Aborto

Tenho uma certa autoridade para falar sobre interrupção da gravidez. Acho o aborto algo horrível. Nunca faria um aborto, como sujeito, pai, avô ou médico. Fui pai aos 21 anos, ganhava meio salário mínimo, mas o aborto nunca esteve no meu horizonte Todavia, como eu disse, minha opinião e experiência pessoais não tem nenhuma relevância. Existe um drama contemporâneo que precisa ser tratado com coragem.

Passei os primeiros 30 anos da minha vida sendo contrário ao aborto, numa posição ideológica de “proteção ao feto”, proteção à vida e sem aceitar qualquer violência contra indefesos. Entendo exatamente todos os argumentos contrários ao aborto; já os usei e por muitos anos. Entretanto, foi preciso testemunhar o horror e o absurdo da morte de uma jovem de não mais de 25 anos em um plantão durante a residência para saber que o combate ao aborto não resolvia problema algum para os fetos e apenas acrescentava outros para as mulheres em desespero. Não era aceitável ver uma vida ser exterminada por uma gestação indesejada.

Meu choque foi com a crueza da morte, a pele marmórea, os lábios roxos, a mão gelada e o olhar vítreo fixo no teto. A cena não consegue escapar da minha mente, mesmo depois de 3 décadas. Aquela menina foi vítima de nossa insensibilidade, nosso muro social, nossa condenação das pobres ao inferno das curiosas, das agulhas, do Citotec clandestino e do submundo das clínicas de aborto.

Liberar o aborto legal é uma questão de democracia no acesso à saúde. “Ricas fazem aborto, pobres morrem tentando”. Não pode haver real justiça quando as de baixo arriscam suas vidas e as de cima tem todas as vantagens que o dinheiro garante.

Por mais que seja terrível a ideia de exterminar um ser em potencial que cresce no ventre de uma mulher nossa sociedade precisa aceitar que a luta contra o aborto MATA milhares de mulheres jovens era não diminui o número de embriões eliminados. Falhamos.

Precisamos pensar nessas mulheres e suas vidas. Continuar condenando essas meninas à morte precoce é um horror que não cabe mais neste mundo.

Como sou um velhinho de barba branca, quase um Dumbledore, posso dizer que o nível do debate sobre o aborto continua o mesmo dos últimos 40 anos. Lá pelas tantas aparece um “Só Deus pode dar e tirar uma vida“, e aí não resta nada a acrescentar que possa fazer qualquer diferença.

Esse debate parece com aqueles relacionados com a posse de armas nos Estados Unidos. O FATO de que mulheres morrem nos abortos clandestinos e de que crianças morrem nas escolas nos massacres parece ser desimportante diante de valores abstratos como a “liberdade”, “segunda emenda” ou “direito a nascer”. A realidade crua acaba sucumbindo diante das ideologias.

Para posições tão díspares não há convencimento possível, por isso a ação só pode ser política. Só a mobilização das próprias mulheres poderá oferecer o confronto necessário para a mudança. Não se conquistam estas mudanças na estrutura social com conversas e debates.

Sejamos sensatos.

A nossa opinião pessoal sobre o tema é irrelevante. Os dados sobre mortalidade na clandestinidade falam mais alto e por isso a liberação do aborto é uma necessidade, ou se quiserem, um “mal necessário”. E não adianta reclamar, pois já contamos vítimas demais causadas pelo nosso moralismo. O Brasil vai liberar a realização de abortos seguros, com limites reconhecidos por outros países, igual às outras nações do mundo, isso é uma questão de tempo. Aborto legalizado é um passo civilizatório inegável, pois salva vidas e oferece autonomia à mulher sobre seu próprio corpo.

Que a “onda verde” nos atinja!!!

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s