Arquivo da tag: beleza

Perfeição

O cinema é um pouco responsável por esta visão idealizada das formas femininas. Ângulos, maquiagens, luz, filtros e agora o Photoshop nos dão essa ideia falsa das mulheres da tela. Lindas, perfeitas, eternamente jovens e sedutoras; deusas do sexo e da beleza. Nahhh, falso… mas ainda bem. A fotografia, me dizia Max, “é a arte das mentiras”, pois nos apresenta um fragmento de segundo e nos esconde todos os outros.

Cindy Crawford uma vez disse que adoraria ser “de verdade” como era representada nas propagandas. Ela não se reconhecia nas imagens de si mesma publicadas nas revistas femininas. Eu sabia; no fundo sempre foi tudo mentira, literalmente falso. É óbvio que Scarlett não é como aparenta; é claro também que chegando perto a gente enxerga a idade dos artistas. Quando se espantam com a longevidade da beleza cirúrgica de Cher eu sempre digo “deixe eu olhar pra ela às 7 da manhã, no trajeto entre a cama e o banheiro, que eu digo sua exata idade“.

A mentira não está no real, mas no caminho tortuoso que transita entre o objeto e nosso olhar, e de lá para a nossa mente. Todavia, não vejo sentido em reclamar dos pés de galinha, da barriguinha e dos “furinhos na bunda”. Aliás, o que torna Scarlett bonita, atraente ou “gostosa” é exatamente esta porção de imperfeição que podemos encontrar. Em verdade, talvez seja justo dizer que ela apenas se torna perfeita pelas suas imperfeições. Mais ainda: uma mulher sem imperfeições – onde seja possível pendurar nosso desejo – é um objeto estéril, insosso e inodoro. Serve apenas como uma fotografia em uma parede de borracharia.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

A mais bonita

Em verdade, apesar do natural estranhamento causado por esta afirmação, não existe momento mais pleno de sexualidade do que o parto. Lembro de Ferdinand Celine, médico e polêmico escritor francês, escrevendo “Querem sexualidade de verdade? Procurem no parto“. Quem não concorda, tudo bem.

Vi algumas mulheres defendendo maquiagem e tratamentos para o cabelo para o momento das fotos na maternidade. Não me meto nesses assuntos e acho que cada um faz como quer, mas me incomodou a justificativa: seria para que ela ficasse “mais bonita” quando fosse gravar o momento em imagens.

Acho isso muito estranho, e posso dizer que não há nada mais belo do que a imensa balbúrdia de suores, gemidos, cabelos desgrenhados, lábios inchados e olhos molhados que testemunhamos no momento em que um bebê nasce. Não discuto os diversos conceitos de beleza, que precisam de poses, ângulos, iluminação e acessórios, mas repito que esta beleza crua e selvagem desse momento é muito mais significativa na construção de nossa própria sexualidade.

Bonita para receber seu filho“? Acham mesmo que um bebê vai se importar com a tonalidade do batom? Ou os presentes vão levar isso em consideração? Eu creio que o belo da cena está na superação e na própria vida que se revigora. Claro, uma forma mais sutil de beleza.

Na perspectiva do ser que nasce, inseguro e incompleto, desalojado de sua casa de idílio absoluto, a fagulha de esperança que lhe acalenta é o brilho das duas estrelas que, ao se aproximarem de seu rosto, informam que a única alternativa é o amor. Estas estrelas são os olhos brilhantes e úmidos de sua mãe.

O resto é comércio.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

A Princesa e as Escolhas

A princesa e seu cavalheiro

Então, disse o vovô Ric, a decisão para o galante cavalheiro foi pronunciada com severidade:

Podes escolher entre estas opções, nobre senhor. Poderás ter a mais bela mulher de dia, para mostrar nas festas, para os visitantes, para os assuntos oficiais e para a corte. Por outro lado, terás uma mulher horrenda em tua cama, pegajosa e malevolente, por quem terás repulsa.

A outra opção também te será complexa: Poderás ter uma mulher horrenda e asquerosa durante o dia, que te envergonhará diante do reino inteiro, comportando-se como uma ogra nas festas, nas recepções e nos encontros com os signatários de outros reinos. Em compensação terás uma mulher linda, graciosa, meiga, sensual e carinhosa a compartilhar contigo os lençóis. Ela afagará teu cabelo, te dará conforto após as batalhas e pronunciará palavras de apoio diante de tuas angústias.

Agora tu tens o poder de escolher qual das duas faces desta maldição preferes: a mulher linda à luz do dia e perante os olhos de teus súditos, mas horrorosa quando o sol desaparece nas montanhas; ou aquela feia na luminosidade das horas mas delicada e desejável quando o véu da noite cobre a todos nós com seu breu.

O nobre cavaleiro olhou para um ponto fixo no horizonte e depois de poucos instantes de reflexão respondeu:

A mim não cabe decidir sobre a vida de outrem. Se ela será feia ou bonita, desejável ou repugnante é uma decisão que só pode estar nas suas próprias mãos de princesa. A mim cabe apenas o direito de querê-la ou não. Não posso modificá-la diante do meu desejo, minhas ideias e minhas escolhas.

Respirou profundamente, olhou para aqueles que lhe dirigiram a palavra e completou: “Deixem que ela decida como a maldição se fará. Prefiro viver ao lado de uma princesa que seja capaz de decidir sobre sua própria vida.

E quando lhe foi oferecida a oportunidade de escolher como desejava ser perante seu amante o feitiço que nela habitava sumiu. Sim, de forma instantânea ele se foi, pois esta era a chave que a libertaria: o direito restituído de escolher o próprio destino e ser protagonista da própria vida. Liberta das amarras milenares do poder obliterante de uma cultura machista ela agora podia escolher seu caminho, fazer o que bem desejasse, dizer o que lhe viesse à mente, abrir seus lábios e beijar a quem seu desejo apontasse e amar aquele que seu coração abraçasse. Assim, solta, pôde finalmente seguir seu desígnio humano de cumprir com os mais altos fins de sua existência.

Fechando o livro, vovô Ric olhou para os olhos do seu netinho e completou: “E assim ela viveu, feliz para sempre, mas não tenho sequer a certeza de que tenha se casado com o príncipe que a libertou. É possível, claro, mas é igualmente razoável que tenha até ficado só. E digo isso por uma única razão: o que aconteceu depois de cair o feitiço só ocorreu porque ela assim escolheu.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais