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Silêncios

A imagem da “enfermeira pedindo silêncio”, que está na parede de tantos hospitais, e a observação da Margot Zetzsche sobre o tema, me trouxeram à memória um fato que Robbie me contou há alguns anos. Ela me descreveu a visita que fez a um hospital que havia iniciado um protocolo de “humanização”, o qual se limitava ao uso irrestrito de analgesias de parto. Além da visão completamente equivocada do que seja humanização (onde analgesias irrestritas seriam o OPOSTO desse conceito), o responsável pelo centro obstétrico – um anestesista, que surpresa – estava plenamente convencido de que a falta de gritos, sussurros e gemidos era um avanço civilizatório. Quando Robbie adentrou o centro obstétrico este médico, de forma altiva e orgulhosa, observou: “Viu? Percebeu o silêncio? Abolimos os gritos das pacientes com nossa política de analgesias para todas.”

Robbie escutou respeitosamente a descrição dos “avanços” descritos pelo profissional, mas não deixou de se questionar o quanto estes silêncios traziam de perguntas a procura de respostas. Qual o significado profundo da falta de vozes, gritos primais, choros e gemidos que se tornaram ausentes numa cena de parto?

No meu modesto entendimento, essa prática tem muito menos a ver com a diminuição das dores das pacientes e muito mais com o arrefecimento da angústia que estes gemidos inequivocamente produzem nos ouvidos dos cuidadores. Este seria, muito provavelmente, o “silêncio dos inocentes”, a mudez de quem foi despida não apenas de suas vestes, mas também de sua autonomia, sua identidade e sua voz. Se os gemidos são parte da subjetividade de uma mulher, o silêncio é mais uma forma de uniformizá-las, e assim, retirar-lhes a incômoda subjetividade.

Humanizar o nascimento nada tem a ver com a supressão química da dor, mas se refere a uma atitude que se propõe a situar esta dor como elemento constitutivo da mãe que nasce (a ponto de fazê-las suportáveis e até ausentes), impedindo que o ambiente, as vozes, os olhares e as mensagens catastrofistas sejam potentes o suficiente para inserir a gestante no círculo vicioso de Medo-Tensão-Dor.

A proposta de humanizar nascimento não pode ser resumida a um protocolo químico, invasivo e medicalizante da assistência para silenciar mulheres, mesmo quando na superfície possa parecer sedutora a simples ablação da dor de uma gestante. Humanização do nascimento é muito mais do que isso: é uma compreensão profunda desse evento e uma visão transformadora do nascimento como fator determinante para o resto da vida das pessoas que dele participam.

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Pugilato no C.O.

– Eu vou quebrar a sua cara, safado!!

– Então venha, seu mau caráter!!

Há muitos anos eu era residente no hospital escola onde estudei e me formei. O plantão havia sido intenso, com muitos partos, atendimentos e cirurgias, mas já havia passado uma hora do último parto, o que oferecia ao nosso setor uma benfazeja calmaria. Eu fazia o trabalho mais pesado, enquanto os R2 faziam as atividades que precisavam mais responsabilidade e experiência. Depois de alguns poucos minutos de descanso no “estar médico” esta tranquilidade foi quebrada com gritos – na verdade uma gritaria recheada de palavrões e ameaças – vindo da entrada do centro obstétrico. Corri para o local e quando lá cheguei vi meu colega de plantão pronto para bater num cidadão que estava ao lado de sua esposa, a qual iniciava seu trabalho de parto. Ambos estavam com os pulsos ao alto, prontos para socar um ao outro. Algo havia acontecido momentos antes que havia escalado para uma altercação física.

Eu imediatamente me coloquei entre os dois, enquanto faíscas de ódio passavam por cima dos meus braços e cabeça. A agitação de ambos era limítrofe: os rostos pálidos cheios de adrenalina indicavam que estavam prontos a se engalfinhar. Depois de alguns momentos, e com muita calma e paciência, consegui convencer meu colega a sair e deixar a questão para que eu cuidasse.

Quando a poeira sentou escutei o que o casal tinha a contar. Disseram que o médico estava “negando” a internação. Disseram também que moravam longe, que não tinham como voltar e só lhes restava chamar as rádios populares, fazer uma queixa, depois chamar a polícia e todas aquelas ameaças que os trabalhadores da linha de frente da assistência à saúde já escutaram alguma vez na vida.

Pedi para ver a ficha do atendimento que meu colega havia acabado de registrar. Os batimentos estavam ótimos, mas o toque revelava duas contrações cada 10 minutos, fracas, e a dilatação era de meros dois centímetros. Ficou fácil entender porque meu colega havia “negado” a internação.

– Ele disse que o hospital está lotado!!! Isso é uma mentira!! Olhe em volta!!

Ficava fácil perceber que o centro obstétrico estava vazio, mas o meu colega havia transmitido apenas a recomendação do setor de neonatologia (do andar de baixo) para não internar ninguém pois eles estavam sem leitos disponíveis. Foi o que ele tentou fazer, talvez sem a necessária delicadeza.

Expliquei ao casal o que havia acontecido, pelo menos do nosso ponto de vista. Relatei a eles sobre a lotação da neonatologia e eles pareceram entender, mesmo sem se convencer. Pedi, então, para que fizessem um acordo comigo. Que saíssem do hospital e ficassem dando voltas na quadra. Ou que fossem ao parque – que fica uns 50 metros distante – e que tomassem um sorvete. Pedi que se tranquilizassem e esperassem sem medo a chegada das contrações do trabalho de parto.

– Aguardem a chegada das contrações fortes. O sol está se pondo, alguns recém-nascidos terão alta. Vão sobrar lugares depois disso. Quando voltarem aqui com muitas contrações eu me responsabilizo por atendê-los. Fiquem tranquilos, eu dou minha palavra. Eu garanto a internação.

Com essas garantias eles se acalmaram e saíram da sala. Voltei para a sala e encontrei meu colega ainda alterado. Eu sabia que, se tivesse internado a paciente (sem nenhuma justificativa), os socos e pontapés poderiam ser transferidos para mim, por isso fui rapidamente dizendo que confirmei sua decisão. Porém, isso não foi suficiente para acalmá-lo. Ainda descontrolado, explodiu em palavras de indignação e raiva.

– Quem eles pensam que são para me dar ordens? Como ousam dizer como devo fazer meu trabalho? São uns ignorantes sem preparo algum!!!

Pedi em vão que se acalmasse. Ele continuou esbravejando, com os olhos injetados de inconformidade.

– Pois eu te digo o que vai acontecer. Eles voltarão aqui por volta das 4 da manhã, durante o meu turno de trabalho. Você sabe o que eu vou fazer? Vou colocá-la na última sala de pré-parto, no fundo do corredor, sem acompanhante algum. Vou escutar daqui os seus gritos e não vou ajudar. Deixarei que ganhe seu filho sozinha para ver seu períneo se arrebentar!!! Só então ela vai entender o nosso trabalho!!

É evidente que meu colega, um sujeito brincalhão e boa praça, jamais faria isso. Não se pode analisar este tipo de arroubo de forma literal. Retirar essa explosão de raiva do contexto seria um crime imperdoável. Ele nunca cometeria um ato tão odioso quanto esse e a tudo isso entendi como uma explosão de indignação, dita para dois ou três de seus colegas imediatamente após uma cena de quase pugilato.

Entretanto, sua frase nunca saiu de minha cabeça. Ela continha, de forma sintética, a quintessência do pensamento médico obstétrico e todos os ensinamentos da antropologia do nascimento que eu ainda viria a conhecer.

“Vou escutar daqui os seus gritos e não vou ajudar. Deixarei que ganhe seu filho sozinho para ver seu períneo se arrebentar. Só então vai entender nosso trabalho.”

Com esta frase ele queria mostrar que a única forma de uma mulher parir com segurança e dignidade é submetendo-se à ordenação médica e deixando-se cortar, abrindo-se e tendo seu filho sacado do seu ventre para entrar nesse mundo – “por baixo ou por cima”. A alienação era a ÚNICA via que poderia lhe garantir segurança; inobstante a via de nascimento, ela seria controlada por forças externas a ela, já que, em essência, era vista como incompetente para dar conta dessa tarefa.

A episiotomia entrava, em seu breve discurso, como um processo civilizatório, uma marca da cultura em seu corpo a lhe lembrar de sua posição social, como uma cicatriz de guerra, uma escarificação, uma tatuagem a lhe dizer eternamente que, para dar conta de suas tarefas femininas, precisou da ajuda de alguém representando o mundo masculino. Mesmo sendo um ato violento, a episiotomia se justificava como uma forma de pedagogia. “É para o seu bem, mãezinha”.

“Eu sou o caminho à verdade e à Vida, e só parirás se for por mim”, já me avisava Max nos primórdios da minha conversão.

Nenhuma “humanização do nascimento” vai prosperar e vicejar sem que esses elementos da cultura sejam lentamente eliminados dos nossos ouvidos como a narrativa condutora e hegemônica. Nenhum avanço será feito se continuarmos a acreditar na defectividade feminina, em sua incompetência essencial e no direito inquestionável da tecnologia de lhes expropriar deste momento especial.

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Iconografia

A expressão do rosto de ambos é o que deveria ser mostrado nas novelas, nos filmes e apresentado para as crianças na escola. A felicidade contagiante da imagem conta mais sobre a realidade profunda do parto do que compêndios de obstetricia, por conjugar de forma holográfica uma serie de verdades escondidas. A iconografia do parto, desde que a Medicina se apoderou do evento patologizando-o no seu intento expropriativo, nos deixou como legado as imagens da dor, do abandono, do sofrimento, do medo e do horror. Por muitas décadas a face do parto foi a emergência, a tragédia, o drama e a defectividade essencial do processo. A culpa seria, a partir de então, das das mulheres e seu mecanismo falho, seus úteros débeis e suas vaginas dentadas.

Por outro lado, desde a emergência da especialidade médica no parto, o canto de sereia da alienação feminina do evento se fez ouvir. Primeiro ao admitir que cirurgiões operando na lógica da intervenção tomassem conta de um evento fisiológico, onde a regra deveria ser da não-intervenção, do respeito aos ciclos e da paciência com os tempos. Depois retiraram das mulheres a ambiência calorosa e reasseguradora que por milênios as cercou, levando-as para hospitais frios e assépticos, onde a lógica que contamina suas paredes é a da doença e das ações etiocêntricas.

Ato contínuo, a família foi apartada da gestante, os bebês de suas mães, o leite foi separado do peito e os cirurgiões se tornaram os intermediários entre os núcleos familiares e a cultura patriarcal, usando o momento de pura energia transformativa como uma porta de entrada para doutrinar mães e bebês para seu lugar submisso na cultura.

A obstetricia, assim estabelecida, vem a se tornar um braço poderoso do patriarcado na cultura do Ocidente.

A partir desses dois pontos – os cirurgiões no comando e o parto hospitalar – o caminho para a total alienação do parto estava pavimentado. O controle panóptico do pré-natal, as drogas, os exames, as ultrassonografias (em sua maioria) inúteis e invasivas, a ilusão biologicista do controle total e a mecanização extrema de todo o processo foram os seguimentos naturais.

A foto perturbadora de um casal sorrindo e feliz no momento do nascimento, experimentando essa passagem com êxtase e alegria, causa espanto porque o modelo obstétrico, ao tornar esse momento um “ato médico” não consegue apreender a gama infinita de manifestações sociais, fisiológicas, emocionais, psicológicas e espirituais que esse evento comporta. Ao se ater apenas nas questões mecânicas e biológicas, com foco especial na patologia e cobertos pelo manto do medo, é natural que as cesarianas – com sua imagem ilusória de segurança, limpeza, ciência e silêncio – se tornassem a fotografia padrão dos nascimentos no Brasil.

Criamos um mapa tão distante da realidade que a essência profunda do parto desapareceu e, quando sua real imagem aparece na tela da cultura, ela causa espanto e assombro.

Para mudar a cultura do parto também é necessário mudar sua iconografia. Cabe a nós, testemunhas do milagre, retratá-lo em sua mais completa grandiloquência.

Foto de Anna Galafrio

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ACOG e doulas

“Dados publicados mostram que uma das mais efetivas ferramentas para melhorar os resultados de trabalho de parto e parto é a presença contínua de uma pessoa de apoio, como a Doula” American College of Obstetricians nas Gynecologists.

Durante 20 anos a comunidade do médica e o pessoal hospitalar (com notáveis e maravilhosas exceções) boicotou a presença de doulas, mesmo quando os dados já estavam presentes mostrando a efetividade destas na atenção ao parto. Para essa negativa, nunca houve uma real preocupação com a proteção da gestante, a qualidade do atendimento ou a preservação do espaço hospitalar. Jamais a preocupação foi a experiência subjetiva da gestante ou sua proteção. Não era esse o medo…

A REAL questão em jogo era o poder, o domínio inquestionável e sem obstáculos sobre o corpo da gestante. A presença da doulas – por mais silente e reservada que fosse – representava a vigilância da sociedade sobre esta apropriação. A presença doulas inibe abusos, impõe que o consentimento informado seja obedecido e exige respeito dos profissionais sobre direitos reprodutivos e sexuais. Para além disso, elas usam técnicas de conforto, alívio da dor e reasseguramento emocional que muitas vezes são a grande diferença na experiência subjetiva de parto da mulher. Algumas que conheci eram verdadeiras rochas de confiança e segurança para os momentos de fraqueza (até dos profissionais).

O reconhecimento público do valor das Doulas feito por uma instituição de caráter conservador e fortemente corporativista como a ACOG mostra que não era mais possível esconder (como fizeram por mais de 20 anos) a qualidade superior do atendimento que se alcança com o trabalho das doulas. Isso coloca as doulas em outro patamar, próximo das palavras proféticas de John Kennell:

“Se doulas fosse uma medicação, seria antiético não utilizá-las”.

Agora, qualquer obstaculização ao livre trabalho destas auxiliares nos hospitais deve ser denunciado ao Ministério Público da mesma forma como se denuncia uma injustificável negativa de socorro.

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Tabus

Em uma comunidade que participo foram postadas as fotos do parto do homem trans realizado na água que rodaram o mundo. Por ser uma comunidade progressista o tema “trans” é bem recebido, especialmente porque dá destaque à liberdade e à diversidade. Boa parte dos integrantes se diz feminista. Apesar de encontrar manifestações de “estranheza” (da qual também fui acometido) não vi nenhuma posição debochada ou desrespeitosa sobre o tema nessa comunidade.

Entretanto, mesmo nas comunidades de esquerda, fica evidente por esta postagem que, mais do que a questão trans, o PARTO ainda é o tabu mais intenso e forte. Os comentários seguem a mesma trilha conhecida de culpar o nascimento – e sua configuração humilhante e dolorosa – pelo sofrimento das mulheres. “Degradante” foi a palavra usada, mais de uma vez.

Espero falar sobre isso nas lives que farei nos próximos dias. O discurso de muitas mulheres continua sendo a penalização de sua própria condição feminina, carregada como uma cruz e/ou uma maldição. As que tiveram partos fáceis – ou rápidos, indolores, suportáveis – creditam esse resultado à “sorte”, algum mistério genético ou metabólico que as protegeu de uma desgraça quase inevitável.

Quase ninguém ousa questionar o entorno, a atenção obstétrica ou a cultura que circunda, envolve e permeia a perspectiva dessas mulheres sobre o fenômeno do parto. O discurso se mantém inalterado, inobstante o viés de esquerda ou direita. O corpo das mulheres é defectivo, imperfeito e falho, responsável pelo tortura de parir.

A culpa continua sendo da natureza – misógina, cruel e insensível ao martírio feminino. Assim, fica claro que a luta pela humanização do nascimento não pode prescindir da educação das meninas (e meninos) sobre os significados últimos do feminino e do parto, para que a geração que agora chega possa ter uma compreensão mais profunda desses dilemas.

PS: mantive o nome das pessoas que se manifestaram porque não faço críticas às suas posturas – que são legítimas e sinceras – mas as utilizo com o um retrato da visão da cultura – em especial das mulheres – sobre a questão do parto contemporâneo.

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