Contágio

Coca Cola

 

No final do século passado um grupo de adolescentes na Bélgica toma Coca-Cola e começa a se sentir mal. Náusea, vômito, tontura, dispneia e ansiede A partir desse fato de inicia uma busca pelas causas dessa “intoxicação”, que inclui pesquisa das folhas da planta de onde se produz a essência e, por fim, encontra-se uma alteração na formulação da bebida. Isso poderia encerrar a investigação, não fosse o fato de que um bioquímico afirmar que, mesmo havendo essa pequena alteração em um componente, seria necessário uma concentração mil vezes maior dessa substância para produzir qualquer dos sintomas relatados pelo adolescentes.

Mas se os sintomas eram reais e a concentração da substância insuficiente para causá-los, o que poderia produzir os sinais alarmantes que os jovens apresentavam?

A resposta, segundo Malcolm Gladwell, seria um componente contagioso no comportamento. Não se tratava de uma substância venenosa ou uma partícula viral, mas uma ideia, um pensamento, o medo. Existem vários exemplos de fatos como esse, como crianças em creches tendo crises em frente à TV no Japão, o fenômeno mórbido de Jim Jones na Venezuela ou a “febre” das Tulipas na Holanda. O contágio não se dá a partir de uma entidade química ou biológica, mas a partir de elementos do “campo simbólico“, no fértil terreno das ideias.

O que podem nos ensinar tais fenômenos? Essencialmente ele nos falam do poder da comunicação pessoal e direta, por certo. Entretanto, também nos mostram que tal poder pode nos conectar para o mal – o sintoma, a dor, o desespero – mas também pode ligar as pessoas para o bem. Se essa conexão identificatória com o sofrimento e o sintoma alheio é capaz de construir uma onda de histeria do “nada” (biológico ou químico), também poderia induzir comportamentos solidários, saudáveis e construtivos. Para estes também há vários exemplos em distintos contextos.

Em relação ao parto e nascimento sempre me estimulei pela potencialidade das boas histórias contadas como importante elemento de contágio positivo. Vejo nelas a possibilidade da criação de “ondas de positividade“, e apenas por isso resolvi fotografar nascimentos: para criar “histórias visuais”. Por outro lado, quando leio ou escuto relatos de violência obstétrica relacionada aos partos, sempre tenho a sensação de que, mesmo reconhecendo a relevância destas denúncias, precisamos muito mais focar na luz do que na sombra.

Como eu dizia há alguns anos, o combate às cesarianas indevidas ou à violência obstétrica não deve ser nossa trilha principal, pois que ela se concentra na sombra da obstetrícia – anacrônica e violenta. Nossa proposta deveria se direcionar ao contágio positivo das histórias de sucesso, espalhando de forma viral a possibilidade de partos seguros e tranquilos, com plena autonomia das mulheres, com embasamento científico e um olhar abrangente sobre este poderoso rito de passagem.

A mudança do panorama da atenção ao parto vai ocorrer na medida em que o volume de histórias bonitas e poderosas ultrapassar um determinado “turning point“, um momento específico em que o respeito ao nascimento for naturalizado e toda forma de violência se tornar absurda. Para alcançar esse limite é preciso multiplicar essas descrições e fazer delas as imagens que usamos para colorir de realidade as nossas fantasias. Cabe apenas a nós criar esse psicosfera positiva no campo da linguagem.

 

 

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Arquivado em Ativismo, Parto

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