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Pela vida

“Acho um desserviço e um erro grave continuarem chamando os defensores da legalização e da descriminalização do aborto de “Pró-aborto”, assim como os que lutam para manter a proibição e a ilegalidade de “Pró- vida”. Ninguém é pró-aborto. Somos todos “pró-vida”, a questão não é moral, maniqueísta ou uma batalha do bem contra o mal num roteiro de novela popular. Os termos mais corretos seriam “Pró-proibicão” e “Pró-legalização”. O resto é discurso moralista vazio.”

Ben Carter-Smith, “Apologies, Mrs Cathy”, Ed.  Baroque,  pág 135

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Abortos e Armas

Como sempre os debates estão emocionalmente determinados e atacam os aspectos morais, e não factuais. Todavia, minha experiência diz que militantes pró-vida não são “matadoras de mulheres” e as ativistas pró-escolha não são “assassinas de bebês”, porém enxergam esta questão por diferentes perspectivas – e AMBAS são válidas.

Eu já estive nos dois lados do debate e me recordo vividamente dos discursos inflamados que fiz na defesa dos dois paradigmas. Em ambos eu achava estar correto e defendendo o bem, a justiça e a vida. Não acho que algo egoísta ou perverso me movia nessas discussões e não acho que eu estava “errado” nas minhas defesas.

Mudei de lado porque a realidade me venceu, mas olho para o meu antigo “lado” de forma compreensiva, mesmo que eu o tenha abandonado há quase 30 anos. Alguns argumentos que leio nas mídias sociais dizem que deveríamos investir em educação como se o problema fosse o “desconhecimento” ou a “ignorância” por parte das pessoas que engravidam sem planejamento ou vontade. Entretanto, posso afirmar que isso não é verdade. Eu mesmo tive dois filhos não planejados enquanto era um estudante de medicina namorando uma estudante de enfermagem. Ignorância? Conte outra…

Mais uma vez eu lembro do debate sobre as armas nos Estados Unidos. Os defensores da “segunda emenda”, que lutam pela liberalidade das armas para o uso quase irrestrito pelos cidadãos, dizem que a educação seria a solução, mas por mais que se fale na TV, nas escolas, nas igrejas ou na internet os massacres se sucedem. Essa é a realidade: a educação não eliminou os tiroteios em escolas.

O mesmo ocorre na gravidez indesejada. Mesmo que, a exemplo das armas, se suponha que algum sucesso tenha sido alcançado, por mais que se eduquem os jovens as gravidezes indesejadas continuarão a ocorrer, levando muitas meninas a ações extremas como os abortos inseguros, e as mortes daí derivadas continuarão a ser um drama afetando, em especial, as camadas mais pobres da população.

A razão para essa discrepância é simples de entender: as motivações para puxar um gatilho ou fazer sexo estão muito aquém da racionalidade; elas se escondem nos estratos inferiores de nossa consciência, nos porões sujos e escuros onde moram nossas emoções mais primitivas – como o ódio, o ressentimento e o desejo – onde a razão, como facho de luz que ilumina o entendimento, não consegue entrar para clarear as decisões.

Por isso mudei, mas ainda entendo o fervor de quem defende o lado que um dia eu acreditei ser o mais correto.

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Aborto

Tenho uma certa autoridade para falar sobre interrupção da gravidez. Acho o aborto algo horrível. Nunca faria um aborto, como sujeito, pai, avô ou médico. Fui pai aos 21 anos, ganhava meio salário mínimo, mas o aborto nunca esteve no meu horizonte Todavia, como eu disse, minha opinião e experiência pessoais não tem nenhuma relevância. Existe um drama contemporâneo que precisa ser tratado com coragem.

Passei os primeiros 30 anos da minha vida sendo contrário ao aborto, numa posição ideológica de “proteção ao feto”, proteção à vida e sem aceitar qualquer violência contra indefesos. Entendo exatamente todos os argumentos contrários ao aborto; já os usei e por muitos anos. Entretanto, foi preciso testemunhar o horror e o absurdo da morte de uma jovem de não mais de 25 anos em um plantão durante a residência para saber que o combate ao aborto não resolvia problema algum para os fetos e apenas acrescentava outros para as mulheres em desespero. Não era aceitável ver uma vida ser exterminada por uma gestação indesejada.

Meu choque foi com a crueza da morte, a pele marmórea, os lábios roxos, a mão gelada e o olhar vítreo fixo no teto. A cena não consegue escapar da minha mente, mesmo depois de 3 décadas. Aquela menina foi vítima de nossa insensibilidade, nosso muro social, nossa condenação das pobres ao inferno das curiosas, das agulhas, do Citotec clandestino e do submundo das clínicas de aborto.

Liberar o aborto legal é uma questão de democracia no acesso à saúde. “Ricas fazem aborto, pobres morrem tentando”. Não pode haver real justiça quando as de baixo arriscam suas vidas e as de cima tem todas as vantagens que o dinheiro garante.

Por mais que seja terrível a ideia de exterminar um ser em potencial que cresce no ventre de uma mulher nossa sociedade precisa aceitar que a luta contra o aborto MATA milhares de mulheres jovens era não diminui o número de embriões eliminados. Falhamos.

Precisamos pensar nessas mulheres e suas vidas. Continuar condenando essas meninas à morte precoce é um horror que não cabe mais neste mundo.

Como sou um velhinho de barba branca, quase um Dumbledore, posso dizer que o nível do debate sobre o aborto continua o mesmo dos últimos 40 anos. Lá pelas tantas aparece um “Só Deus pode dar e tirar uma vida“, e aí não resta nada a acrescentar que possa fazer qualquer diferença.

Esse debate parece com aqueles relacionados com a posse de armas nos Estados Unidos. O FATO de que mulheres morrem nos abortos clandestinos e de que crianças morrem nas escolas nos massacres parece ser desimportante diante de valores abstratos como a “liberdade”, “segunda emenda” ou “direito a nascer”. A realidade crua acaba sucumbindo diante das ideologias.

Sejamos sensatos.

A nossa opinião pessoal sobre o tema é irrelevante. Os dados sobre mortalidade na clandestinidade falam mais alto e por isso a liberação do aborto é uma necessidade, ou se quiserem, um “mal necessário”. E não adianta reclamar, pois já contamos vítimas demais causadas pelo nosso moralismo. O Brasil vai liberar a realização de abortos seguros, com limites reconhecidos por outros países, igual às outras nações do mundo, isso é uma questão de tempo. Aborto legalizado é um passo civilizatório inegável, pois salva vidas e oferece autonomia à mulher sobre seu próprio corpo.

Que a “onda verde” nos atinja!!!

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