessa discrepância entre o que mostra e a completude da realidade circundante. A arte sempre nos arrebata pela sua limitada perspectiva, seu foco em um ponto determinado e sua mensagem particular sobre um específico olhar. A arte só pode ser analisada pelo que mostra, e não pelo que oculta. O que não há nela só pode ser analisado fora dela, pela sociologia, psicanálise e outras formas de conhecimento.

Se a abertura da Olimpíada mente sobre a realidade do Brasil também Guernica ou a Liberdade liderando o Povo, de Delacroix.

Não cabe à arte descrever o Real ou usar as tintas da Verdade. Minhas preferências pessoais não desmerecem ou exaltam nenhuma arte. Falam mais de mim do que da obra. A obra em si é um magneto de similitudes; busca avidamente encontra e um olhar que lhe ofereça sentido; uma sereia de canto estranho e singular em busca de um pirata solitário e saudoso. Respeito quem acha que a arte PRECISA ser politicamente engajada, mas discordo neste aspecto. Ela precisa provocar estranhamento e deslocamento, que pode – ou não – ser político. Se houver necessidade da arte servir a um objetivo político, então falamos de panfletarismo e não arte. A arte pode ser engajada, mas precisa acima de tudo ser livre para expressar a alma do sujeito que a cria.

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