Arquivo da tag: vingança

Xerifismo do STF

Três perguntas:

1Quantos anos de cadeia cada cidadão brasileiro se arriscaria a pegar caso o ministro Alexandre de Morais tivesse a mesma rigidez que teve com o bombadão fascista a respeito das postagens nas suas redes

2O que impediria a justiça de fazer isso com qualquer pessoa, na dependência apenas do humor de um super poderoso juiz que não gosta das suas palavras?

3Desde quando está valendo o crime de opinião no Brasil?

Realmente poucos teriam a coragem enfrentar um STF acovardado, que deveria mesmo ser suprimido, exterminado, pois que é um poder abusivo que age autoritariamente sobre os outros poderes democraticamente constituídos e que atua politicamente, de forma descarada, para fazer valer a vontade das elites e da pequena burguesia.

Só não vale reclamar quando o STF prender um amigo ou quando impedir o seu presidente predileto de concorrer; claro, nosso apoio só vai se expressar quando esses velhos medíocres atacarem um bombadão idiotizado pelos anabolizantes por dizer tolices em rede social. Nove anos de prisão por fazer gracinhas em redes sociais – e vamos deixar bem claro que “atacar” um poder constituído é um conceito bem diferente do que foi dito pelo réu, de que tinha “um sonho”. Ora, esse sonho de acabar com o STF até eu tenho, pois que esta instância é uma mistura de autoritarismo e xerifismo com o mais abjeto punitivismo.

Estamos cavando nossa própria cova. Esses julgamentos são absurdos, ou no mínimo exagerados e o caso do Daniel é emblemático. Quem agora comemora deve pensar que muito em breve este tipo de ação autoritária dos Ministros que julgam em causa própria vai se voltar contra um parlamentar da esquerda. Ontem, milhares de votos foram cancelados, e de novo através do autoritarismo do STF.

Aplaudir o ministros punitivistas, que agem como perfeitos xerifes de um filme de bang-bang, é pura estupidez, comparável a ficar feliz com os editoriais lidos pelo Bonner contra Bolsonaro. Não importa que o personagem da bolha fascista de agora seja um perfeito idiota, fascista e golpista, estamos abrindo uma porta que não seremos capazes de fechar. Anotem…

Precisamos com urgência de um órgão mais democrático, não vitalício e com pessoas realmente comprometidas com o cumprimento da constituição. Uma suprema corte que diz “O STF precisa escutar a voz do povo” (e não das leis!!!) deveria ser extinto no dia seguinte. Mas quando o STF faz algo que, circunstancialmente nos agrada, muita gente (inclusive da esquerda liberal) coloca a cara do Ministro Alexandre como wallpaper do celular e o transforma em herói da nação. Realmente, muitos preferem ser complacentes e servis com as diatribes de cortadores de pé de maconha e evitam críticas aos venais que agem como se a constituição fosse algo que pudesse ser criada a todo momento, na dependência de suas vontades, dos momentos e das oportunidades propícias para a autoproteção e a defesa dos interesse do mercado.

Cito aqui 5 exemplos de abuso obsceno de poder bem recentes protagonizados pela suprema corte:

1) golpe de 64 sancionado pela suprema corte, tratado como algo feito para o “bem da democracia”;
2) impedimento de Lula assumir como ministro de Dilma (o que poderia obstaculizar o golpe em marcha);
2) prisão inconstitucional de Lula,
prisão violando o artigo 5o da constituição, impedindo-o de concorrer; talvez para estes a prisão de Lula “era do jogo”, mesmo…
3) “impeachment” da presidente Dilma sem crime de responsabilidade – conforme amplamente comprovado, e até aceito por Temer, que reconheceu que o impeachment foi deflagrado porque Dilma não quis aceitar a “ponte para o futuro”. Pois também esse crime foi validado pelo STF;
5) a prisão arbitrária e absurda por 9 anos de um idiota que teve atitude de fanfarrão e boquirroto em rede social.

Uma breve pesquisa adicional e seria fácil achar outras centenas de atos autoritários para se somarem a estes. Com a adoção do “crime de opinião” ninguém está livre de ser perseguido por ter expressado sua opinião e sua perspectiva política sobre o país.

Muitos argumentam como se as leis fossem feitas de ferro, e bastaria se apoiar nelas para fazer valer o que é justo, ético e correto. Não… a lei não é feita de ferro, talvez de uma borracha maleável. Pensando bem, esta não é a melhor imagem; as leis são feitas de “slyme” e o STF faz o que quer com elas, moldando-as de acordo com os seus interesses intestinos e espúrios. Não apenas as leis regulares, mas a própria constituição, que é usada de acordo com as vontades desse colegiado medíocre. “Não tenho prova cabal contra José Dirceu, mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite” lembram dessa pérola da ministra Rosa Weber? Sabe quando uma aberração como essas seria aceita num tribunal europeu? Jamais…. mas por que continuamos a aceitar estes absurdos jurídicos por aqui?

A resposta é óbvia, porém triste: é porque esse país é cheio, repleto, transbordante….. de gente comportada.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

O Menino

Sim, eu tenho pena da desgraça destes personagens para quem um fosso enorme se abre sob os pés, de onde se podem ver as labaredas do Hades. Não me sinto bem associado à enorme energia destrutiva que se forma como resposta à condenação de seus atos. Talvez seja uma reminiscência de outras tantas fogueiras que presenciei, onde sempre imperam os sentimentos mais primitivos.

Esclareço apenas que sofrer por condescendência e empatia não significa aceitar ou concordar, muito menos absolver. Todavia, quando vejo o peso de tanto ressentimento acumulado recaindo sobre estas cabeças eu me associo à tragédia destes que caem. Digo também que olhar desta forma não é uma escolha racional, é um impulso. Também não significa que não devam pagar por seus delitos.

Existe uma circunstância que me é inevitável nestas passagens: eu sempre penso que poderia ser um filho meu. Tenho filhos da idade destes pobres personagens que agora se encaminham ao calvário. Mas já vi mães chorando no pronto-socorro a morte de seu filho bandido. Elas diziam “Ele sempre foi um bom menino. Foram as companhias e a maldita da droga”. Como não entender que, para uma mãe, este filho – por mais degenerado que seja – será sempre seu guri, que

“Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar”

Eu prefiro não cultuar o ódio por essas figuras, todas elas. Quando vejo se disseminar o gozo da vingança sinto um gosto de fel, que sempre me assusta e angustia.

Eu já fui alvo de ataques desse tipo, em especial na internet, por ter opiniões que ofendiam algumas pessoas. Vi gente fazendo discursos enormes carregados de ódio e que sequer me conheciam. Percebi que nestes momentos eu era colocado em um lugar e ocupava um posto. Não exatamente o que eu era, mas o que queriam que eu fosse. Nessa topografia eu podia ser atacado sem dó ou piedade. Eu era a “coisa” a ser destruída, e para isso não havia problema algum em me arrancar a humanidade.

A última vez que expressei meu sentimento com esses linchamentos fui vítima – que surpresa – de um pequeno linchamento por parte de uma antiga companheira. Defender que estas pessoas em desgraça sejam tratadas com alguma humanidade soa ofensivo para quem já sentiu algumas das dores que eles disseminam. Mas, para mim, passada a raiva inicial – quando me esforço por nada dizer – me assombra a imagem de um menino, sua face surpresa diante do mundo, suas dúvidas, seus projetos, suas paixões e seus sonhos. Ao lado dele um homem de túnica branca e barba sobre a pele escura, o dramaturgo cartaginês Publius Terentius Afer, o africano. Ele me olha e balbucia palavras que acompanho de memória. “Homo sum: humani nihil a me alienum puto”.

“Sou humano e nada do que é humano me é estranho”. Aquele menino poderia ser eu, se o meu caminho tivesse o mesmo rumo que o dele.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

O Cipó

Eu já vi esse filme, e acho que podemos estar errando de novo. O supremo empoderamento da voz das pacientes e o descrédito da versão dos médicos pode eventualmente se voltar contra os próprios profissionais humanizados. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Criar demônios, desumanizando-os, não é certo nem justo. Criamos personagens sem matiz, a vítima e o carrasco, o bom e o mau, e isso raramente conta toda a história.

Hoje o foco das acusações é um intervencionista que muitos dizem ser arrogante, alguém que debochava da humanização e do parto no modelo de parteria. Espero que ele receba um julgamento justo por seus erros. Todavia, essa mesma energia vingativa que muitos lançam para ele pode voltar, como cipó de aroeira no lombo daqueles que agora apontam dedos. Já vi esse fenômeno, e sei como ocorre.

Eu recomendo cuidado com essas narrativas. No fundo não existe nenhuma diferença essencial entre médicos e pacientes; todos são gente, com suas falhas, erros, virtudes e acertos. Um certo cuidado com a história que se forma seria uma boa atitude.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Positivismo e Medicina

A ideia de uma medicina monolítica é anticientífica e totalitária

O positivismo defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma verdadeira de conhecimento verdadeiro, desconsiderando todas as outras formas de aquisição de conhecimento que não estejam subjugadas ao método aplicado pela ciência. Estes outros saberes serão, desta forma, considerados como domínio teológico-metafísico, que se caracteriza pelas crendices, mitos e superstições. Para o início do século XIX, estas ideias de Auguste Conte e John Stuart Mill seriam, por certo, muito avançadas. Todavia, com o surgimento do capitalismo transnacional e, em especial, a explosão da indústria químico-farmacêutica do pós guerra, as descobertas científicas no campo da medicina farmacológica adentraram o grande mercado dos lucros e das concorrências, fazendo com que as descobertas destas gigantes industriais sejam mais pautadas pelo seu sucesso em vendas do que pela real capacidade de tratar e curar doenças.

Hoje em dia, em função da pervasividade dos medicamentos na cultura ocidental, temos a ideia de que as inovações medicamentosas e farmacêuticas são elementos propulsores do progresso, oferecendo a estas empresas uma confiança muito além do que seria justo. Entretanto, a história recente nos mostra que a “BigPharma” – conjunto de empresas multinacionais de drogas – é por certo um dos conglomerados mais corruptos já criados pelo capitalismo moderno. Mesmo assim, ainda confundimos remédios com tecnologia e ciência; pior ainda, acreditamos que a saúde é algo que se conquista com a adição de drogas.

As pessoas ainda não perceberam o preço que ainda vamos pagar por estas crenças, que mais se assemelham ao crédito que historicamente demos às religiões. Ao criar uma “medicina certa”, positivista, correta e acima de qualquer questionamento, perdemos de perspectiva a subjetividade, marca indelével da “nouvelle vague” das ciências humanas. A ideia de uma medicina monolítica me traz à mente a sombra do totalitarismo do século XX, e entender que a busca pela saúde estará na alienação que o sujeito sofre sobre seu corpo e sua alma, oferecendo esta tarefa às drogas, é um erro que pode ser mensurado indiretamente pela epidemia de opiáceos nos Estados Unidos ou pelo consumo absurdo de antibióticos e psicotrópicos pelas populações ocidentais.

Não me refiro apenas a estes tratamentos experimentais recentemente utilizados para doenças contemporâneas, mas sei exatamente que agora como nunca esta questão está à flor da pele. Afinal, qual a saída para a humanidade que paulatinamente se desvia da sua natureza mais íntima e ruma célere à mais absoluta “ciborguificação”, tendo a vida regulada por uma lógica protética e artificial? A ideia que por muitos anos foi dominante é de que existe uma forma certa, infalível e correta de tratar as pessoas – a biomedicina tecnológica e intervencionista – como se os pacientes se comportassem como gado – e aqui os veterinários me xingam, porque dizem que nem os ruminantes são todos iguais.

A ideia de tratar as doenças a despeito do sujeito parte de um biologicismo ultrapassado que despreza os efeitos do terreno mórbido na manifestação das enfermidades. Voltar ao século XIX não me parece significar qualquer avanço. O pior é que esta medicina hegemônica muitas vezes é apenas a face visível que emerge de disputas violentas pelo fatiamento de mercados e pela busca de lucros astronômicos no negócio da doença, e nós somos apenas a parte consumidora (e bovina) que baixa a cabeça diante do discurso das autoridades.

Criar este tipo de positivismo na medicina é um erro brutal, que leva consigo o risco de perder de perspectiva a subjetividade imanente de cada doente.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Causa Operária, Medicina

Mal e mau

Meu pai sempre usava essa expressão para mostrar qual a verdadeira essência da maldade:

“Você só consegue me fazer mal se me fizer mau”.

Assim, a pior vingança do bolsonarismo contra aqueles que sonham com a equidade, a justiça, a diversidade, o respeito ao outro e uma sociedade de paz é nos transformar na pior versão deles mesmos. Creio que a postura de um humanista é jamais se curvar à sedução do ódio e da vingança. Quando nos tornamos iguais àqueles que mais combatemos é porque já estamos derrotados. Quando aceitamos o ódio e o ressentimento como via de expressão então já não há mais diferença ética entre nós e nossos adversários.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Linchadores

Na internet há sempre um linchador de plantão cheio de esqueletos escondidos no armário e pronto para jogar acusações vazias em algum personagem. Assim o faz para que este pobre sujeito possa absorver suas culpas e aliviar suas angústias.

Zoe Papaniakos, “Media, Love and Hate”, Ed. Jasper, pag 135

Zoe Papaniakos é uma romancista grega nascida em Atenas, tendo estudado jornalismo nos Estados Unidos na Duke University, no Texas. Atualmente escreve artigos sobre feminismo, costumes e identitarismo numa perspectiva crítica, em especial ao “woke generation” e a “cultura do cancelamento”.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações, Violência

Desumanizar

“A forma clássica de justificar nossa brutalidade é desumanizar a quem odiamos. Todos os genocídios da história usaram esta estratégia. Congoleses, judeus, palestinos,, armênios, chineses, todos foram tratados como indignos da condição humana. Aqui em nosso meio, para poder continuar odiando o PT é preciso insinuar que os petistas não são “pessoas de bem”, portanto não há problema algum em destruir, difamar e – por que não? – até matar. A forma como tratam o ex-presidente Lula é apenas um aspecto dessa desumanização”.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Lobos invisíveis

Acabei sem querer caindo no texto de um advogado e piloto do Rio de Janeiro que comemora a morte do netinho de Lula. Não me surpreendeu, até porque congrega toda a psicopatia (e a conhecida fixação anal) dos seguidores da direita olavista. Entretanto, logo abaixo do texto havia um vídeo de um comentarista econômico do RS, Políbio Braga, que aparecia na TV no tempo que eu ainda a ligava. Pois o vídeo é absolutamente nojento e odioso, cheio de acusações sem fundamento e sem o menor respeito pela dor do ex presidente.

Isso evidencia algo que eu tinha observado há alguns dias: os psicopatas, os degradados e os disseminadores de ódio passeiam ao nosso lado todo dia sem que chamem nossa atenção. Guardam seu rancor e sua fúria escondida sob capas de hipocrisia, as quais tiram apenas em momentos de desatenção ou descontrole. Pois agora também percebo que estes personagens passeavam pelas nossas televisões exibindo sorrisos de sarcasmo e desprezo, sem que tivéssemos a chance de perceber.

Que Deus tenha piedade deles por tanta maldade.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Pena Capital

O problema da argumentação daqueles que apoiam a pena de morte (e da turma que gosta de assassinatos legalizados) é que são fixados na figura do assassino (Freud explica) e não na população que é vítima da violência. Milhares de estudos sociológicos comprovam que não se modificam as taxas de criminalidade com medidas como esta, e mesmo assim insistem na ideia de matar quem comete crimes. Ora, por quê?

A resposta é óbvia. A razão para está fixação é que estes sujeitos também desejam matar, como os criminosos, mas não o podem fazer. É um sentimento brutal e primitivo, uma sensação pessoal de vingança contra os que invadem seu espaço ou lhe tiram algo de valor. Infelizmente estas propostas quando executadas nunca mudaram em nada a insegurança da população e mesmo as mortes violentas. São inúteis e apenas adicionam mais mortes àquelas que já lamentamos. Elas apenas oferecem o prazer sádico de acrescentar uma morte legal às estatísticas.

A Pena de Morte tem o mesmo efeito da desastrosa “guerra ao terror” implantada pelos governos americanos. A ideia é a mesma: vamos destruir todos os malfeitores e a sociedade será dominada apenas por “gente de bem”. Mataram milhares dos – assim chamados – “terroristas”. Limparam o terreno e espalharam sangue por todo lado. Eu pergunto: que efeito isso produziu no terrorismo global?

O OPOSTO do esperado. Nunca houve tanta tensão, atentados, insegurança e violência. A guerra ao terror é um SUPREMO FRACASSO, assim como também o são as medidas de extermínio de negros e pobres submetidos a situações sociais deploráveis e que entram no crime pelas razões que tanto conhecemos. Sem atacar diretamente as RAZÕES para o terrorismo e para o crime tais medidas apenas reciclam terroristas e bandidos. Abrimos vagas para os novos sem entender porque se formam tão rapidamente.

No fundo o que temos é um processo exonerativo de raivas e frustrações acumuladas na sociedade desaguando numa prática medieval de assassinar aqueles à sua margem, sem nenhuma indicação de que esta sociedade se torne, por estas medidas, mais pacífica.

Pelo contrário, a exemplo do que aconteceu à luta contra o “terror”, só recrudescemos a matança.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Um Corpo no Chão

images-2

Cena banal…

A xícara de café fumegante assiste ao meu lado a derradeira pirueta desconcertante da ginasta gringa quando um grito corta o ar e faz a funcionária de cabelos oxigenados correr para a porta. Virando meu corpo em sua direção pude ver os derradeiros movimentos de um balé macabro.

Um rapaz bem vestido rouba a bolsa de uma mulher e sai em disparada. Descoberto por um taxista que testemunhou a cena faz uma escolha da qual se arrependeria, entra na rua errada e acaba alcançado por um passante e um motoboy. Cercado, levanta os braços, deixa cair a bolsa e se ajoelha, ainda mantendo as mãos para o céu. O silêncio que se seguiu ao grito é substituído por uma profusão de vozes, berros e exclamações. Muitos correm para a cena, mas eu me limito a me erguer da cadeira da cafeteria e, sofregamente, me dirijo à porta.

O motoboy, jaqueta de couro e botinas, mimetiza uma jogada de futebol americano. Com seu capacete reluzente enquadra o corpo forte e, como um “kicker” desfere um violento chute no corpo do rapaz. Pelo acúmulo de pessoas que agora envolvem a cena, não pude ver onde o impiedoso pontapé o atingiu. Escuto um grito surdo, seguido de gargalhadas e comentários jocosos e histéricos. Mais de 20 pessoas agora cercam o menino, cujo corpo desapareceu, envolto pela turba.

Passam-se alguns minutos e uma senhora tenta me explicar os detalhes do roubo, mas é interrompida por um senhor de uns 65 anos que, com um sorriso nos lábios, dispara: “Esse aí não rouba mais”.

Quebraram a perna dele, continua. Chutaram a perna do ladrão até quebrar. Partiram ela no meio“. Era indisfarçável o prazer estampado em seu rosto ao relatar a pequena chacina, o linchamento que ofereceu um pouco de diversão às pessoas de bem que circulavam no entorno da cafeteria.

O povo continuava em volta, e por vezes eu escutava os gritos do rapaz. As pessoas se amontoavam em torno do seu corpo roto, enquanto esperavam a polícia, paradoxalmente a única esperança que o pobre ladrão tinha de estancar o linchamento.

Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto a foto de um gol
Em vez de reza a praga de alguém
E um silêncio servindo de amém.”

A barbárie, entre gritos e sussurros, espreita em qualquer esquina, bastando para isso que o mundo lhe ofereça uma forma de pegar carona no ódio alheio.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Livro de Citações