Cicatrizes

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A cesariana no século XX, com sua rapidez, relativa segurança e praticidade, permitiu que muitas vidas de mães e bebês fossem salvas. Entretanto, sua prevalência no mundo ocidental foi aos poucos aniquilando as habilidades que os responsáveis pela assistência desenvolveram nos últimos 2 milhões de anos. A facilidade e a impunidade para abreviar uma gestação através da cirurgia de extração fetal, aliadas à incapacidade de entender a complexidade do processo de parturição, levaram ao estado atual: cesarianas além de limites aceitáveis e partos violentos. Como nos lembra Gail Tully – a partir de um comentário de Lorenza Holt – mais acertado seria chamarmos de “falha de assistência” do que “falha de progressão”; de uma forma crescente estamos perdendo as habilidade essenciais para darmos conta das sutilezas deste evento.

Se nada for feito o século XXI pode assistir o fim do parto vaginal pela absoluta impossibilidade de encontrar profissionais capacitados para atendê-lo.

Por outro lado, cada dia que passa mais me convenço da profundidade das marcas que o parto deixa em quem é atropelado por sua voracidade. Em uma sociedade em que as escolhas frequentemente se resumem à suprema alienação da cesariana ou à violência obstétrica do parto vaginal qualquer dos caminhos produz inexoráveis cicatrizes. Basta que venha a chuva de uma lembrança, um comentário ou mesmo uma manifestação inocente e a cicatriz volta a pulsar. Não importa que entre a marca no corpo e a fala que a ela se reporta tenham decorrido décadas, ela continua lá, atual, ardente e corrosiva. Não há corpo no qual esta ferida não deixe sua mancha, e não há tempo em uma única existência capaz de apagar seus efeitos.

Porque somos feitos de carne e desejo não é possível que se toque em um sem que o outro goze ou sofra.

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Arquivado em Ativismo, Parto

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