A questão das (super) doulas

 

A capacitação de doulas deveria produzir, acima de tudo, um processo de “castração”. Tanto quanto ensinar as ações de uma doula no auxílio direto à gestante as doulas precisam ser orientadas a encarar com dignidade e respeito os seus LIMITES. Doula peitando médico e enfermeira, questionando condutas profissionais e até sequestrado pacientes de hospital já chegaram ao meu conhecimento. A tudo isso entendi como “entusiasmo”, característica da infância de uma ocupação. Passei por isso na infância da minha atuação como médico, em especial pelos dois “furores” principais: o “furor curandis” e o “furor interpretans”, a insânia por curar ou interpretar. Pois muitas doulas passam pelo “furor protetans”, que é o desejo de alguem que se esmera em proteger a paciente das violências institucionais, mas atacando, por vezes, os profissionais no hospital.

Isso não ajuda as doulas e menos ainda as gestantes e precisa ser coibido desde a formação.

Abandonar a obsessão pela “profissionalização” é o caminho que eu ofereci num duro debate em 2014. Naquela época eu já denunciava que não havia sentido em profissionalizar as doulas e a consequente inserção no mundo das corporações. Em pouco tempo as doulas seriam amarradas em torniquetes legais com a criação de sindicatos, conselhos, política corporativa, greves(???), fundo de garantia, regulamentações trabalhistas, etc… até serem sufocadas pela burocracia e pelas lutas internas. Na época eu disse que doula não era profissão (strictu sensu) mas uma ocupação, pelo que que fui prontamente atacado (qual a novidade?).

Pois bem, a atitude esperta dos legisladores de Curitiba (a exemplo do que fizeram em Porto Alegre com sucesso relativo) impôs às doulas uma formação na área da saúde. É óbvio que o objetivo era inviabilizar a atuação das doulas e o grande erro (nosso, do ativismo) foi aceitar essa condição, que nada mais era que um engodo para dividir o movimento de humanização do nascimento. Em Porto Alegre o projeto foi retirado. Acabamos ficando sem uma lei, mas não parimos uma aberração.

A solução, por mais difícil que seja, é mudar esta lei aberrante e não aceitar uma imposição esdrúxula, que não obedece nenhuma experiência ou estudo realizado pelo mundo. Minha ideia é que as doulas devem ser LIVRES de qualquer amarra legal ou corporativa e obedecer apenas ao contrato estabelecido com suas clientes. Pode ser uma postura contra-hegemônica e estranha para um mundo em que muitas ocupações lutam pela profissionalização, mas creio ser a atitude mais inteligente para a solidificação desta atividade na cultura.

As “super-doulas” partem de um equívoco conceitual, ao meu ver: a ideia de que a atividade da doula se sustenta por seu aprendizado cognitivo e racional objetivo, ao invés de ser uma ação de caráter sensitivo, afetivo, emocional e subjetivo. Essas últimas características são amiúde desconsideradas como sendo “não profissionais” e, portanto, não “comercializáveis”. Ledo engano, e a psicanálise que se ocupa em escutar e orientar compassivamente seus clientes é um exemplo disso. Assim, se é de ajuda o arcabouço teórico e prático que uma doula carrega ao oferecer seu auxílio, por certo que não é ele que dará a sustentação para esta árdua tarefa, mas a conexão íntima e pessoal que ela vai estabelecer com a alma da mulher que está em seu momento mais feminino.

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