Abortos e Armas

 

Como sempre os debates estão emocionalmente determinados e atacam os aspectos morais, e não factuais. Todavia, minha experiência diz que militantes pró-vida não são “matadoras de mulheres” e as ativistas pró-escolha não são “assassinas de bebês”, porém enxergam esta questão por diferentes perspectivas – e AMBAS são válidas.

Eu já estive nos dois lados do debate e me recordo vividamente dos discursos inflamados que fiz na defesa dos dois paradigmas. Em ambos eu achava estar correto e defendendo o bem, a justiça e a vida. Não acho que algo egoísta ou perverso me movia nessas discussões e não acho que eu estava “errado” nas minhas defesas.

Mudei de lado porque a realidade me venceu, mas olho para o meu antigo “lado” de forma compreensiva, mesmo que eu o tenha abandonado há quase 30 anos. Alguns argumentos que leio nas mídias sociais dizem que deveríamos investir em educação como se o problema fosse o “desconhecimento” ou a “ignorância” por parte das pessoas que engravidam sem planejamento ou vontade. Entretanto, posso afirmar que isso não é verdade. Eu mesmo tive dois filhos não planejados enquanto era um estudante de medicina namorando uma estudante de enfermagem. Ignorância? Conte outra…

Mais uma vez eu lembro do debate sobre as armas nos Estados Unidos. Os defensores da “segunda emenda”, que lutam pela liberalidade das armas para o uso quase irrestrito pelos cidadãos, dizem que a educação seria a solução, mas por mais que se fale na TV, nas escolas, nas igrejas ou na internet os massacres se sucedem. Essa é a realidade: a educação não eliminou os tiroteios em escolas.

O mesmo ocorre na gravidez indesejada. Mesmo que, a exemplo das armas, se suponha que algum sucesso tenha sido alcançado, por mais que se eduquem os jovens as gravidezes indesejadas continuarão a ocorrer, levando muitas meninas a ações extremas como os abortos inseguros, e as mortes daí derivadas continuarão a ser um drama afetando, em especial, as camadas mais pobres da população.

A razão para essa discrepância é simples de entender: as motivações para puxar um gatilho ou transar estão muito aquém da racionalidade; elas se escondem nos estratos inferiores de nossa consciência, nos porões sujos e escuros onde moram nossas emoções mais primitivas – como o ódio, o ressentimento e o desejo – onde a razão, como facho de luz que ilumina o entendimento, não consegue entrar para clarear as decisões.

Por isso mudei, mas ainda entendo o fervor de quem defende o lado que um dia eu acreditei ser o mais correto.

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