Ubi et Quomodo

Entrei em mais um debate a respeito da ideia de que, chamar as cesarianas de “extração fetal”, nada mais seria do que um exercício de crueldade e uma estratégia suicida para o ativismo do parto humanizado.

Os argumentos os conheço muito bem; eles acompanham as discussões sobre parto e nascimentos humanizados pela internet há duas décadas. De um lado algumas mulheres (muitas vezes ativistas) reclamando que chamar uma cesariana de “cirurgia”, de “extração fetal” ou “operação” servia para afundar ainda mais a combalida autoestima de uma mulher cujo projeto de um parto normal havia fracassado. Do outro lado, alguns propõem – como eu – que os nomes sejam usados de forma correta, sem máscaras, sem tratar as mulheres como torrões de açúcar que se desmancham com qualquer palavra mais dura utilizada. Não há porque chamar Fusquinha de Mercedes, nem cesariana de “parto cesáreo”, ou “parto via alta”, pois estes estratagemas semânticos se prestam para banalizar a cirurgia e torná-la um procedimento “igual” ao parto. Tipo a fórmula láctea, chamada de “leite” para confundir este produto artificial com o leite humano.

Mas cesarianas não são partos. Os ativistas do parto normal sabem muito bem as diferenças entre um procedimento inscrito na fisiologia do corpo e nas entranhas obscuras do nosso DNA, e uma cirurgia de extração fetal. Os riscos de ordem física para ambos – mãe e bebê – são por demais descritos na literatura, e sobre eles não cabe mais dúvida alguma. Para além disso, temos as cicatrizes emocionais deixadas na alma das mulheres que foram impedidas de um processo fisiológico. Não há como confundir os dois eventos, e a linguagem não pode ser prestar a esta mistificação.

Por outro lado, é claro que os debates sempre ficam acesos quando se toca nesse ponto; afinal, estamos tratando da sexualidade nua e crua do nascimento. Falar de parto é falar de sexo em sua expressão mais simbólica – e poderosa. O escritor “maldito” (que também era médico) Louis-Ferdinand Celine nos alertava: “Esqueçam o sexo; se querem ver a sexualidade, olhem para um parto.” Por esta razão esses choques se tornam sempre duros; eles são, em verdade, expressões relacionadas ao mito da “menas main“, que assola as mulheres diante da avalanche de tecnologias que deslocaram o leite das mamas e os partos das vaginas.

Então eu me pergunto: como criar um ponto de acordo nestes conflitos? Depois de escutar estas queixas (de ambos os lados do espectro) por três décadas eu acho que as respostas são agressivas porque a PERGUNTA é mal formulada. Não se trata de saber COMO descrever uma cesariana tal qual uma grande cirurgia de extração fetal e suas naturais consequências para a saúde do binômio mãe-bebê, mas QUANDO poderemos oferecer uma explicação mais adequada do evento que se passou. Quase todos os ativistas concordam que dizer o nome correto do que aconteceu é importante para evitar o engodo embutido nas construções linguísticas do “parto cesariana” e do “parto via alta”. Ao mesmo tempo, todos sabem que os médicos criam essa confusão para diminuir o impacto das cesarianas e fazer com que se tornem mais “palatáveis” pela cultura. Entretanto, é também verdade – e quase todos reconhecem – que encontrar uma mãe na sala de recuperação do hospital e lhe dizer : “Que pena que não conseguiu ter seu parto normal e acabou numa extração fetal” não tem nenhum sentido humano e é apenas uma expressão de crueldade e falta de sensibilidade.

Portanto, eu proponho que olhemos para o dilema da nominação dos eventos não mais pela perspectiva do “como” chamar, mas do “quando” isso pode ser feito para uma puérpera para que ela possa entender os significados últimos de uma cirurgia, seja para fazer adequadamente seu luto ou seja para evitar os erros que porventura possa ter cometido na construção do seu não-parto.

Creio que assim agindo vamos poupar muitas batalhas que continuam a proliferar no espaço cibernético sobre esse tema tão palpitante.

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