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Dores e sons

Essa imagem é de um debate ocorrido em um grupo de Whatsapp – de esquerda!! – a respeito de um artigo que escrevi sobre a necessidade dos partidos marxistas se engajarem na luta pela humanização do nascimento e pelo fim da violência obstétrica, mas se afastando dos discursos identitários de viés individualista.

O primeiro comentário diz respeito ao aborto, mas fala que assim como ele a cesariana também não é crime. Bem, do ponto de vista da humanização do nascimento a cesariana é uma cirurgia maravilhosa e capaz de salvar vidas. Todavia, isso apenas ocorre quando esta cirurgia de grande porte é bem indicada, sem os abusos que presenciamos cotidianamente quando seu uso ocorre para satisfazer as necessidades dos profissionais e das instituições – e não das mães e dos seus bebês. Criticar o abuso de cesarianas não significa desmerecer sua importância e validade. Parece incrível ainda ser necessária oferecer este tipo de explicação.

O segundo comentário – que elogia a anestesia – é uma visão largamente disseminada na cultura ocidental. Desde o dia 16 de outubro de 1886, quando John Collins Warren – o velho e empertigado cirurgião – retirou um tumor da boca de Gilbert Abbot sob anestesia por éter sulfúrico, conduzida por um tal Thomas Green Morton, que a humanidade exalta a possibilidade do uso das drogas para exterminar o sofrimento e as dores. Nada mais justo este entusiasmo, visto que desde a aurora da humanidade a dor nos acompanha como sombra mórbida a nos fustigar e torturar.

Todavia, do entusiasmo inicial e o nascimento da moderna cirurgia, vieram também como consequência muitos questionamentos: até quanto é possível isolar os sujeitos da experiência da dor, e quais as consequências de uma vida sem ela? E se para as dores físicas temos os múltiplos analgésicos (e os anestésicos para as cirurgias), como lidar com as dores da alma? Serão elas igualmente passíveis de extermínio? Ou serão estas dores um alvo para aqueles ávidos por descobrir novos mercados?

É minha visão que as dores são constitutivas dos sujeitos e que é impossível viver sem elas. Também creio que as dores de parir produzem seus efeitos não apenas na mulher que as suporta, mas também no sujeito que nasce. É claro que para isso as dores precisam de sentido, significado e função, e não ser apenas o sinal corporal de uma disfunção onde a tecnologia pode ajudar e produzir alívio. Há que discernir para não abusar e tornar ruim algo que é, em essência, bom.

A terceira manifestação, foi feita por um médico, que acredita no mito do “culto ao parto normal”, que seria produzido por uma “seita de identitários avessos à tecnologia e aos recursos cirúrgicos”. Sua aversão à humanização do nascimento se sustenta no “recurso do espantalho”: a criação de um adversário fictício que facilitaria nossas críticas ao direcioná-las a uma mera caricatura das opiniões e posições que se opõem às nossas.

Não restam dúvidas de que existem identitários na humanização do nascimento. Por certo que muitas ativistas abusam de recursos espúrios como cancelamentos, silenciamentos, ataques sexistas, essencialismos e preconceito. Entretanto, apesar de serem por vezes vocais, são uma minoria nesse movimento. Este se estrutura na garantia do protagonismo à mulher, na visão interdisciplinar do parto e na atenção baseada em evidências, e não em misticismos ou revanchismos sectários. Tratar um coletivo pela imagem de uma parcela diminuta é desonestidade.

Em verdade, a ideia de que o objetivo dos humanistas seria tornar a cesariana ilegal é tola e apartada da dura realidade do parto, porque é exatamente o oposto que acontece: é o parto normal que lentamente desaparece do horizonte das mulheres, expropriado pela tecnocracia médica que possui nas mãos o mapa único, a versão de uma realidade que insidiosamente evapora. Se existe nobreza neste movimento é a tarefa de lutar para que um processo fisiológico como o parto não seja exterminado pela arrogância cientificista.

Hoje em dia, nos países colonizados pela medicina drogal e intervencionista, é o parto normal que em breve precisará “habeas corpus”. Sim, “que tenhas o teu corpo” é a melhor definição para o desejo de uma mulher que pretende ter seu filho em paz, sem ser interrompida ou incomodada. É o fluxo normal e fisiológico da vida que está em perigo de extinção; é o parto que corre o risco sério de desaparecimento.

Repito a pergunta que fiz há 20 anos: o que será da humanidade quando os gritos lancinantes primais que constituem nossa estrutura psíquica mais primordial forem substituídos pelo som duro e metálico dos instrumentos cirúrgicos de uma sala gelada e repleta de luzes? Se a música é realmente feita da reverberação infinita desse som, que se repete indefinidamente em nossa memória mais precoce, que humanidade será essa onde não haverá mais nenhuma canção a nos aliviar as inevitáveis dores de viver?

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Elogio à alienação

Eu não tenho problema com o uso de vacinas. Se houver ciência de qualidade com fontes seguras e isentas e com resultados positivos, por que não? Entretanto, acho terrível – e inaceitável – a lógica frequentemente usada para defendê-las. Agora mesmo vi uma:

“Seu filho tomou 24 vacinas logo depois de nascer e só agora você resolveu perguntar do que esta última é feita? Confie na ciência!! Vacinas salvam vidas!!”

Quer dizer que agora – depois de anos ensinando as pessoas a pensarem por si mesmas e a tomarem decisões informadas sobre sua saúde e a dos seus filhos – estamos estimulando que não se façam mais perguntas e que nenhum questionamento incômodo seja feito? Querem nos convencer que é preciso acreditar cegamente nas drogas que nos indicam? Mais ainda, confundem prescrição de drogas com “ciência”, quando muitas vezes a ciência se expressa exatamente pelo combate ao mau uso das drogas!! Se Isso não é um retrocesso, não sei como chamar.

Pensem apenas o que se conquistou até agora na humanização do nascimento. Achariam justo dizer às mulheres para interromperem os questionamentos e passarem a ter fé nas decisões dos médicos?

“Nessa cidade milhares de pessoas vem ao mundo por cesariana e usamos cirurgias e internações para os bebês nascerem. Por que só agora você resolveu perguntar por qual razão queremos lhe operar?? Confie na ciência!! Confie nos médicos!! Cesarianas salvam vidas!!”

Se os médicos tem responsabilidade pelo descalabro das cesarianas no Brasil, por que deveríamos ter fé cega na decisão de um grupo de cientistas, em detrimento de outros? Qual o problema em perguntar os efeitos que as drogas potencialmente têm sobre as pessoas e, em especial, as crianças?

É para esse mundo que penaliza a autonomia e as perguntas indiscretas que estamos rumando?

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Kits e cesarianas

Como o meu filho bem observou, a diretriz da prescrição dos “kit covid” é a proteção …. DO MÉDICO, e não necessariamente do paciente. Ele me alertou também para o fato de que a lógica utilizada pelo CFM é igual àquela que leva ao abuso das cesariana: na dúvida OPERE, para se proteger enquanto profissional.

Mesmo sem o saber, o representante da corporação médica defende o “imperativo tecnológico” do qual Robbie Davis-Floyd se ocupa, que diz que “se há tecnologia disponível ela deve ser usada, inobstante o fato de causar dano”. Muito mais do que evidências científicas, a profissão é levada a agir por defesa, aumentando gravemente os riscos para os pacientes – mesmo que os diminua para os médicos.

Assim, se algo ocorrer de grave pelo uso do kit covid – e o mesmo se pode dizer das cesarianas – sempre haverá a desculpa de que “fizemos tudo que estava ao nosso alcance”, e isso servirá como salvo conduto diante dos seus pares, pois quem julga os médicos nos conselhos de classe se beneficia do (ab)uso tecnológico em que a Medicina se sustenta e está envolta. Mas, é claro que falta também um judiciário que aprenda a julgar casos médicos desviando dos atalhos fáceis do “senso comum”.

Médicos acovardados e judiciário pusilânime levam ao abuso de intervenções, medicalização da vida cotidiana, custos aumentados e morbimortalidade crescente. Prevenir iatrogenia é função medica.

Veja aqui a matéria do Intercept sobre a posição do vice-presidente do CFM no que diz respeito à proteção dos médicos diante da Covid 19.

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Cyborg

Imagine-se chegando em uma cidade e perceber, já no aeroporto, que a maioria das pessoas anda em cadeiras de rodas. Faz uma rápida conta mental e contabiliza mais da metade como incapazes de caminhar com as próprias pernas. Mais ainda: quando chega ao banheiro nota uma fila de homens aguardando para colocar uma sonda urinária, já que não conseguem urinar por si mesmos. Quando sai à rua, se dá conta que uma quantidade enorme de pessoas usa bolsa de colostomia anexada aos seus ventres, porque seus intestinos já não funcionam adequadamente. Não seria este um choque brutal? Não caberia perguntar o que houve nessa localidade capaz de produzir uma epidemia de incapacidades? Não seria justo e necessário investigar as origens de tamanha tragédia?

Mas, não será essa ficção apenas uma caricatura do que já estamos vivendo hoje, como vaticinou Donna Haraway em seu “Cyborg Manifesto”?

Dentaduras de sorrisos perfeitos, olhos com cristalinos artificiais, quadris de titânio, rostos com botox e fios de ouro fazem do humano uma pálida lembrança do que outrora fomos. Como o “Homem de 6 milhões de dólares” almejamos a transcendência dos limites tímidos do nosso corpo, exigindo da tecnologia que suplante nossas imperfeições através dos recursos técnicos artificiais.

Quanto mais “avançamos” enquanto sociedade mais nos percebemos trocando funções fisiológicas orgânicas – e seus milhões de anos de aperfeiçoamento – por versões artificiais “top de linha”, como novos-ricos ciborgues exibindo nossas ereções quimicamente estimuladas, nossas perucas rejuvenescedoras, pontes de safena e válvulas cardíacas como preciosos objetos de consumo.

Diante de tamanho esplendor tecnocrático, por que deveríamos nos assombrar com o fato de que 57.5% das mulheres brasileiras são levadas a uma cesariana, alijadas da vivência fisiológica e natural dos seus partos – fato que acompanhou a humanidade desde seu alvorecer? Por que deveria nos causar espanto que quase 60% das mulheres são incapazes de dar conta de algo que suas bisavós entendiam como tarefa natural da feminilidade?

Se há um corpo que se presta ao (ab)uso da tecnologia, este será o das mulheres. Afinal, sua incompetência, fragilidade e defectividade são exaltadas pela cultura e pela própria estrutura do modelo patriarcal. A expropriação de sua inata capacidade de gestar e parir não é nada além de um capítulo a mais na sua larga história de intromissões e invasões.

Hoje a verdadeira revolução não está mais em descobrir o próximo “gadget” precioso que vais tornar nossa vida mais tranquila e segura, mas em questionar o quanto de humanidade restará em nós quando a nenhuma criança mais for dado o direito de nascer do ventre de uma mulher.

ENGLISH VERSION

Imagine yourself arriving in a city and realizing, already at the airport, that most people in that place are in wheelchairs. You do a quick mental count and notice that more than half is unable to walk on their own legs. Even more: When you go to the bathroom, you notice a line of men waiting to put in a urinary tube, as they cannot urinate by themselves. When you leave the premises, you realize that a huge number of people use a colostomy bag attached to their bellies, because their intestines are no longer functioning properly. Wouldn’t this be a brutal shock? It would not be appropriate to ask what happened in this locality so terrible as to produce an epidemic of disabilities? Would it not be fair and necessary to investigate the origins of such a tragedy?

However, isn’t this fiction just a caricature of what we are already experiencing today, as predicted by Donna Haraway in her “Cyborg Manifesto”?

Dentures with perfect smiles, eyes with artificial lenses, titanium hips, faces filled with botox and gold threads which make the human a pale reminder of what we once were. As the “Million Dollar Man” we aim to transcend the timid limits of our bodies, demanding from technology that it overcomes our imperfections through artificial technical resources.

The more we “advance” as a society, the more we find ourselves trading organic physiological functions – and their millions of years of improvement – ​​for “top-of-the-line” artificial versions, like cyborg nouveaux riches showing off our chemically stimulated erections, our rejuvenating wigs, heart bypass grafts and heart valves as precious consumer items.

Faced with such technocratic splendor, why should one we be amazed at the fact that 57.5% of Brazilian women are taken to a caesarean section, denied of the physiological and natural experience of their births – a fact that has accompanied humanity since its dawn? Why should it surprise us that nearly 60% of women are unable to cope with something their great-grandmothers saw as the natural task of femininity?

If there is a body that lends itself to the (ab)use of technology, it will be that of a woman. After all, its incompetence, fragility and defectiveness are exalted by the culture and by the very structure of the patriarchal model. The expropriation of her innate ability to gestate and give birth is just another chapter in her long history of intrusions and invasions.

Today the real revolution is no longer discovering the next precious “gadget” that will give our lives more pleasure and connection, but rather questioning how much humanity will be left in us when no more child will be given the right to be naturally born from a woman´s womb.

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Enfermeiras Padrão

Quando eu comecei a trabalhar em hospitais a Enfermeira Padrão era a enfermeira diplomada, com curso superior. Naquele tempo ainda existiam as auxiliares de enfermagem, que eram pessoas sem qualquer formação, apenas prática. No hospital da periferia de Porto Alegre onde trabalhei por 4 anos, no início dos anos 90, ainda havia auxiliares de enfermagem que atendiam os partos, quando o convênio pagava pouco ou para deixar o médico dormir. Eram mulheres que entraram no hospital como auxiliares de limpeza e foram “progredindo na carreira”. Tornaram-se, muitas delas, “parteiras” cujo aprendizado se deu no auxílio aos médicos e junto às outras parteiras mais experientes. Seriam “parteiras tradicionais urbanas”, por seguirem uma “tradição” de assistência e serem oriundas do povo, e não das escolas ou da Academia.

Algumas delas eram espertas e muito hábeis. Foi com uma dessas auxiliares que aprendi na prática a ação da água no trabalho de parto. Mal as pacientes começavam a esboçar algum tipo de desespero e ela as colocava debaixo do chuveiro quente. “Vamos secar a caixa d’água do hospital, doutor” dizia ela dando risadas.

Entretanto, apesar de uma certa sabedoria oriunda da experiência, seu conhecimento de partos era limitado às práticas violentas que testemunhavam cotidianamente. Assim, a assistência que davam mimetizava as más condutas que observavam no procedimento médico. Seus partos eram na posição de litotomia (pacientes deitadas de costas na maca), faziam episiotomias, kristeller, gritos, comandos, luzes fortes ligadas, corte prematuro do cordão, etc e tudo aquilo que há 30 anos já sabíamos ser inadequado. Elas eram, mesmo sem o saber, o espelho justo de uma assistência indigna às mulheres.

Quando cheguei no plantão resolvi (como sempre) botar o pé na porta. Decidi no primeiro dia que no meu plantão os partos seriam todos na posição de cócoras (como padrão), cesarianas seriam marcadas com indicação clara (o que produzia ódio nos anestesistas que eram obrigados a comparecer de madrugada ao hospital) e decidi abolir por completo as episiotomias. Também o bebê seria colocado no colo da mãe após o nascimento.

É evidente que minha passagem pelo hospital foi marcada por perseguições. Numa instituição com 45% de cesarianas, e que atendia quase exclusivamente SUS, ter um médico que tinha 10% de intervenções gerava inconformidade e resistência.

Entretanto, a raiva dos médicos era compreensível. Sabia que isso abalava seu conjunto de crenças e, em especial, questionava seu poder absoluto sobre o corpo das mulheres. Dizer para uma mulher “fique na posição que desejar” é um tapa na onipotência médica, e isso não poderia ficar impune.

Contudo, eu não esperava a contrariedade das “parteiras”, as auxiliares diretas do meu trabalho. Sim, elas também não gostavam de ver um médico agindo diferente da cartilha que elas mesmas haviam aprendido. O que eu trazia de novo as incomodava e suspeito que isso tem a ver com fidelidade e dívida amorosa.

Acreditar que eu estava certo seria dar as costas aos seus antigos professores e tudo que eles lhes ensinaram com sua prática e seu exemplo. Seria trair seus mestres com a “velha novidade” que eu trazia. Isso parecia grave demais para elas. Era preferível continuar com os mesmos procedimentos violentos contra as gestantes – mulheres como elas – e manterem-se fiéis aos seus orientadores e referenciais do que se arriscar e fugir com o jovem aventureiro de ideias renovadoras. Mudar suas condutas seria uma crítica contundente e indisfarçável aos seus superiores.

“Se isso que o senhor faz fosse o certo todos estariam fazendo, seu doutorzinho do passo certo”, disse-me uma delas. E como não entender o medo da novidade, que carregava o risco de colocar por terra tudo que haviam aprendido a duras penas nos últimos 30 anos?

Sobrou da experiência uma válida reflexão: quem ousa mudar um paradigma sempre carrega essa carga: a incompreensão e a resistência serão os únicos resultados certos e obrigatórios. Mas, como eu aprendi muito cedo, é preciso agir por um imperativo ético, jamais pela promessa de sucesso ou para ser, finalmente, aceito e compreendido.

Também restou o agradecimento àquelas mulheres simples de onde retirei muitos ensinamentos válidos para toda a vida.

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