Rádio

Eu me criei ouvindo rádio. Rádio de válvula, que a gente espiava por trás para ver as luzinhas. Nasci exatamente no ano em que foi fundada a primeira televisão na minha cidade e eu sempre soube que fazia parte da classe média porque na minha casa havia um aparelho Telefunken e mais tarde uma TV Philco em cores. Quem é “millenial” – e já cresceu conhecendo telefone celular e computador – não consegue imaginar o impacto que era para nós a chegada dessas tecnologias. Nem vou falar da chegada do telefone na minha casa, ou muito mais tarde, nas casas do litoral.

Mesmo assim, eu nunca deixei de gostar de rádio. Rádio para mim tem um sentido nostálgico e afetivo. Eu dormia ouvindo programas da madrugada na rádio Gaúcha. Eu lembro do programa do Jayme Kopstein e seu amigo “Pato”, que ouvia os comentários dos insones durante a noite toda. Meu irmão Roger Jones era fã da tia Eva, a “Cigana Hepagosina” da rádio Eldorado, isso quando tinha uns 10 anos de idade. “Vai dormir, guri!!”, dizia ela no ar, quando o Roger ligava.

Rádio sempre foi maravilhoso para mim. “Olho na TV, ouvido no rádio“, já dizia o comentarista e jornalista Lauro Quadros, pedindo para a gente assistir ao vivo os jogos na TV, mas manter os ouvidos grudados no radinho. Era o que eu fazia.

O rádio de notícias acabou sucumbindo às determinações do mercado e como a rádio mais importante de Porto Alegre é uma afiliada da Globo todo o material que vai ao ar é filtrado pelas editorias. Foram apoiadores do golpe desde o primeiro momento, e agora são fãs ardorosos dos mocinhos da Lava Jato, do Juiz Moro e atacam frontalmente Lula e Ciro Gomes. Perdi completamente o interesse nos seus programas e hoje em dia só escuto a Rádio Cultura.

Escrevo isso apenas porque sempre que visito a cidade de Austin eu escuto a KUT, rádio da Universidade do Texas. Eles fazem um jornalismo apenas sensacional, como não conheço nenhum no Brasil. É jornalismo de matérias espetaculares, sempre com profundidade e inteligência. Se você ligar o rádio a qualquer hora estará escutando uma entrevista maravilhosa sobre um tema interessante e atual. Só hoje de manhã escutei Ricardo Semler (um brasileiro falando sobre a desconstrução do modelo tradicional de empresa), uma matéria sobre a relação entre gravidez na adolescência e pobreza e outra matéria sobre casamentos e número de filhos. Em outra oportunidade eu escutei a história maravilhosa de uma chinesa que queria ser enterrada junto ao seu marido na China, em uma época em que isso era proibido, pois o marido foi enterrado em outro estado. Tocante, emocionante e absolutamente engraçado.

Eu sei que no Brasil as pessoas ligam o rádio para escutar previsão do tempo, trânsito e a desgraça do dia. Muitas acham engraçado quando os locutores fazem piada com as prisões arbitrárias da República de Curitiba e com as caça às bruxas por eles protagonizada, mas eu ainda sonho com uma rádio de conteúdo, com matérias interessantes, repórteres de qualidade e assuntos instigantes. Talvez seja apenas nostalgia, mas é um sonho bom de sonhar.

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