Marcha de Austin

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Mais de 30 mil pessoas participaram da manifestação pelos direitos das mulheres aqui em Austin – Texas, mas segundo os observadores da polícia militar de São Paulo não havia mais de 340 pessoas. Estou esperando a versão verdadeira: a da Globo.

Milhares de mulheres, crianças e homens. Muitos casais de lésbicas, pouquíssimos gays masculinos e transgêneros. Muita alegria, humor, diversão e ordem. Tudo muito comportado, ordeiro e organizado. Poucas palavras de ordem. Nenhum slogan forte, poderoso e viral. Batucada, mas sem samba.

Outra coisa chamativa: não havia nenhuma manifestação anti-homem ou anti-masculina. Não parecia haver um clima de ressentimento. Claro, muitas mulheres estavam lá com seus homens, maridos, irmãos e filhos. Havia um sentimento de inclusão.  Parece que diziam: fiquem do nosso lado, nós precisamos de vocês nessas lutas. Durante todo o percurso  nada vi de agressivo contra os homens.

Foi uma linda demonstração  de inconformidade e resistência civil, mas apenas isso. Faltou ao protesto a força que eu desejaria. Tudo muito amigável e conforme a lei e o direito. Parecia um protesto coxinha; até os policiais eram gente boa. Vi até um policial pedindo desculpas por passar com a viatura no meio da multidão para atender uma emergência.

Minha pergunta é: aonde este tipo de manifestação pode nos levar? Que poder têm 30 mil pesdoas aqui (500 mil em Washington) para fazer uma efetiva  mudança?

Havia um cartaz  no meio da multidão que, de uma certa forma, oferece a resposta.

Well behaved women never make history

(Mulheres bem comportadas nunca entram para a história). O “protesto” foi comportado demais, bonitinho, ajeitadinho, colorido, com mães e bebês em carrinhos, maridos parceiros, cartazes coloridos, diversidade e respeito. Entretanto, ao meu ver, faltou energia transformativa. Faltou enfrentamento ao poder instituído.

Como transformar um desejo social legítimo em poder autoritativo verdadeiro? Isto é: como fazer dessa manifestação ferramenta de mudança e pressão, e não apenas uma festa para a família?

Os “Black blocks” sabem dessa armadilha e por esta razão se negam a participar de movimentos bem comportados. Para eles só vale se cutucar a ferida do poder. Se essa radicalidade lhe parece inaceitável, que outra alternativa nos resta?

Essas manifestações ao meu ver não tem valor em si; elas são marcadores do poder popular. A partir delas é que se constroem propostas de mudanças através da representatividade. Por isso é que são enganosas, pois elas não são um fim, mas um meio de construir ações políticas de mudanças estruturais.

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