Assalto

assalto

 

Minha filha foi assaltada. Um rapaz roubou seu celular e saiu em disparada. Ela saiu atrás gritando histericamente até encontrar uma viatura da polícia. Os policiais a fizeram percorrer na viatura as redondezas do Parque da Redenção, onde ocorreu o roubo, até encontrarem o pobre ladrão.

Reconhecido por ela, foi recolhido ao Palácio da Polícia para o flagrante. Bebel conseguiu recuperar seu celular. Na marra e na coragem.

Onde foi que eu errei? Por que não consegui criar uma filha para ser uma moça bela, recatada e pronta para o lar?

Encontrei a Bebel logo depois e ela me contou que quando os policiais interceptaram o rapaz começaram a bater nele. Desnecessário dizer que ele era preto, muito mais preto do que a decência branca determina. Ele roubou a mulher branca, safado, degenerado. Como ousa???

Ato contínuo à imobilização imediata, e já indefeso, os policiais lhe aplicaram vários tapas, mais para humilhar do que para machucar, mas ouviram os protestos de Bebel.

– Hei, ele já foi imobilizado. Já pegamos o celular. Não há razão alguma para bater nele! Parem!

Os policiais relaxaram a pressão sobre seu corpo forte e negro, mas não se furtaram ao comentário óbvio.

– Ah… você é uma dessas. Não gosta que batam em ladrão. Pois fique sabendo, mocinha, que…

Bebel o interrompeu com o dedo indicador à proa

– Fiquem vocês sabendo que quem bate em uma pessoa que não pode se defender é bandido. O comportamento de vocês deve ser diferente daqueles a quem vocês perseguem.

Recebeu como resposta um riso debochado, mas surtiu efeito. Eles o algemaram, mas não foi mais agredido.

Há quem sustente que bater num bandido que acabou de lhe assaltar é algo normal e que deveria ser estimulado. Tivesse Bebel se associado ao espancamento e muitos diriam “Seus socos e sopapos me representam“.

A mim não representam e sei que muitas pessoas concordam comigo. Nossa resposta, enquanto pessoas ou sociedade, não pode ser na mesma sintonia daqueles a quem criticamos. Se algum exemplo de fraternidade precisa acontecer, que venha de nós. Só com o perdão se quebra o ciclo de ódio.

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