Histórias de Parto

Tenho visto muita gente escrevendo ultimamente sobre os “relatos de parto” de forma crítica, em especial no que diz respeito à expropriação da história vivida na primeira pessoa pela sua protagonista. Tais reflexões enfatizam que tais narrativas deveriam pertencer à família privilegiando o ponto de vista de quem permitiu que a história perpassasse as veias, fibras e sangue do seu próprio corpo. Para além disso, criticam a exposição da paciente e a utilização destas histórias como ferramentas de auto promoção.

Apesar da necessária crítica gostaria de recordar que o movimento de humanização do nascimento no Brasil a partir dos anos 2000 se alicerçou na confluência cibernética de milhares de histórias de parto partindo de inúmeros personagens. A estas histórias compartilhadas devemos muito do que construímos.

Acho que este refluxo sobre as narrativas de parto é importante principalmente pelos dois últimos pontos levantados: a questão da privacidade e a publicidade abusiva.

A privacidade é uma questão crucial nos dias de hoje, em especial num mundo em que se esfarela a vida íntima, onde conversas privadas se tornam públicas e a exposição exagerada de questões íntimas gera uma perda insidiosa dos limites entre o público e o privado. Todavia, resguardar a privacidade de um momento sagrado como o parto é essencial para que ele mantenha seu caráter íntimo e familiar.

O abuso de exposição do outro como forma de publicidade do seu trabalho também precisa ser objeto de contestação. Durante os anos que se seguiram ao surgimento do fenômeno das doulas essa era uma prática mais comum do que deveria. Na medida em que o entusiasmo foi se cercando de sensatez este tipo de exagero também foi arrefecendo. Hoje em dia acho que é bem raro.

Entretanto, eu discordo da idéia de que os relatos de parto pertencem somente à mãe. Acreditar nisso seria o mesmo que afirmar que a paixão de Cristo só a ele pertence, ou que a história da conquista da lua só pertence aos astronautas que lá pisaram.

Não. As histórias pertencem a todos, cada qual diante de sua perspectiva do evento. Um médico descrevendo um parto o faz diante de um viés absolutamente particular e distinto, assim como fará a doula ou o pai do bebê. A descrição da mãe é a mais celebrada, mas é um equívoco imaginar que seja a única. Assim é que se constrói uma narrativa: pela paralaxe de muitos olhares em que nenhum é melhor do que o outro, mas se sobrepõem para descrever um fenômeno único diante de múltiplas percepções..

Os relatos de parto pertencem à todos que dele participaram e cada um tem o direito de produzir sua história a partir das memórias e emoções suscitadas. Por outro lado, a preservação da privacidade sobre um evento de tal relevância é condição essencial para o respeito ao nascimento. Se não houver conflito entre estas duas perspectivas então haverá sentido e relevância nas histórias contadas.

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