A cartola e a bengala de Karpov

“Sou um homem muito dedicado à família”. disse ele com enfado.

Na realidade Karpov é um solitário, incapaz de cultivar amigos, reservado e tímido. Taciturno, indignado e misantropo. Um fóbico social, desajeitado e desinteressante. Não lhe sobram muitas alternativas além dos filhos e da mulher. Fosse ele um mero desconhecido sua mulher e filhos não veriam nele nenhuma das inúmeras qualidades morais que enumera para si mesmo. Deveras, se o encontrassem, murmurariam entre cochichos: “que velho chato e inoportuno!!“.

Mais do que entreveros consuetudinários, os laços de sangue lhe servem de boias salva-vidas. Não fosse por esse líquido rubro e viscoso que compartilha com os seus sua alma seria nada mais do que uma diminuta semente presa à sua casca corpórea, que solitariamente rolaria pelo jardim de uma casa há muito abandonada.

Sua proteção contra o completo abandono as produziu metodicamente com as ferramentas mais primitivas. Karpov antevia que seu destino era a solidão.

Alexei Ustinov, “Цилиндр и трость Карпова” (A cartola e a bengala de Karpov), Coletânea de contos, Ed. Vostok, pág. 135

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