A letra desenhada e curvilínea sempre foi esteticamente perfeita. “Letra de professora”, dizíamos. Sua paixão era ler, estudar, conhecer. Todavia, pouco conseguiu de objetivo com essa fantasia; preferiu – ou foi conduzida – à suprema felicidade da maternidade, numa época em que esta era a glória do universo feminino. Entretanto, jamais deixou de sonhar com as letras. Ao lado das colunas das páginas impressas de tantos livros espalhados pela biblioteca ela rabiscava suas ideias, opiniões e pensamentos. Com suas adições curiosas e suspicazes, os livros se coloriam, se avolumavam, ganhavam uma coautoria e, por isso, uma nova dimensão. Assim os autores se engrandeciam. Mais do que ler, minha mãe os estudava, dialogando com os escritores de forma pessoal e íntima.
Os livros na estante agora olham para seu corpo entrevado e envelhecido, ressentidos por sua misteriosa ausência. Reclamavam da falta dos rabiscos, das críticas, das observações curiosas e perspicazes, e principalmente sentem saudade do carinho que sua letra, por décadas, trilhava no papel já amarelado. A tinta gasta das folhas chorava por sua ausência e sentia falta de seu olhar que já não mais a observava e protegia.
— Sabe estes livros aqui na sua frente? Você os leu todos, mais de uma vez! – diz meu pai.
Ela sorri, um pouco sem jeito. Olha com surpresa o arranjo de volumes encadernados e do fundo do seu olhar tenta puxar uma lembrança fugidia, uma ponte para alcançar a lembrança que lhe escapa.
— É mesmo? Que impressionante! — diz ela, com um sorriso envergonhado.
Aquela letra tão bela, todos aqueles livros, aquelas ideias, todos aqueles autores e tantos amores. Todos desapareceram como lágrimas na chuva.
“Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Vi raios C brilharem na escuridão, próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.” – Discurso final de Blade Runner.
No lusco-fusco do quarto seu olhar estático mira o teto, como a viajar pelo tempo a fazer-lhe perguntas. Fecha os olhos para centrar o foco, desejando que o gesto lhe devolva as lembranças. Ponho a mão em sua testa e me aproximo de seu rosto, que lentamente se volta para o meu.
— Mãe, sabe quem sou eu? — pergunto.
Ela esboça um sorriso e, de pronto, responde:
— É claro…
— Então diga quem sou, mãe.
Ela interrompe o sorriso. O rosto fica mais sério; franze as sobrancelhas e aperta os olhos.
— Eu não vou pergatilhar nomes…
Pergatilhar é apenas mais um dos seus curiosos neologismos. Talvez – como saber?- seja um verbo comum, quase banal para o idioma que agora desenvolvia. É provável – outra suposição – que seja muito usado nesse lugar que seus olhos visitam enquanto, dissimuladamente, vasculham o infinito cósmico à procura de lembranças.
