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Dia da Morte

Sobre a mesa desarrumada, onde um trapo sujo guardava a memória das migalhas do dia anterior, ele jogou os cotovelos de forma cansada, enquanto olhava o pão cortado à sua frente que esperava sua justa porção de manteiga e um pouco de mel.

– Eu sei como seria o meu jeito escolhido de morrer, disse Jacob enquanto finalmente colocava na boca uma fatia do pão dormido com a manteiga que Daliah havia deixado sobre a mesa.

– Mal posso esperar para saber, respondeu Hannibal sem desviar o olhar da lareira acesa à frente.

– Diga, Jacob, diga-nos como pretende morrer. Quem sabe criamos coragem para lhe ajudar, continuou com seu habitual sarcasmo.

Jacob largou o pedaço de pão sobre a mesa e olhou para o teto do quarto, como se as imagens que descrevia estivessem projetadas sobre o madeirame corroído e sujo de fuligem.

– Eu escreveria um texto contundente e acusatório contra o Rei, cheio de ofensas hepáticas e indignações intestinas. Não pouparia nem sua família imunda das minhas lanças de fogo; sua mulher nojenta, sua mãe estúpida e nem mesmo Estelle, sua concubina. Sairia no breu da madrugada colando meu ódio com cuspe em centenas de postes próximos ao Palácio. Depois, voltaria para cá, tomaria uma taça de Bourbon, colocaria minha melhor roupa, guardaria um canivete no bolso, deitaria nesta cama suja e aguardaria a chegada da guarda real para lutar minha derradeira batalha.

– Que lindo, Jacob, que heroico, sorriu Hannibal fazendo um muxoxo debochado.

– Caído no chão, com o corpo cheio de balas, ainda teria tempo para um sorriso. Olharia no rosto do soldado que chegasse primeiro, aquele que daria o tiro de piedade, e diria: “Toma aqui meu escarro de sangue. Sente o cheiro da minha pele queimada. Escuta o chiado do meu pulmão que se esvazia. Olha o sangue que pinta de rubro minha palidez. Aqui está um homem cujo ódio nenhuma bala pode matar. Ele seguirá depois que esta carne apodrecer, e vai levar ao inferno aqueles que hoje riem de minha morte.”

Hannibal cortou o último pedaço de fumo e olhou seu amigo por cima do ombro. Ele sabia que a visão de Jacob poderia ser uma fantasia mórbida de glória, mas não estava longe de se tornar um dia verdadeira. Talvez mais próximo do que desejava.

Jules Marie-Vermont, “Le Palais de la Haine” (O Palácio do Ódio), ed. Hachette, pág. 135

Jules Marie-Vermont nasceu em Calais, França, em 1947, apenas poucos anos após a vitória aliada na Europa na Segunda Guerra Mundial. Passou sua infância próximo ao mar e junto aos escombros da Batalha de Dunquerque. Suas memórias mais remotas são angústias derivadas do desastre da guerra, mas também dos sonhos de reconstrução. Estudou literatura na Universidade Lille Nord, na cidade de Lille. Escreveu basicamente contos, ensaios, crônicas e roteiros para a televisão. É um amante da ópera, em especial da obra de Jules Massenet (de quem dizia ter herdado o prenome), tendo escrito uma biografia do grande mestre francês da ópera. Em “Le Palais de la Haine”, Jules narra os últimos meses de Jacob Servant, um jovem panfletário que, ao lado do amigo Hannibal, vive escondido nos arredores do Palácio Real, sonhando com a queda da monarquia que oprime seu povo. O romance acompanha a escalada de Jacob rumo a um confronto final com a guarda real, enquanto Hannibal, mais cético, observa com uma mistura de lealdade e temor o amigo se aproximar cada vez mais da profecia sombria que ele mesmo criou para sua própria morte. É casado com Dominique e tem dois filhos: Manon e Thais (nomes de óperas famosas de Massenet).

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Arquivado em Contos, Pag 135

Lágrimas na Chuva

A letra desenhada e curvilínea sempre foi esteticamente perfeita. “Letra de professora”, dizíamos. Sua paixão era ler, estudar, conhecer. Todavia, pouco conseguiu de objetivo com essa fantasia; preferiu – ou foi conduzida – à suprema felicidade da maternidade, numa época em que esta era a glória do universo feminino. Entretanto, jamais deixou de sonhar com as letras. Ao lado das colunas das páginas impressas de tantos livros espalhados pela biblioteca ela rabiscava suas ideias, opiniões e pensamentos. Com suas adições curiosas e suspicazes, os livros se coloriam, se avolumavam, ganhavam uma coautoria e, por isso, uma nova dimensão. Assim os autores se engrandeciam. Mais do que ler, minha mãe os estudava, dialogando com os escritores de forma pessoal e íntima.

Os livros na estante agora olham para seu corpo entrevado e envelhecido, ressentidos por sua misteriosa ausência. Reclamavam da falta dos rabiscos, das críticas, das observações curiosas e perspicazes, e principalmente sentem saudade do carinho que sua letra, por décadas, trilhava no papel já amarelado. A tinta gasta das folhas chorava por sua ausência e sentia falta de seu olhar que já não mais a observava e protegia.

— Sabe estes livros aqui na sua frente? Você os leu todos, mais de uma vez! – diz meu pai.

Ela sorri, um pouco sem jeito. Olha com surpresa o arranjo de volumes encadernados e do fundo do seu olhar tenta puxar uma lembrança fugidia, uma ponte para alcançar a lembrança que lhe escapa.

— É mesmo? Que impressionante! — diz ela, com um sorriso envergonhado.

Aquela letra tão bela, todos aqueles livros, aquelas ideias, todos aqueles autores e tantos amores. Todos desapareceram como lágrimas na chuva.

“Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Vi raios C brilharem na escuridão, próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.”Discurso final de Blade Runner.

No lusco-fusco do quarto seu olhar estático mira o teto, como a viajar pelo tempo a fazer-lhe perguntas. Fecha os olhos para centrar o foco, desejando que o gesto lhe devolva as lembranças. Ponho a mão em sua testa e me aproximo de seu rosto, que lentamente se volta para o meu.

— Mãe, sabe quem sou eu? — pergunto.

Ela esboça um sorriso e, de pronto, responde:

— É claro…

— Então diga quem sou, mãe.

Ela interrompe o sorriso. O rosto fica mais sério; franze as sobrancelhas e aperta os olhos.

— Eu não vou pergatilhar nomes…

Pergatilhar é apenas mais um dos seus curiosos neologismos. Talvez – como saber?- seja um verbo comum, quase banal para o idioma que agora desenvolvia. É provável – outra suposição – que seja muito usado nesse lugar que seus olhos visitam enquanto, dissimuladamente, vasculham o infinito cósmico à procura de lembranças.

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