Doulas e tretas

 

Não acredito que haja muita “treta” nos debates contemporâneos sobre os cursos de doulas que se espalharam pelo Brasil. Em verdade eu vejo quase um consenso. O problema é que quando nós começamos a dar cursos no Brasil no início desse século havia dois polos de formação. Havia o grupo da ANDO que eu ajudei a criar com Fadynha, Lucia, Cristina, Renata e Zeza (que depois se desmembrou) e o grupo do GAMA – Ana Cris – no qual eu mesmo cheguei a dar aulas no início. Só isso para todo o Brasil, há 15 anos atrás. Era muito pouco, mas era o desbravamento de um campo completamente novo.

Hoje em dia existem dezenas de cursos proliferando pelo Brasil, o que não é ruim. Não vejo mal algum que possamos capacitar doulas para que elas estejam disponíveis em cada canto do Brasil. Por mim pode haver centenas de cursos, desde que não desvirtuem o papel da doula, retirando ou acrescentando as funções reconhecidas de sua prática.

Lembrando: doula não verifica sinais vitais, não avalia dilatação, não atende parto e não dá assistência médica ou de enfermagem ao recém-nascido ou à mãe. Doula é uma acompanhante de parto treinada par a dar conforto à parturiente.

Vou apenas acrescentar que doula pode ser analfabeta, velha ou adolescente (menor de idade eu faria restrições por causa dos partos hospitalares), homem ou mulher (já briguei muito por causa disso), cis ou trans, bonita, feia, gorda, magra, forte, fraca. Tímida ou espalhafatosa.

Quem escolhe é a mulher.

O problema que surge agora é a disputa por espaço. Criou-se a ideia de que os cursos “longos” são melhores, o que não condiz com a verdade das pesquisas. Também surgiu a ideia de que estágios são “essenciais”. Não creio nisso, apesar de que essa será uma ideia boa quando houver campo de estágio onde ocorram partos minimamente respeitosos. Levar “doulinhas” para assistir parto violento, episiotomia, parto deitado, puxo dirigido e Kristeler no SUS (e no privado) não ajuda ninguém.

Portanto, o choque que testemunhamos agora é o resultado natural de uma ideia de sucesso. Só há conflito porque o modelo contagia a todos. Resta a todo mundo que participa dessa história lutar para que não se repitam as lutas intestinas por poder típicas das velhas corporações.

E que assim seja.

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