Universidade Elitista

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Meus colegas de faculdade tinham nome de rua. Eles eram a geração mais nova das oligarquias burguesas do estado, muitas delas ainda do tempo das charqueadas e da Revolução Farroupilha. Eu era um “estranho no ninho”, filho de funcionário público que estudou em escola do estado. Tive colegas que chegaram para o trote no primeiro dia de aula dirigindo seu próprio Dodge Dart (eu peguei o 77, linha Menino Deus). Algumas colegas se gabavam para mim de nunca terem comido no refeitório do hospital escola; afinal “bandeijão” não ficava bem. Outros que vinham do interior diziam, entre risos, que suas despesas na capital eram bancadas pelo MFL – Montepio da Família Latifundiária.

Todos estudavam de graça na universidade federal. Quem pagava nossas aulas podia ser visto pela janela do último andar do Instituto de Biociências: o pipoqueiro do Parque Farroupilha. Ele, e todas as outras pessoas que pagavam impostos, tiravam um pedaço do seu magro orçamento para que nós pudéssemos nos orgulhar de fazer uma faculdade cobiçada, valorizada e gratuita. Sua esperança era que, finda a etapa escolar, o investimento no menino esforçado e na menina estudiosa valeria a pena, e eles serviriam como anjos a apaziguar os sofrimentos do corpo e da alma daqueles que os ampararam por tantos anos.

Mas esse retorno sempre é apenas uma promessa, e nada nos garante que será realizado. Pagamos por toda uma educação superior sem qualquer garantia de que este profissional retribuirá com seu trabalho para o povo que o sustentou. Mais ainda, nosso processo seletivo privilegia o andares superiores das castas sociais, deixando quase nenhum espaço para pobres, negros e oriundos do ensino público. As cotas vieram para tapar esse fosso, mas nenhum avanço será percebido na fotografia de formatura antes que duas ou mais gerações tenham passado.

Por enquanto na universidade pública é o imposto do pobre que paga para o filho do rico estudar de graça.

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